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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crítica: Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children, 2014)

O drama real sobre pessoas que não existem.

por Fernando Labanca

Tendo sua estreia oficial no último Festival de Toronto, "Homens, Mulheres e Filhos" conta com a direção do ótimo Jason Reitman, responsável por obras como "Juno" e "Jovens Adultos". O longa, baseado no livro de Chad Kultgen, faz um relato bastante intimista sobre como a internet modificou as relações familiares, sobre como os relacionamentos se tornaram tão vazios e tão distantes quando todos decidiram depositar suas frustrações e seus anseios no mundo virtual, o único local onde qualquer interação social se tornou possível.

O longa inicia com um discurso, narrado pelo britânico pomposo de Emma Thompson, sobre a sonda Voyager, que lançada em 1977, transmite, em um disco, diversas gravações, como mensagens, sons e imagens, vestígios da raça humana. E assim, traça seu paralelo, chegando à Terra, revelando, de forma melancólica, que esses vestígios de nossa civilização, também se foram por aqui. A partir de então, conhecemos diversos personagens, homens, mulheres e seus filhos. Casamentos despedaçados, pais superprotetores, adolescentes e adultos que se relacionam através de redes sociais, que encaram uma outra noção de contato, jovens que se sentem reais num mundo inexistente, que criam avatares ou personagens em sites ou videogames para suprir o vazio que a realidade deixou.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crítica: Os Descendentes (The Descendants, 2012)

Vencedor do prêmio de Melhor Filme - Drama e Melhor Ator (George Clooney) no último Globo de Ouro, vencendo também, neste último domingo, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas, como Melhor Roteiro Adaptado, o novo filme do conceituado Alexander Payne é um dos favoritos ao Oscar 2012. Tendo o Havaí como cenário, o longa mostra com delicadeza a relação de uma família e a dificuldade de enfrentar a morte de alguém que se ama. Com características indies, o filme inova em absolutamente nada, sendo assim, um dos mais fracos a ter sido indicado ao Oscar este ano.

por Fernando Labanca

George Clooney interpreta Matt King, mora numa ilha no Havaí, é um pai e marido ausente que só pensa no trabalho. Até que recebe a notícia de que sua esposa sofreu um acidente de barco e está em coma, respirando por máquinas, mas que infelizmente não haveria salvação, estava a caminho certo da morte. É então que ele vai atrás de suas filhas, a pequena Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley), a mais velha, que estudava fora e passa a acompanhar o pai numa missão nada confortável, visitar todos os parentes e revelar a difícil situação de sua mãe, para que todos pudessem se despedir. E nessa jornada, Matt precisa a reaprender a ser pai, mas tudo piora, quando Alexandra revela que sua mãe o estava traindo. Enquanto avisava os parentes, ele, então, passa a pesquisar sobre quem era este amante, além de ter que lidar com uma outra grande responsabilidade, vender ou não um grande terreno da família. 


Consagrado por filmes como "As Confissões de Schimdt" e "Sideways- Entre Uma e Outras", Alexander Payne realiza seu trabalho mais fraco com "Os Descendentes". Baseado no livro de Kaui Hart Hemmings, o filme vem recebendo várias premiações por seu roteiro e fiquei me perguntando o porquê. Não há nada que apareça neste filme que já não tenha aparecido em outro e de forma mais interessante, o roteiro abusa de clichês, não inova. A velha história do pai ausente, e o pior que em nenhum momento isso é provado, só que vimos é um pai que faz de tudo por suas filhas, mas é muito mais bonito falar que ele era ausente para o público se emocionar, mas não funciona, não há como nos comover ao ver a aproximação desta família se nunca sentimos o quanto o afastamento os afetava. A história da revelação de uma traição após a morte também não é nova, e aqui acontece de forma fria e a busca de Matt por descobrir quem é o amante gera momentos de humor forçado. Também temos a antiga história daquele homem que precisa decidir se vende as terras da família mas a consciência pesa ao perceber que aquilo era uma grande herança. Não preciso revelar qual foi a decisão dele ao final do filme. Todo o roteiro é extremamente previsível, nada que surge na tela nos surpreende e nada justifica a sua realização. 

"Os Descendentes" é uma obra sutil, simples, sem nenhum grande momento, nada que fique na memória após seu término. E ao utilizar de fórmulas já muito usadas no cinema se torna uma obra ainda mais dispensável. Além dos já citados clichês, o filme ainda utiliza meios um tanto quanto patéticos para arrancar risos de seu público, como a inserção de um tal de Sid (Nick Krause) na história, melhor amigo de Alexandra que acompanha a família em sua jornada, o problema que ele é aquele jovem padrão de filmes para adolescentes norte-americanos, forte e bobão, colocando em risco a maturidade com que a obra "pretende" passar. Algumas atitudes de Matt beiram ao ridículo como a corridinha que ele faz para investigar sobre o caso de sua esposa com outro homem, mais uma vez, forçando o humor, ou como quando ele se esconde atrás de arbustos para este tal amante não vê-lo, de forma infantil, que me fez questionar qual era a real intenção desses roteiristas. O filme parece ser maduro, mas nunca alcança um nível aceitável de maturidade, parece querer ser indie, mas a base de um filme desses, é ser original, e em nenhum momento este é. Também não diverte como pretende, muito menos emociona como pretende. Um filme que literalmente morre na praia.

Como roteiro, o longa decepciona, a direção de Alexander Payne não inova em nada também, não fazendo sentido sua indicação ao Oscar. Outra nomeação que me pareceu um pouco injusta foi a categoria Melhor Ator para George Clooney. E assim como todo filme que ele faz o vendem como "a melhor atuação de sua carreira", mas não, não é. Fez trabalho infinitamente superior em "Amor Sem Escalas" de 2009, aqui, o ator faz um pouco de si mesmo com um pouco de alguns outros papéis que já interpretou, por vezes, realiza cenas lamentáveis como a já citada "corridinha com chinelos", é péssimo quando tenta forçar humor. Por outro lado, há boas cenas como quando ele se despede de sua esposa, um dos melhores momentos do filme. Do restante do elenco, nomes como Judy Greer e Matthew Lillard, todos corretos, mas quem realmente se destaca é a jovem Shailene Woodley, que faz um trabalho notável, realizando algumas das melhores cenas.

Há um pouco de Cameron Crowe em algumas sequências, como as cenas de família, as conversas paralelas ou quando Matt observava os quadros nas paredes enquanto histórias dos ancestrais eram contadas (todas inúteis e insistentes, aliás), remetendo "Vanilla Sky" e "Elizabethtown", mas de forma menos interessante. É isso o que Alexander Payne faz, reutiliza fórmulas e realiza uma obra vazia e sem nenhuma criatividade, num roteiro mal desenvolvido e de pouca profundidade, até mesmo a narração em off está lá, a personagem principal narrando a própria vida, impedindo o público de fazer suas próprias conclusões. Por fim, "Os Descendentes" acaba valendo a pena por algumas cenas, pelas boas locações que criam um clima bem único para o filme auxiliado pela trilha sonora havaiana e pela boas e sinceras atuações e Shailene Woodley, acredito que tenha sido a melhor coisa do filme. Se tivesse sido lançado no meio do ano, não há dúvidas de que teria sido ignorado pelas premiações, provando estar entre os indicados só para realmente preencher a cota de filmes indie do ano, mas infelizmente esteve longe de alcançar o primor de obras deste "sub-gênero", como inclusive "Sideways" do próprio Alexander. Vale a pena arriscar, mas não crie muitas expectativas.


NOTA: 5


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Crítica: Amor & Outras Drogas (Love & Other Drugs, 2010)

Comédia romântica para maiores!

por Fernando Labanca

No final de janeiro estreou aqui no Brasil "Amor e Outras Drogas", filme que conta com atuações de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway e com a direção do veterano, mas novato no gênero, Edward Zwick (O Último Samurai, Diamante de Sangue).

A história inicia no final da década de 90, e vemos a trajetória de Jamie Randall (Gyllenhaal), um vendedor promissor de uma loja de eletro eletrônicos e um conquistador barato, capaz de conquistar as mais belas mulheres com apenas algumas palavras. Eis que é demitido e por viver numa família de médicos acaba seguindo o mesmo rumo, e passa a ser estagiário como representante de vendas numa das maiores empresas farmacêuticas, a Pfizer. Para isso, começa a ter contato com médicos, passa a ter alguns rivais e ter a chance de sair com várias mulheres. Até que conhece Maggie (Hathaway), num consultório médico, uma artista e com apenas 26 anos sofre do mal de Parkinson.

Por alguns mal entendidos, eles se conhecem, e sem muitos rodeios vão para os finalmente. Para a sorte de Jamie, ela também não queria nada sério, nada a mais do que sexo, e entre os lençóis, os dois vão compartilhando confidências, e quando menos esperavam, estavam apaixonados. Para melhorar ainda mais sua vida, surge um remédio no mercado que influencia e muito no seu crescimento profissional, o Viagra, e graças ao seu talento em vendas a pílula passa a se popularizar, e ele, promovido. Mas um agravante impede de ambos terem um relacionamento normal, a doença de Maggie avança, é quando Jamie percebe o porquê dela querer ele sempre tão distante e o porquê dela nunca conseguir se entregar a alguém mesmo sendo tão incrível. E enquanto ele se vê crescendo no trabalho, também assisti a degradação de sua amada, é quando percebe que há coisas na vida que valem mais a pena lutar e nisso passa a apoiá-la, indo muito mais além do que ele imaginava de um relacionamento.




"Amor e Outras Drogas" vai muito além do que apenas uma comédia romântica, além de conseguir inserir o drama, o filme aborda temas interessantes como o mal de Parkinson, muito bem trabalhado na trama, sem ser apenas um pano de fundo e consegue emocionar com a sensibilidade e realismo. E todo o universo farmacêutico, os conflitos existentes nesta área, a ética de trabalho, até mesmo críticas a indústria que lucra com a desgraça alheia. O romance e humor também estão presente, mas o longa não se permite ser taxado nem limitado, atravessa fronteiras e vai muito além do óbvio.

O porquê de ser uma comédia para maiores, está nas cenas quentes que o filme nos proporciona. Anne Hathaway e Jake Gyllenhaal literalmente se despem para compor seus personagens, poucas roupas e cenas de sexo, bastante sensuais e muito raras no gênero, e que por incrível que pareça, eleva o nível da produção, por se arriscar, ir além do que o público está acostumado a ver em comédias românticas. E tudo isso é mostrado com bastante seriedade, com cuidado, sem parecer vulgar ou obsceno, tudo soa natural, nada forçado, de forma bela e muito corajosa.

Os atores principais fazem do filme ainda melhor. Jake Gyllenhaal está ótimo, não é a primeira vez que o ator surpreende na tela, mas este é um de seus melhores, versátil, convincente, divertido e carismático, mas também faz bonito nas cenas mais dramáticas. Mas o drama fica mesmo por conta de Anne Hathaway que tem uma atuação brilhante, convense tanto no humor, que sempre foi seu forte, quanto no drama, que nos transmite com fidelidade sua dor, sua insegurança. Dentre os coadjuvantes, Oliver Platt, se supera, com um personagem interessante e infelizmente pouco aproveitado pelo roteiro, diferente de Josh Gad, que interpreta o irmão de Jamie, com muito destaque na trama, ele faz as piores sequências do filme, em parte pela atuação forçada e copiada de outros papéis, em outra pelo roteiro que lhe entregou as piores falas e as piores piadas, infelizmente destruindo várias cenas que poderiam ter ficado melhores. Ainda há Hank Azaria, Judy Greer e Gabriel Match, corretos.

A época é bem retratada pelos figurinos, pelos cenários, a falta de tecnologia e principalmente pela trilha sonora. Alguns hits interessantes que nos remetem aquele tempo como "Two Princes" do Spin Doctors, por outro lado, a trilha sonora também comete seus erros, como a repetição de uma faixa instrumental todas as vezes que o casal enfrenta algum dilema ou alguma discussão importante, perdendo um pouco do clima e ficando muito repetitivo.

Enfim, palmas para Edward Zwick, um dos últimos diretores que poderiam ser escalados para uma comédia romântica, surpreende pela versatilidade, não é seu melhor trabalho, mas ainda assim é uma obra interessante que vale a pena ser conferida. "Amor e Outras Drogas" por muitas vezes perde o ritmo, existem sequências que poderiam ser deletadas, por outro lado há cenas incríveis que valem o ingresso e o final é bem satisfatório, mas por fim, o melhor de tudo mesmo, é ver Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway, atores incríveis em cena, carismáticos e com uma bela química entre eles. Recomendo.

NOTA: 8.0

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