quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crítica: Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014)


Representante da Argentina na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, "Relatos Selvagens" também abriu a Mostra Internacional de Cinema, este ano, em São Paulo. Dirigido por Damián Szifron, e com produção de Pedro Almodóvar, o longa reúne seis episódios, histórias que independem uma da outra, onde, no plano geral, discutem, de forma épica (e genial), uma mesma ideia: o ponto limite que separa o homem dos animais selvagens.

por Fernando Labanca


São, na verdade, uma espécie de curtas-metragens reunidas num só filme. Cada uma, com começo, meio e fim e que em nenhum momento se conecta com a outra. O motivo de estarem ali, juntas, é por terem sido criadas com base de uma mesma premissa, ainda que muito distintas, fazem parte de um mesmo argumento. São relatos, por vezes assustadores, por vezes cômicos, sobre personagens que atravessam este limite imaginário, que separa a civilização da barbárie, onde, devido alguma razão, perdem totalmente o controle, agem como verdadeiros animais, tudo para defender seus próprios ideais, para serem ouvidos neste mundo de loucos.


O que mais impressiona em "Relatos Selvagens" é a alta qualidade de todas as histórias. É natural, quando se trata de filmes que reúnam diversas tramas, não conseguir manter o bom ritmo até seu final. Entretanto, isso não ocorre aqui. Do começo ao fim, o longa se mantém a um nível acima, tanto pela excelente direção de Szifron, tanto pelo incrível roteiro e atuações. Nada está fora do lugar, nada diminui o efeito ou demonstra alguma irregularidade. Um trabalho de mestre. E ainda que se tratasse de "meras" histórias, mas não, são todas geniais e surpreendem a todo instante, negando, constantemente, a obviedade. Acontecem coisas inacreditáveis, do tipo "só vendo", além de mergulharem em diversos gêneros, do suspense, em sequências eletrizantes, ao drama, com direito a importantes discussões sociais, ao bizarro, ao grotesco, ao cômico, em cenas inesperadamente engraçadas. Rimos do desespero, do impossível, dessas situações tão absurdas, que se são tão impactantes e causam tanta agonia ou até mesmo, empatia, é por simplesmente, relatar um universo tão próximo ao nosso, ao discutir essa assustadora capacidade do ser humano em realizar atrocidades. Em seus créditos iniciais, o filme faz uma inteligente analogia a nossa raça, colocando na tela, imagens de animais selvagens. E ao nos depararmos com seus episódios, parece não haver mais essa separação, parece não haver mais distinção. Somos aqueles animais selvagens, e se não demonstramos isso no nosso dia-a-dia, é devido a um auto-controle admirável, de uma força que encontramos dentro de algum lugar que desconhecemos, pois no fundo, queremos ser aqueles personagens, dizer (ou explodir) tudo aquilo que nos incomoda, tudo aquilo que nos tira do sério.


A ordem desses capítulos é mais um dos tantos acertos da ótima edição, que soube muito bem como começar, como nos introduzir na loucura de suas situações e soube, também, como terminar. De fato, o último episódio é o melhor de todos, por mais difícil que seja escolher um. A história de uma noiva histérica que transforma seu casamento num verdadeiro show de horrores ao descobrir que seu futuro marido teve um caso com uma das convidadas. Uma sequência, no mínimo, antológica, que coloca a atriz Erica Rivas como o grande destaque do longa, seus longos discursos, sua fúria, seu humor, sua performance é hipnotizante. Ricardo Darín, o mais conhecido do elenco, surge numa trama bastante inusitada e que provavelmente, muitos brasileiros se identificarão, onde um cidadão comum resolve se rebelar contra o sistema burocrático de seu país, tudo porque rebocaram seu carro no dia do aniversário de sua filha. No meio ainda acompanhamos, uma história de vingança, um assassinato, um inusitado acidente áereo e a surpreendente história de uma família de classe alta que tenta sair ilesa da justiça, quando o filho atropela uma mulher grávida e foge. Outro grande momento, a meu ver, o terceiro conto, onde dois homens se insultam no meio de uma rodovia devido uma ultrapassagem, e a partir de então, ambos se envolvem numa discussão que vai ganhando proporções inimagináveis, numa sequência fantástica, eu diria épica, extremamente bem realizada, impactante e que me fez ficar imaginando como foi que eles conseguiram gravar tudo aquilo, definitivamente, um show de direção e edição.

"Relatos Selvagens" é, sem sombra de dúvida, uma das melhores obras lançadas em 2014 e que mais uma vez, prova a força e o poder do cinema argentino. É tudo tão surreal, tão absurdo e chocante, mas ao mesmo tempo tão adorável, tão divertido. Ao seu término, ainda de boca aberta, no qual eu permaneci durante todo o filme, só tive uma única certeza: precisava ver aquilo de novo. Uma experiência muito única, que nos preenche de satisfação ao se deparar com algo tão extasiante, forte e original, que nos faz sofrer e rir de situações reais e desesperadoras, que nos faz sentir tanta coisa e refletir sobre tantas outras. Simplesmente imperdível. Assistam!

NOTA: 9,5





País de origem: Argentina
Duração: 122 minutos
Distribuidor: Warner Bros.
Elenco: Érica Rivas, Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín, Oscar Martínez
Diretor: Damián Szifron
Roteiro: Damián Szifron

2 comentários:

  1. QUE ROTEIRO! Esse filme é capaz de provocar tamanha montanha-russa de emoções que quando termina, o espectador está liquidado. Mas inesperadamente, assim como o desenrolar de todos os relatos, ele irá querer assistir de novo em um outro dia. Ainda sou jovem, mas acredito que esse filme será pra sempre um dos melhores filmes que tive a honra de poder assistir.

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  2. Eu encontrei um bom filme. Eu amo Leonardo Sbaraglia, é um grande ator e agora está na série O Hipnotizador.

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