quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crítica: Os Descendentes (The Descendants, 2012)

Vencedor do prêmio de Melhor Filme - Drama e Melhor Ator (George Clooney) no último Globo de Ouro, vencendo também, neste último domingo, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas, como Melhor Roteiro Adaptado, o novo filme do conceituado Alexander Payne é um dos favoritos ao Oscar 2012. Tendo o Havaí como cenário, o longa mostra com delicadeza a relação de uma família e a dificuldade de enfrentar a morte de alguém que se ama. Com características indies, o filme inova em absolutamente nada, sendo assim, um dos mais fracos a ter sido indicado ao Oscar este ano.

por Fernando Labanca

George Clooney interpreta Matt King, mora numa ilha no Havaí, é um pai e marido ausente que só pensa no trabalho. Até que recebe a notícia de que sua esposa sofreu um acidente de barco e está em coma, respirando por máquinas, mas que infelizmente não haveria salvação, estava a caminho certo da morte. É então que ele vai atrás de suas filhas, a pequena Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley), a mais velha, que estudava fora e passa a acompanhar o pai numa missão nada confortável, visitar todos os parentes e revelar a difícil situação de sua mãe, para que todos pudessem se despedir. E nessa jornada, Matt precisa a reaprender a ser pai, mas tudo piora, quando Alexandra revela que sua mãe o estava traindo. Enquanto avisava os parentes, ele, então, passa a pesquisar sobre quem era este amante, além de ter que lidar com uma outra grande responsabilidade, vender ou não um grande terreno da família. 


Consagrado por filmes como "As Confissões de Schimdt" e "Sideways- Entre Uma e Outras", Alexander Payne realiza seu trabalho mais fraco com "Os Descendentes". Baseado no livro de Kaui Hart Hemmings, o filme vem recebendo várias premiações por seu roteiro e fiquei me perguntando o porquê. Não há nada que apareça neste filme que já não tenha aparecido em outro e de forma mais interessante, o roteiro abusa de clichês, não inova. A velha história do pai ausente, e o pior que em nenhum momento isso é provado, só que vimos é um pai que faz de tudo por suas filhas, mas é muito mais bonito falar que ele era ausente para o público se emocionar, mas não funciona, não há como nos comover ao ver a aproximação desta família se nunca sentimos o quanto o afastamento os afetava. A história da revelação de uma traição após a morte também não é nova, e aqui acontece de forma fria e a busca de Matt por descobrir quem é o amante gera momentos de humor forçado. Também temos a antiga história daquele homem que precisa decidir se vende as terras da família mas a consciência pesa ao perceber que aquilo era uma grande herança. Não preciso revelar qual foi a decisão dele ao final do filme. Todo o roteiro é extremamente previsível, nada que surge na tela nos surpreende e nada justifica a sua realização. 

"Os Descendentes" é uma obra sutil, simples, sem nenhum grande momento, nada que fique na memória após seu término. E ao utilizar de fórmulas já muito usadas no cinema se torna uma obra ainda mais dispensável. Além dos já citados clichês, o filme ainda utiliza meios um tanto quanto patéticos para arrancar risos de seu público, como a inserção de um tal de Sid (Nick Krause) na história, melhor amigo de Alexandra que acompanha a família em sua jornada, o problema que ele é aquele jovem padrão de filmes para adolescentes norte-americanos, forte e bobão, colocando em risco a maturidade com que a obra "pretende" passar. Algumas atitudes de Matt beiram ao ridículo como a corridinha que ele faz para investigar sobre o caso de sua esposa com outro homem, mais uma vez, forçando o humor, ou como quando ele se esconde atrás de arbustos para este tal amante não vê-lo, de forma infantil, que me fez questionar qual era a real intenção desses roteiristas. O filme parece ser maduro, mas nunca alcança um nível aceitável de maturidade, parece querer ser indie, mas a base de um filme desses, é ser original, e em nenhum momento este é. Também não diverte como pretende, muito menos emociona como pretende. Um filme que literalmente morre na praia.

Como roteiro, o longa decepciona, a direção de Alexander Payne não inova em nada também, não fazendo sentido sua indicação ao Oscar. Outra nomeação que me pareceu um pouco injusta foi a categoria Melhor Ator para George Clooney. E assim como todo filme que ele faz o vendem como "a melhor atuação de sua carreira", mas não, não é. Fez trabalho infinitamente superior em "Amor Sem Escalas" de 2009, aqui, o ator faz um pouco de si mesmo com um pouco de alguns outros papéis que já interpretou, por vezes, realiza cenas lamentáveis como a já citada "corridinha com chinelos", é péssimo quando tenta forçar humor. Por outro lado, há boas cenas como quando ele se despede de sua esposa, um dos melhores momentos do filme. Do restante do elenco, nomes como Judy Greer e Matthew Lillard, todos corretos, mas quem realmente se destaca é a jovem Shailene Woodley, que faz um trabalho notável, realizando algumas das melhores cenas.

Há um pouco de Cameron Crowe em algumas sequências, como as cenas de família, as conversas paralelas ou quando Matt observava os quadros nas paredes enquanto histórias dos ancestrais eram contadas (todas inúteis e insistentes, aliás), remetendo "Vanilla Sky" e "Elizabethtown", mas de forma menos interessante. É isso o que Alexander Payne faz, reutiliza fórmulas e realiza uma obra vazia e sem nenhuma criatividade, num roteiro mal desenvolvido e de pouca profundidade, até mesmo a narração em off está lá, a personagem principal narrando a própria vida, impedindo o público de fazer suas próprias conclusões. Por fim, "Os Descendentes" acaba valendo a pena por algumas cenas, pelas boas locações que criam um clima bem único para o filme auxiliado pela trilha sonora havaiana e pela boas e sinceras atuações e Shailene Woodley, acredito que tenha sido a melhor coisa do filme. Se tivesse sido lançado no meio do ano, não há dúvidas de que teria sido ignorado pelas premiações, provando estar entre os indicados só para realmente preencher a cota de filmes indie do ano, mas infelizmente esteve longe de alcançar o primor de obras deste "sub-gênero", como inclusive "Sideways" do próprio Alexander. Vale a pena arriscar, mas não crie muitas expectativas.


NOTA: 5


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