sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Crítica: Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children, 2014)

O drama real sobre pessoas que não existem.

por Fernando Labanca

Tendo sua estreia oficial no último Festival de Toronto, "Homens, Mulheres e Filhos" conta com a direção do ótimo Jason Reitman, responsável por obras como "Juno" e "Jovens Adultos". O longa, baseado no livro de Chad Kultgen, faz um relato bastante intimista sobre como a internet modificou as relações familiares, sobre como os relacionamentos se tornaram tão vazios e tão distantes quando todos decidiram depositar suas frustrações e seus anseios no mundo virtual, o único local onde qualquer interação social se tornou possível.

O longa inicia com um discurso, narrado pelo britânico pomposo de Emma Thompson, sobre a sonda Voyager, que lançada em 1977, transmite, em um disco, diversas gravações, como mensagens, sons e imagens, vestígios da raça humana. E assim, traça seu paralelo, chegando à Terra, revelando, de forma melancólica, que esses vestígios de nossa civilização, também se foram por aqui. A partir de então, conhecemos diversos personagens, homens, mulheres e seus filhos. Casamentos despedaçados, pais superprotetores, adolescentes e adultos que se relacionam através de redes sociais, que encaram uma outra noção de contato, jovens que se sentem reais num mundo inexistente, que criam avatares ou personagens em sites ou videogames para suprir o vazio que a realidade deixou.



A tecnologia e a internet invadiu a rotina das pessoas de forma devastadora, somos completamente dependentes a ferramentas como facebook ou whatsapp, e assim, as relações foram alteradas, temos uma outra noção de amizade ou relacionamentos, tudo, agora, é uma questão de status, de seguidores. O roteiro, também assinado por Reitman, aborda justamente como a internet interferiu nas famílias, como os pais tem dificuldade em acompanhar essa dedicação dos jovens à realidade virtual, como as conversas se tornaram mais difíceis. Na trama, até mesmo o sexo parece mais fácil diante de um computador. Na cama, maridos e esposas preferem a companhia de uma tablet. Filhos preferem descobrir a cura para seus problemas em fóruns, ao lado de desconhecidos, do que conversar com os próprios pais. É triste e vazio o modo como a história vai caminhando, é até mesmo curioso e bastante interessante seu constante silêncio, e como diversos diálogos são realizados através de caracteres e não pela fala, destacando, nesses instantes, as ótimas soluções gráficas. Seus personagens parecem não ter muito a dizer, ao mesmo tempo em que demonstram uma estranha insatisfação, como seres deslocados na própria realidade a que foram submetidos a viver, que não compreendem, mas seguem adiante.  

Pode até parecer um debate bastante propício para os tempos de hoje. Até é, entretanto, devido aos rumos que o roteiro resolveu seguir e a maneira como tratou suas ideias, tornou este debate em algo enfadonho, repetitivo e de pouca relevância. O roteiro traz uma visão muito limitada sobre tudo, sobre famílias, sobre, acima de tudo, de seres humanos. Parece não compreender seu próprio objeto de estudo e como consequência disso, não traz verdade, não consegue gerar nenhuma conexão com a realidade, no qual, nitidamente, era sua intenção. Claro que é possível levantar muitas discussões sobre seu tema, mas nada do que ele relata é bom e convincente o bastante para ser considerado um argumento. Jason Reitman perde a chance, aliás, de gerar algum estudo sobre nossa atual realidade quando decide construir personagens tão estereotipados, e mesmo se tratando de diversas histórias num mesmo filme, ele não consegue trazer nenhuma diferença entra elas, parece relatar o mesmo lado de uma mesma moeda, onde só existe um tipo de casamento, daqueles que se divorciaram ou deveriam. Adolescentes, ou são os populares do colégio, com direito a uma líder de torcida, ou são completamente desajustados e incompreendidos pelo mundo. Não há como gerar um debate sobre a sociedade, quando só existe um tipo de homem, mulher e filho.

Os personagens pouco causam empatia ou alguma relação com o público. Entram e saem de cena e pouco importamos. E apesar de contar com um bom elenco, o diretor em nenhum momento explora o melhor deles. Nem mesmo Adam Sandler, que acreditei ser sua possível recuperação, se salva. Jennifer Garner surge extremamente caricata e sei que ela é uma grande atriz, mas infelizmente, mais uma vez, é mal aproveitada. De restante, vemos Judy Greer e Dean Norris em boas participações, a ótima Rosemarie DeWitt e os jovens esforçados Ansel Elgort, Kaitlyn Dever e Olivia Crocichia, que assim como os adultos, sofrem por personagens limitados e que pouco se desenvolvem. Ainda que o roteiro tenha boas intenções e uma boa premissa, ele se perde ao apostar em tramas tão fracas, que ao seu fim, percebemos que muitas nem saíram do lugar e pouco mostraram em seus longos minutos, como o casal que passa a ter outras relações através da internet ou a mãe que posta fotos da filha num site, que demonstram ao final a sensação de que, ao escreverem o roteiro, não tinham noção em como essas tramas terminariam, mas mesmo assim, resolveram escrevê-las. Tudo soa perdido, mal aproveitado, inclusive sua desnecessária narração em off, que entra em cena para dizer coisas inúteis. Por outro lado, em seus momentos finais, ao ler o belo texto de Carl Sagan, "Pálido Ponto Azul", relacionando com seus personagens, consegue fechar bem sua obra, ainda que dê a triste sensação de que essas palavras valeram mais que o filme inteiro, mais curto, mai sucinto, porém, muito mais verdadeiro, mais tocante.

"Homens, Mulheres e Filhos" é um filme bastante pretensioso, diria até, o projeto mais ambicioso da carreira de Jason Reitman, entretanto, de longe, o pior que ele realizou até aqui. Claro, que não posso negar seu indiscutível talento por trás das câmeras, ainda é um grande diretor, que sabe o que faz, o longa tem bom ritmo e possui cenas de grande qualidade, além de outros fatores, como sua boa edição e trilha sonora. É sua obra menor, daquelas facilmente esquecidas e que nada me fez lembrar dos bons momentos de sua filmografia. Um drama recheado de ideias fracas, uma visão conservadora sobre a humanidade, que tenta, de forma bastante desastrosa, fazer um estudo sério sobre os tempos atuais, mas que erra justamente por usar, como base de seus argumentos, estereótipos e clichês, conseguindo, por fim, um relato raso que se apoia numa profundidade e complexidade falsa.

NOTA: 5 





País de origem: EUA
Duração: 119 minutos
Distribuidor: Paramount Pictures
Elenco: Kaitlyn Dever, Ansel Elgort, Judy Greer, Rosemarie DeWitt, Olivia Crocichia, Dean Norris, Jennifer Garner, Adam Sandler, Elena Kampouris, J.K. Simmons, Emma Thompson
Diretor: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, Erin Cressida Wilson

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