quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Crítica: Quando Te Conheci (Equals, 2016)

Distopia criada e dirigida por Drake Doremus e produzida por Ridley Scott, "Equals" traz a história de um casal que tenta encontrar amor em uma sociedade que oprime sentimentos. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.

por Fernando Labanca

O aguardei por muito tempo pelo simples motivo de ter Doremus por trás do projeto. Diretor de "Like Crazy" (2011) e "Paixão Inocente" (2013), ele ainda foi responsável por realizar uma das coisas mais belas e românticas que vi nos últimos anos, a mini série "The Beauty Inside". Desde então, Drake se tornou um nome notável, há algo muito singelo e doce na forma como o diretor constrói suas ideias e fiquei curioso por vê-lo nesta ficção científica. É uma pena, porém, que seus trabalhos nunca tenham chance nos cinemas aqui no Brasil e "Equals" é outro lançado apenas em home vídeo.

Após um longo bombardeio que dizimou grande parte da população na Terra, nasce dos remanescentes um novo grupo de seres-humanos, os Equals, que vivem em harmonia dentro de um complexo que possui alta tecnologia. O que os difere é o fato de não terem mais nenhum tipo de emoção, os tornando seres pacíficos, justos e compenetrados em suas funções dentro daquele novo ecossistema. Eis que uma doença é detectada e qualquer pessoa que demonstre qualquer tipo de sentimento é diagnosticada com SOS (Switched-On-Syndrome), que por não haver cura, será banida da sociedade. É neste universo controlador que Silas (Nicholas Hoult) descobre ser portador da doença, mas acaba encontrando esperança quando percebe que Nia (Kristen Stewart), uma colega de trabalho, também possui sentimentos. Os dois se apaixonam e precisam encontrar maneiras de se envolver sem serem descobertos, logo que qualquer tipo de relação afetiva é proibida.


Doremus acaba por explorar um gênero não tão comum, uma espécie de sci-fi romântico, onde nunca está tão interessado em como se deu início aquele universo ou na rotina daquelas pessoas. Isso até é mostrado, mas jamais aprofundado. O longa está interessado nesta complicada relação que nasce entre dois seres que supostamente não podem sentir, o amor aqui é visto como doença, algo a ser evitado e os conflitos nascem a partir desta premissa. A obra merece um certo respeito simplesmente por não ter tido um livro como base ou por não ser um remake, logo que o gênero carece de ideias originais no cinema. Por outro lado, todas suas criações soam recicladas, desde os figurinos até a cultura de sua sociedade, tudo nos remete a outras distopias juvenis lançadas nos últimos anos. Ainda é, claro, admirável a sensibilidade do diretor, marca registrada em sua filmografia. Há algo de autoral nele, bonito de ver, é maduro e trata seus temas com seriedade, entretanto, peca por não conseguir nos inserir em seu mundo, não há como torcer ou sofrer por seus protagonistas, o que por fim, diminui sua força e estraga o que poderia ter sido uma experiência mais profunda. O filme acaba, deixa boas reflexões, mas a vida segue facilmente.

A presença de Kristen Stewart é um pouco irônica. Tão criticada por sua inexpressividade, a atriz tem a missão de não demostrar sentimentos em cena. Porém, existe uma transformação em sua personagem e é uma pena que ela não consiga expressar nada além do "queria estar morta" quando deveria mostrar paixão e força contra aquele sistema. Não deixa de ser mais uma escolha acertada em sua carreira - que já tem uma filmografia invejável - mas ainda falta, existem alguns trejeitos que Stewart não consegue se ver livre. A boa ideia morre ainda mais quando não há química entre a atriz e Nicholas Hoult, que por sua vez, se esforça, mas o roteiro o impede de fazer algo a mais. No restante do elenco, nomes desperdiçados como Guy Pearce, Jacki Weaver e a recente revelação Bel Powley.

Com roteiro assinado por Nathan Parker, que já havia provado seu talento com sci-fi no excelente "Lunar" (2009), "Equals" funciona grande parte do tempo, tem boas intenções. É, ainda, visualmente belo, possui uma ótima fotografia e uma delicada trilha sonora, marcando mais uma parceria do diretor com o compositor Dustin O'Halloran. Porém, era uma ideia que merecia mais, termina e deixa a sensação de que valeu a descoberta, é bom mas é simples demais perto do que prometia. É tão frio e distante que seu romance não funciona e sua trama não nos afeta. O longa, por fim, traz um discurso batido, mas que é e sempre será necessário. Necessário quando uma sociedade é guiada por tanto ódio, ódio que fere e que impede que sentimentos sejam livres, que o amor, em todas suas formas, seja respeitado. O amor é banido quando existe o medo e neste sentido, o longa não poderia ter sido mais crítico e mais relevante no mundo atual.

NOTA: 7





País de origem: EUA
Duração: 101 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Diretor: Drake Doremus
Roteiro: Nathan Parker
Elenco: Nicholas Hoult, Kristen Stewart, Guy Pearce, Jacki Weaver, Kai Lennox, Bel Powley

17 comentários:

  1. Achei totalmente inoportuna tua crítica quanto à Kristen Stewart neste filme.Na minha visão a química entre o casal de protagonistas é perfeita e ela consegue demonstrar claramente as transformações que a sua personagem sofre sem ser teatral demais o que nem seria o caso aqui.

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    1. Valeu pelo comentário, Jimi! Quanto a atuação da Kristen Stewart, em nenhum momento foi teatral, realmente...e talvez não tenha deixado claro na crítica que ela não estraga o filme. Eu só acredito que ela não consiga separar um personagem que ela já interpretou de outro, acho que ainda falta mais entrega, um pouco mais de verdade!

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    2. Concordo com o Jimi 2 ;)

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  2. Olá Fernando, realmente a mensagem do filme é muito boa olhando para o contexto social que temos vivido. E também é verdade que me fez lembrar de vários outros filmes recentes, como jogos vorazes, e principalmente a saga divergente. Será que Equals será uma saga como os outros?

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    1. Acredito que a mensagem que traz é o que filme tem de melhor. Mas então, apesar de nos remeter bastante a essas outras distopias, tenho quase certeza de que não terá continuações.

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  3. Gostei muito da sua crítica. Achei sensata. Concordo plenamente que o filme é bom. Gostei da química do casal. Acho que a atriz melhorou desde a saga crepúsculo, porém me passou a impressão de que não conseguiu mostrar sentimentos mesmo quando podia. A verdade é que, se ela tivesse que ter a mesma inexpressão do começo ao fim do filme ela ganharia o oscar!

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    1. Obrigado pelo comentário! Que bom q gostou da crítica! Eu até gosto de algumas das atuações da Kristen como em "Café Society" e "Na Estrada", mas no geral ainda percebo que ela traz sempre os mesmos trejeitos e isso acaba prejudicando alguns personagens q interpreta e esse foi um deles...como vc disse, há momentos em que ela tinha espaço para demonstrar sentimentos mas ela não consegue. Mas sim...é válido ressaltar...é um bom filme.

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    1. Muito obrigado Francisco! Que bom que gostou da crítica...e valeu pelo comentário

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  5. Boa a crítica, é um bom filme sim. Mas na minha opiniao4 pessoal, o final deixa a desejar, gostaria de ver pra onde eles fugiram.

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    1. Obrigado Letícia! O filme é bom msm e fico feliz que tenha gostado da crítica!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Amei o Filme e a Crítica também.
    Gostaria muuuuuuito que o filme tivesse uma continuação. Seria muito bom.

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    1. Muito obrigado Werica!! Fico feliz que tenha curtido a crítica tbm! Seria interessante uma sequência...mas não sei se rolaria.

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  8. Bonito filme em tons pastéis sobre uma sociedade sem emoções, retirando-as e as escondendo, tão logo possa captá-las em seus habitantes - num futuro possível. Casal bom, Kristen fazendo algo morno porém interessante aqui. Final bonito, rendendo considerações sobre como emoções nos direcionam na vida.

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  9. Gostei da crítica. Assiste ao filme sem grandes pretensões, achei melhor que a média dos filmes de ficção que tem sido lançados nos últimos anos. Os atores pideriam ser melhores. Ele parece uma criança desde o início e não muda ao longo da trama. Ela está melhor, no entanto é impossível não ver os trejeitos a que você se refere: vejo os lábios tremerem, os olhos fecharem, boca sedenta, uma ânsia de morte que lembra a Bella de Lua Nova. Ela está melhor em Shooper, mas ainda assim muita presa a essas muletas. Apesar deles, que não estragam o filme, mas não acrescentam muito, gostei da direção, do roteiro e do cenário.

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