quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Crítica: As Palavras (The Words, 2012)


Brian Klugman e Lee Sternthal trabalharam juntos no roteiro de "Tron - O Legado" (2010) e retornam em "As Palavras", não só como roteiristas, mas também como diretores. O filme, apesar de carregar uma ideia bastante interessante, carece justamente de uma boa direção e de um roteiro mais ousado, que levasse a obra ao nível que ela merecia.

por Fernando Labanca

Os primeiros passos de "As Palavras" são bem inusitados e de certa forma, nos instigam. Camadas e camadas nos vão sendo reveladas e aos poucos nos perdemos entre ficção e realidade e este é, com certeza, seu primeiro grande acerto. Ao início, vemos um autor de sucesso, Clay Hammond (Dennis Quaid), em uma noite de gala, apresentando seu mais novo livro para a imprensa: "The Words". Assim, nos adentramos a trama narrada por Clay, sobre a vida de um autor fracassado chamado Rory Jasen (Bradley Cooper) casado com Dora (Zoe Saldana), para quem sempre promete uma vida melhor, mas ainda vive às custas de seu pai (J.K. Simmons) justamente por nunca conseguir publicar um livro. Eis que ao comprar uma pasta em uma loja de antiguidades, encontra em seu interior páginas velhas e amareladas de uma história fantástica, jamais publicada. É então que ele vê nesta ironia do destino, sua chance para o sucesso, publicando o livro como se fosse seu, conhecendo a fama e tudo o que sempre sonhou, o que Rory não esperava, porém, é que um estranho senhor (Jeremy Irons) vai ao seu encontro, dizendo ser o verdadeiro autor do livro e decido a lhe contar as verdades por trás daqueles palavras.


"Minha tragédia foi ter amado mais as palavras do que a mulher que as inspirou.”

Como escrevi acima, a trama do filme é revelada aos poucos, em camadas, e cada vez mais, vamos nos distanciando daquele ponto de origem. Tudo começa com um autor narrando sua própria criação e a partir de então, vamos adentrando às suas palavras, e como o próprio filme põe em discussão em certo o momento, existe uma linha tênue entre ficção e realidade, dois mundos que coexistem, mas nunca se tocam. Há, na verdade, três histórias sendo contadas ali, a de Clay discutindo sua obra com uma bela moça (Olivia Wilde), a de Jasen e seu roubo e a do senhor, que volta ao passado (interpretado por Ben Barnes), numa Paris pós-guerra, contando sobre a inspiração para sua obra-prima, sobre seu romance com uma jovem e como pôs tudo a perder devido suas escolhas. Se no início, essas história nos são apresentadas como partes de um livro, logo esquecemos disso e nasce aquela dúvida em nós sobre o que seriam exatamente cada uma delas, seriam elas realmente ficção? Uma trama real, paralela? Um passado que realmente existiu? Essas questões tornam "As Palavras" um filme interessante, uma experiência válida, ainda mais quando chegamos ao seu final, que é belo, simples, mas que conclui com bastante eficiência suas boas ideias.


O roteiro sabe muito bem brincar com as peculiaridades da literatura, como seu narrador onipresente que sabe mais que os próprios personagens, que dá indícios de um futuro que ainda nem chegou, ou de um passado que ainda não conhecemos. Para quem sente essa admiração por livros ou por escrever, a obra será de grande proveito, é curioso e ao mesmo tempo fascinante este envolvimento dos protagonistas pelas histórias, pelas palavras, como quando Rory não se sente satisfeito em apenas roubas as ideias do livro, ele precisa reescrevê-las, sentir aquelas palavras passando por ele, por seus dedos. O problema, porém, é que apesar de compreender bem a literatura, "As Palavras" peca em alguns detalhes como cinema, onde apesar dos bons argumentos, seu roteiro, em nenhum momento ousa criar algo realmente novo, uns instante que nos faça ter certeza de seu brilhantismo, as histórias simplesmente fluem sobre a tela, não há impacto nem surpresas, é um filme que caminha o tempo todo pela zona de conforto e sua direção, acompanha essa falta de ousadia, em nenhum momento compromete, é tudo bem feito, bem conduzido, mas nada além disso. A edição é bem realizada, suas escolhas são bem pertinentes, assim como a ótima fotografia e a constante e bela trilha sonora, curiosamente composta pelo músico brasileiro Marcelo Zarvos.

No elenco, Dennis Quaid some, assim como a bela Olivia Wilde e o jovem Ben Barnes, ainda que nenhum deles decepcione. Cooper tem seus bons momentos e assume com força seu papel, assim como a sempre competente Zoe Saldana, numa personagem pequena, mas que realiza com eficiência. No entanto, quem rouba a cena mesmo é o veterano Jeremy Irons, que surpreende em sua aparição e eleva o nível do filme. Em suma, "As Palavras" é um longa que vale uma conferida, mesmo que sua trama seja extremamente linear, em nenhum momento perde o ritmo ou deixa de ser interessante, seus personagens são intrigantes e nos fazem ficar ali, presos em suas histórias, tentando compreender o que há por trás da mente de cada um, o porquê de suas estranhas atitudes, queremos ver as consequências de suas atos. A obra é justamente sobre isso, sobre o peso de nossas atitudes, sobre aquele fardo que carregamos em nossa jornada, onde o difícil não é ter que escolher, mas sim ter que viver com essas escolhas. É simples e pouco ousado, mas não deixa de ter seus momentos de inteligência, assim como seu grande final. Recomendo.

NOTA: 7,5





País de origem: EUA
Duração: 102 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Elenco: Bradley Cooper, Dennis Quaid, Jeremy Irons, Ben Barnes, Zoe Saldana, Olivia Wilde, J.K.Simmons
Diretor: Brian Klugman, Lee Sternthal
Roteiro: Brian Klugman, Lee Sternthal

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