quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Crítica: Histórias Cruzadas (The Help, 2012)

Vencedor nas categorias de Melhor Elenco, Melhor Atriz (Viola Davis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) tanto no último SAG Awards quanto no Critics Choice Movie Awards, além de ter vencido o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro 2012, "Histórias Cruzadas" é um dos indicados a Melhor Filme no Oscar 2012. Baseado na obra "A Resposta" de Kathryn Stockett, o filme é um típico "feel good movie", que mostra de forma leve assuntos polêmicos como a segregação racial nos Estados Unidos na década de 60, longe de querer ser um filme político, sempre se apoiando em grandes atuações para ser um entretenimento agradável.

por Fernando Labanca

Na trama, somos apresentados a Eugenia Skeeter (Emma Stone), que batalha para ser uma renomada escritora após o término da faculdade. Vive na conservadora e pequena cidade de Jackson, no estado de Mississipi, sul dos Estados Unidos, onde suas melhores amigas já são mães e contam com apoio de empregadas domésticas negras para cuidarem de seus filhos e de suas casas, mulheres que não podiam cuidar dos próprios filhos para cuidar dos brancos, mulheres que não tinham o simples direito de usar os mesmos talheres e os mesmos banheiros de suas patroas. Uma cidade que até mesmo possuia leis de segregação, onde negros e brancos não poderiam usufruir dos mesmos direitos. Quando Skeeter consegue um emprego como jornalista, escrevendo pequenos artigos sobre dicas domésticas, ela decide ir mais longe, decide escrever pelo ponto de vista de quem mais entendia do assunto, as próprias empregadas, dando um espaço que elas não tinham direito de ter, falando sobre suas perdas, suas dores, seus sofrimentos.

É então que entra em cena Aibileen Clark (Viola Davis) e Minny (Octavia Spencer), duas mulheres negras que depois de passarem por situações complicadas decidem usar a escrita de Skeeter como a voz que nunca tiverem, mas sempre com receio de serem descobertas, isso porque na cidade havia mulheres como Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), uma jovem dona de casa, que simbolizava o auge do racismo daquela sociedade, que usava de sua forte influência para humilhar os negros, em sua oposição, havia a dondoca Celia Foote (Jessica Chastain), esposa do grande amor de Hilly, e que não conseguia se encaixar naquela comunidade, sendo assim, a única que não conseguia enxergar a separação entre os brancos e negros.


Como havia escrito antes, "Histórias Cruzadas" não tem a intenção de ser um filme político, por vezes nos situa de forma bem sutil os acontecimentos históricos como os discursos inspiradores de Martin Luther King, a morte de um militante negro, além das ações da KKK. A intenção é fazer um filme agradável, leve, que consiga trazer reflexões, sem ser polêmico, mas que ainda não subestime a inteligência de seu público, criando a todo momento conflitos interessantes, com fundamento, mostrando as faces de suas personagens e nem sempre caminhando pelo caminho mais fácil. Apesar de explorar em inúmeras sequências o clichê, o filme soube dosá-lo de forma correta, sem prejudicar o bom roteiro, que consegue explorar sempre boas situações de cada personagem, dando espaço então, para as grandes atrizes ali presentes, brilharem. No fundo, é isso o que o filme é, o filme das atrizes, onde cada uma brilha a sua maneira, onde o roteiro e o diretor souberam expor o melhor de cada uma em cena. Ou seja, um filme honesto em sua proposta, que consegue e com muito êxito emocionar e divertir.

O filme conta com a direção de Tate Taylor, iniciante por trás das câmeras, muitas vezes deixa isso claro, quando em algumas cenas o filme carece de uma direção mais segura. Mas no geral, consegue conduzir bem o longa, principalmente ao conseguir explorar o melhor de suas atrizes. "Histórias Cruzadas" ainda conta com a ótima trilha sonora do sempre eficiente Thomas Newman, além de ter o apoio de ótimas canções de Johnny Cash, Bob Dylan, entre outros, que ajudam a compor a época ali mostrada, é válido citar ainda os bons figurinos e cenários, tudo muito bem cuidado.

"The Help", no original, ainda que possuindo inúmeras qualidades que provam o sucesso inesperado que teve nas bilheterias norte-americanas, acaba que tendo como o seu grande ponto positivo, as atuações, que provavelmente sem elas, o filme não teria a força que teve. Emma Stone é jovem, mas aqui prova mais uma vez que veio para ficar, que mesmo estando diante de atrizes tão talentosas e tão experientes, não perde seu brilho e consegue ter a força necessária para protagonizar a obra, e que por mais que sua veia seja cômica, não desaponta nos momentos mais dramáticos. Outra protagonista que vem arrecadando inúmeros elogios é Viola Davis, que merece o Oscar no qual está sendo indicada, eleva o nível do longa, trás tanto sentimento para sua personagem, é impossível não se emocionar com sua Aibileen. E ainda temos as coadjuvantes de ouro, a provável vencedora do Oscar, Octavia Spencer, que trás humor para o longa, também merece seu prêmio, é ótima e parece a vontade em seu papel. Para alívio cômico também temos a sempre fantástica Bryce Dallas Howard, que consegue com sua grande interpretação impedir que sua personagem seja uma mera caricatura, e mostra uma força diante das câmeras, fazendo uma das vilãs mais adoráveis dos últimos tempos. Além delas, as veteranas Sissy Spacek, Allison Janney e Mary Steenburgen. E para fechar com chave de ouro, uma das grandes e gratas surpresas do filme, Jessica Chastain, que surge parecendo uma mera personagem, mas sua presença parece ser a prova de que o filme é muito maior do que parece, sua Celia Foote surpreende, e sua atuação é incrível, não há nada que me lembrasse dela em "A Árvore da Vida", consegue trazer humor e drama em seus diálogos, merecendo também sua indicação ao Oscar, mais do que isso, a vitória. Uma grande coadjuvante.

"História Cruzadas" é um filme que de início parece pequeno, caricato, que nos faz ter a certeza de que não sairá daquilo. É então que ele nos surpreende, e ao decorrer da trama, vai nos provando, através dos bons conflitos, dos belos diálogos e das memoráveis atuações, a força que parecia esconder de imediato. É mais do que só um filme agradável para se ver e se sentir bem consigo mesmo, é um filme poderoso, marcante, que sabe ser leve sem ser medíocre, ordinário. Uma obra que diverte com seu humor e que sabe conduzir seus conflitos para cenas fortes de emoção, por vezes, o longa parece forçar para conquistar as lágrimas de seu público, e na maioria delas, consegue e com muito êxito, e mesmo utilizando do clichê para isso, o longa consegue emocionar. Provavelmente não levará o Oscar de Melhor Filme, mas sem sombra de dúvida, já é um dos melhores a ter sido indicado. 

NOTA: 9


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