terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Crítica: O Melhor Lance (La Migliore Offerta, 2013)

Giuseppe Tornatore, que em 1988 dirigiu o clássico "Cinema Paradiso", tem uma carreira consolidada na Itália, seu país de origem. E neste ano, ele retorna com mais um grande filme, "O Melhor Lance", falado em inglês e que conta com ótimas atuações de Geoffrey Rush, Jim Sturgess e Sylvia Hoeks. Um longa incrivelmente bem conduzido, que surpreende com sua trama bastante curiosa, numa mistura envolvente e intrigante de suspense e romance.

por Fernando Labanca

Confesso que não sabia o que esperar deste filme, não havia lido nenhuma sinopse até então e fui apenas pela curiosidade de presenciar mais um encontro de Tornatore e do músico Ennio Marricone, com o plus de ter um elenco que eu já admirava. E acredito que quanto menos souber sobre o longa, mais fascinante ele se tornará. Comecei sem compreender aonde ele pretendia chegar e a cada nova reviravolta eu me surpreendia, e esta qualidade de sempre levar sua trama para os caminhos que menos se espera, transforma a obra em algo ainda mais interessante, e mesmo com sua longa duração, o diretor não se perde nem por um instante, nos entregando uma história extremamente envolvente, que acaba nos prendendo também, pela beleza e elegância que Tornatore constrói cada imagem, compondo cada enquadramento de seu filme como se realmente fosse uma pintura, e o resultado é simplesmente estonteante.


Geoffrey Rush interpreta Virgil Oldman, um leiloeiro de antiguidades que possui a grande habilidade em descobrir se uma obra de arte é falsa ou não. Profissional de renome, ele não obteve muito sucesso em suas relações, vivendo uma vida solitária, depositando toda sua paixão em um quarto secreto em sua mansão, onde guarda diversas pinturas com retratos femininos, de Goya à Renoir. Eis que Virgil recebe o chamado de uma misteriosa mulher, Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks), que o contrata para avaliar seus móveis antigos para que assim possa vendê-los, entretanto, a moça sofre de agorafobia (medo de estar em espaços abertos ou perto de pessoas) e se recura a aparecer, permanecendo em seu quarto, permitindo que Virgil a conheça apenas por sua voz. Deste curioso encontro, ele passa a sentir um certo fascínio por este mistério, construindo uma relação obsessiva, correndo o risco, finalmente, de se entregar e se apaixonar por alguém.

"O Melhor Lance" possui aquele tipo de roteiro milimetricamente bem pensado, onde cada pequeno detalhe prova ter uma razão para estar ali, nada vem por acaso, nem mesmo um simples diálogo ou uma ação rotineira de algum personagem. A cada instante, o filme tem algo a dizer, algo a mostrar, e através de elementos como figurinos, cenários e objetos de cena, entre outras coisas, podemos encontrar algumas respostas, seja da personalidade dos indivíduos que retrata, da solidão e reclusão de Virgil Oldman ao despojamento de seu amigo e antagonista (interpretado por Sturgess). seja das reflexões que propõe com sua história, e assim, abusa de metáforas, como quando o roteiro aproveita um simples automata e suas engrenagens para debater sobre pessoas e a complexidade das relações humanas. Ainda que cada um é livre para encarar e compreender a obra à sua maneira, Giuseppe Tornatore nos oferece esse exercício de reflexão, ler e interpretar seu filme, é realmente como interpretar uma pintura clássica, existe ali, uma razão para a disposição de cada um de seus elementos e ele faz isso como um grande pintor, que sabe o que quer, como quer e coloca na tela da forma mais bela e mais fascinante possível.

O longa marca mais um ótimo encontro entre o cineasta e o músico Ennio Marricone, que realiza um belíssimo trabalho, aliás, sua trilha sonora é uma das grandes responsáveis por manter o bom ritmo do filme, além da excelente edição, que nos prende e nos faz, a cada vez mais, querer compreender seus personagens e querer descobrir aonde a trama pretende chegar. Portanto, um suspense muito bem executado, que ganha ainda mais pontos por não decepcionar em seu grande final, que entrega uma interessante reviravolta. Além do excelente roteiro e da direção caprichada de Tornatore, o filme se destaca por sua produção, as belíssima e variadas locações, os figurinos, cenários, enfim, tudo em perfeito estado, que eleva ainda mais o nível da obra, plasticamente falando, é um filme impecável. Quanto ao elenco, não vou ficar aqui elogiando o Geoffrey Rush porque não é novidade pra ninguém sobre o quão bom ele é. Jim Sturgess, como sempre, muito bem e a surpresa do filme, a bela Sylvia Hoeks, que desconhecia, se destaca com sua forte interpretação.

É sempre muito bom se deparar com os veteranos do cinema ainda em forma, ainda dispostos a realizar uma obra tão completa. Conhecido por sua dramaticidade melosa, Giuseppe Tornatore retorna mais contido, mais seco, mas ainda assim, encantador. "O Melhor Lance" coloca em pauta a autenticidade e a farsa nas pinturas e aproveita esses termos para falar sobre os sentimentos das pessoas, sobre até que ponto uma relação é real, é honesta. A trama traz esse olhar romântico sobre como às vezes necessitamos de alguém e como crescemos e nos transformamos ao lado de uma pessoa, mas ao mesmo tempo, debate sobre como isso é difícil, mas é um risco que tomamos. O filme é também sobre esses riscos, sobre o risco de perder, se decepcionar, é um risco que se tem ao aceitar o próximo, ao aceitar a vida. Brilhante, fantástico! Recomendo.

NOTA: 9




País de origem: Itália
Duração: 131 minutos
Distribuidor: Paris Filmes
Elenco: Geoffrey Rush, Sylvia Hoeks, Jim Sturgess, Donald Sutherland
Diretor: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore

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