segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Crítica: Drama em Família (Ten Thousand Saints, 2015)

Baseado no livro homônimo de Eleanor Henderson, "Ten Thousand Saints" é um relato sincero sobre essas pessoas que encontramos na vida e chamamos de família.

por Fernando Labanca

Bastante curioso a construção desta história. Contá-la em uma breve sinopse é quase como tirar o brilho de tudo aquilo que ela é feita, mas vou arriscar, apenas como forma de introduzir o texto. Teddy e Jude são melhores amigos, eis que certa noite, Teddy resolve voltar mais cedo para sua casa. Poderia ser um evento qualquer, mas esta pequena ação definiu o rumo na vida de todos. Na mesma noite, Jude descobriu que é adotado e que seu pai (Ethan Hawke) traiu sua mãe e teve uma filha fora do casamento. Anos depois, no final da década de 80, longe do pai e no auge de sua rebeldia, Jude (Asa Butterfield) recebe em sua cidade a filha bastarda, sua irmã sem sangue, Eliza (Hailee Steinfeld), que resolveu tentar algum tipo de aproximação. É nesta noite em que ela também conhece Teddy (Avan Jogia), seu melhor amigo. E este é outro evento que acaba por transformar seus destinos, unindo-os de uma forma que eles jamais poderiam prever.


O filme é bom. No entanto, é aquele tipo de obra que vai se tornando ainda melhor quando refletida, quando os créditos finais caem e você começa a se dar conta de como tudo aconteceu, do porquê de ter acontecido. Quando você começa a ligar os pontos e percebe que nada foi por acaso, tudo tem seu significado e tudo, extremamente tudo, se encaixa. É muito bonita toda a trama, é singela e muito humana. Como adaptação não sei avaliar, no entanto, existe um roteiro muito bem construído aqui, que flui bem durante seus minutos e entrega ótimas surpresas ao seu decorrer, longe de ter apenas uma boa premissa, "Ten Thousand Saints" é um filme que do começo ao fim tem algo a dizer, algo novo a mostrar, uma outra informação a ser levada em consideração. A cada instante me via surpreso, nunca sabia exatamente para onde a história seguiria e qual seria exatamente seu propósito. Esta é a grandeza da obra, ela acontece e quando enfim nos demos conta, tudo faz sentido, tudo está conectado e desta forma, ela emociona, inspira e enche o coração com todos os sentimentos que expõe. A liberdade que os jovens da época encontravam na música, a segurança que encontravam em suas seitas, o afeto que sentiam diante daqueles seres que assim como eles, estavam a procura de respostas, a procura de um lugar para serem acolhidos.

A produção busca na época retratada uma parte daquilo que representa e define seus personagens. O cenário musical tão forte na década, era também muito presente na vida de todos eles e a soundtrack ilustra bem a cultura daquele momento, sem apelar para bandas e canções óbvias, trazendo personalidade e vigor à obra. A granulada fotografia, suas cores e a forma como as cenas são construídas também nos traz algo nostálgico. O elenco é excelente e todos funcionam juntos, existe uma energia muito boa entre eles, dando ainda mais verdade ao texto, com seus ótimos diálogos e suas relações tão conflituosas. Dos veteranos e sempre competentes Ethan Hawke, Emile Hirsch, Emily Mortimer e Julianne Nicholson aos mais novos e ainda assim, extremamente talentosos Asa Butterfield e Hailee Steinfeld.

"Drama em Família" traz mais do que uma grande história, traz reflexão, traz sentimento. E mesmo perdendo o fôlego na segunda metade, consegue fechar bem suas ideias e conclui de forma satisfatória. Vi algo sobre refúgio e como ele é mais do que uma estrutura de concreto. Refúgio se encontra nas pessoas e no afeto que as unem. O filme é um pouco sobre isso, sobre esses seres que esbarram em nossas vidas, nos tocam, nos cativam e abraçamos como membros de uma família, uma família que se cria, que nasce com o tempo. Seres aleatórios no meio de tantos santos que nos cercam, assim como diz suas inusitadas referências religiosas. Quando parei para pensar, enfim, no que tinha acabado de ver, refleti sobre aquilo que nem é tão óbvio na trama mas é aquilo que a define, a sintetiza. Pensei em como a vida é cheia dessas coincidências absurdas, em como atos tão banais de nossa rotina dão origem a uma outra saída. onde um evento é capaz de alterar tudo. Uma única escolha, um outro caminho a ser traçado. Então, voltei no começo, quando Teddy saiu mais cedo da casa naquela noite e ele sem querer mudou seu destino e de todo mundo ao seu redor. A vida é feita desses ciclos, de uma ação que impulsiona a outra e nos deixa perdidos, reflexivos, sempre pensando no "e se" e no "como teria sido".

NOTA: 8,5




País de origem: EUA
Duração: 113 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Diretor: Shari Springer Berman, Robert Pulcini
Roteiro: Shari Springer Berman, Robert Pulcini
Elenco: Asa Butterfield, Hailee Steinfeld, Ethan Hawke, Emile Hirsch, Emily Mortimer, Julianne Nicholson, Avan Jogia



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