quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Crítica: Rango (Rango, 2011)

Em um ano fraco para o gênero animação, 2011 trouxe algumas pérolas como a produção da Disney "Enrolados" e este que tive o prazer de ver recentemente, "Rango", primeira animação feita pela empresa de efeitos especiais de George Lucas, a ILM (Industrial Light & Magic). O longa dirigido por Gore Verbinski, o visionário por trás dos três primeiros episódios da saga "Piratas do Caribe", trás alguns clichês, mas ainda assim conta com um visual bem realizado e uma história interessante recheada de boas referências.

por Fernando Labanca

Conhecemos Rango (Johnny Depp, no original), um camaleão da cidade grande, que vive num aquário e tem como grandes amigos alguns brinquedos de plástico. Passa suas horas construindo peças teatrais, praticando assim, seu grande talento em atuar. Até que por acidente, acaba parando em uma velha estrada e a procura de água é aconselhado por um estranho a caminhar até a poeira, pois então encontraria água. No meio do caminho conhece Dona Feijão (Isla Fisher) que o leva até a Cidade de Poeira. Vendo que aquela cidade do Velho Oeste não era seu hábitat natural, Rango decide por em prática aquilo que ele fazia de melhor, se camuflar, agir como aquele povoado agia. É então que ele se faz de um camaleão muito durão, capaz de botar medo em todos ao seu redor, criando uma série de mentiras sobre seu passado violento, a partir de então, o Prefeito o elege o novo xerife do local, o ser que traria novamente a organização nesta cidade sem lei.

Rango passaria a ser aquele que faria aquelas criaturas acreditarem em algo novamente, pois todos passavam por uma fase complicada, uma época sem esperança, onde a seca havia tomado conta do local. O camaleão passa, então, junto com Dona Feijão e uma equipe a descobrir este problema da água, que sumira e há muito não retornara. E nesta jornada, Rango passa a refletir sobre quem realmente é e se aquilo que estava vivenciando era apenas parte de um papel a ser interpretado. 


"Quem você é? Posso ser qualquer coisa" dizia Rango para si mesmo. Tão preocupado em se encaixar no mundo e fazer parte dele. Tão preocupado em encontrar uma definição para si mesmo. Mas ele era um ator e podia ser tudo, essa era sua vantagem. Mas até que ponto sua interpretação dizia a respeito dele mesmo? Qual era o limite de seu personagem e de sua verdadeira face? É então que a questão existencialista entra em pauta em "Rango" e no meio da diversão, nos faz refletir e nos faz pensar sobre o quão difícil é encontrar palavras para nos definir, mais do que isso, o quão difícil é nos compreender e perceber quem realmente somos. O filme usa como premissa e leva ao pé da letra a idéia "descubra quem você é e faça disso seu propósito". Além desta grande sacada, o roteiro de John  Logan nos apresenta diálogos inspiradores, muitas vezes, até maduro e complexo demais para uma animação, mas que nos faz refletir e provar o quão inteligente é esta obra, uma aventura com grandes propósitos e boas intenções. 

"Rango" se mostra ainda mais maduro quando Gore Verbinski insere em sua obra grandes referências do cinema, desenvolvendo brilhantemente bem o gênero western, desde os diálogos, até os cenários, as tavernas, os trejeitos das personagens, a cultura daquele povoado, o deserto, enfim, tudo arquitetado e resultando em algo nada menos que genial. As referências vão além quando as cenas de aventura remetem a clássicos como "Star Wars" e "Apocalypse Now" e sua antológica Cavalgada das Valquírias, deixando espaço, então, para o compositor Hans Zimmer mostrar todo seu talento, onde na própria trilha sonora encontramos as referências, mais do que isso, Zimmer mostra aqui uma das mais fantásticas composições de trilha do ano. A diversão ainda fica por conta das sátiras que o roteiro aproveita para fazer ao gênero, como quando Rango sem saber o que fazer como xerife decide cavalgar junto com seus companheiros, sem destino, sem razão, só por cavalgar, o detalhe é que ele não poderia fazer isso sem uma trilha sonora potente e a bela iluminação do pôr do sol a seu fundo. Hilário. 

Hilário. É uma outra palavra que define "Rango". Um filme extremamente engraçado, com ótimas piadas, como há tempo não se via em uma animação. A história, por vezes, é clichê, como por exemplo, o nascer de um herói num local que este desconhece, ou um animal de estimação da cidade grande se perder em um habitat que não é o seu devido um acidente, enfim, clichês não faltarão. Por outro lado, para acompanhar essas idéias repetidas, o roteiro insere uma boa trama, a busca pela água é muito bem cuidada, consegue criar um elo entre a aventura e o público e a conclusão do tal "mistério" é até interessante, fazendo toda a história fazer sentido e fazer com que tudo tenha valhido a pena. As personagens são bastante interessantes e acabam sendo um grande ponto positivo do filme, são carismáticas e suas histórias são bem desenvolvidas. 

"Rango" é sim a melhor animação de 2011. Muito mais do que uma técnica impecável em que tudo é extremamente bem realizado, onde cada criatura em cena surpreende pela riqueza de detalhes da animação. É um filme inteligente, maduro, com boas piadas que fazem rir diferente de todas as outras animações lançadas no ano passado. Enfim uma animação que merece ser admirada. Recomendo. 


NOTA: 9



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