Distopia criada e dirigida por Drake Doremus e produzida por Ridley Scott, "Equals" traz a história de um casal que tenta encontrar amor em uma sociedade que oprime sentimentos. Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
por Fernando Labanca
O aguardei por muito tempo pelo simples motivo de ter Doremus por trás do projeto. Diretor de "Like Crazy" (2011) e "Paixão Inocente" (2013), ele ainda foi responsável por realizar uma das coisas mais belas e românticas que vi nos últimos anos, a mini série "The Beauty Inside". Desde então, Drake se tornou um nome notável, há algo muito singelo e doce na forma como o diretor constrói suas ideias e fiquei curioso por vê-lo nesta ficção científica. É uma pena, porém, que seus trabalhos nunca tenham chance nos cinemas aqui no Brasil e "Equals" é outro lançado apenas em home vídeo.
Após um longo bombardeio que dizimou grande parte da população na Terra, nasce dos remanescentes um novo grupo de seres-humanos, os Equals, que vivem em harmonia dentro de um complexo que possui alta tecnologia. O que os difere é o fato de não terem mais nenhum tipo de emoção, os tornando seres pacíficos, justos e compenetrados em suas funções dentro daquele novo ecossistema. Eis que uma doença é detectada e qualquer pessoa que demonstre qualquer tipo de sentimento é diagnosticada com SOS (Switched-On-Syndrome), que por não haver cura, será banida da sociedade. É neste universo controlador que Silas (Nicholas Hoult) descobre ser portador da doença, mas acaba encontrando esperança quando percebe que Nia (Kristen Stewart), uma colega de trabalho, também possui sentimentos. Os dois se apaixonam e precisam encontrar maneiras de se envolver sem serem descobertos, logo que qualquer tipo de relação afetiva é proibida.
Em 2010, o diretor australiano David Michôd ganhou notoriedade por sua surpreendente estreia no premiado longa "Reino Animal". Quatro anos depois, ele retorna com "The Rover" e mais uma vez, prova ser um cineasta competente, que merece atenção. É um trabalho admirável, seco e lento, porém, belíssimo e hipnotizante.
por Fernando Labanca
Este seu segundo filme poderia muito bem receber o título do primeiro: "Reino Animal". Michôd, que também assina o roteiro, ao lado do ator Joel Edgerton, parece ainda ter um interesse sobre este mundo pós-apocalíptico, onde numa sociedade degradada, sem lei, seus personagens caminham sem rumo, de certa forma, buscando alguma ordem no caos, algum resquício perdido de humanidade. É também um pouco sobre adaptação e sobrevivência, desses seres que agem como animais, que matam para não morrer, É neste mundo caótico que vive Eric (Guy Pearce), que sem ter mais nada a perder, parte em busca de uma perigosa gangue que roubara seu único pertence, seu carro. Essa mesma gangue, após um incidente, acaba deixando para trás um de seus membros feridos, o jovem Rey (Robert Pettinson), que abandonado, decide ajudar Eric em sua jornada, pois era o único que sabia exatamente o paradeiro de seus comparsas.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o longa independente e australiano ganhou notoriedade pelas diversas indicações à prêmios importantes de cinema na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, para a desconhecida Jacki Weaver, incluindo o Oscar 2011. Lançado nos cinemas ano passado aqui no Brasil, o filme surpreende pela grande qualidade, com pouco custo e totalmente fora dos padrões do Festival de Sundance. Para quem procura algo novo, bem feito e fora do circuito hollywoodiano, "Reino Animal" é uma ótima escolha.
por Fernando Labanca
O filme começa com uma cena bastante inusitada. Joshua "J" Cody (James Frecheville), um jovem que aguarda a chegada da ambulância para levar sua mãe morta por overdose de drogas. Sem saber o que fazer, liga para sua avó distante, Janine 'Smurf' (Jacki Weaver). Há muitos anos perdera contato com seus parentes e agora passa a viver com eles, na mesma casa. Vovó Smurf e seus três filhos, Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o foragido da polícia e um dos bandidos mais procurados do bairro, Andrew 'Pope' (Ben Mendelsohn), além de Barry Brown (Joel Edgerton) que mora fora. Uma família que tem uma matriarca, mas são os homens que comandam e comandam a cidade também, por seus crimes e ações ilegais. É neste cenário que J é colocado, num ambiente onde a violência reina e é obrigado a se adaptar a ela. Eis que surge um detetive (Guy Pearce) que decidido a encontrar provas concretas para prender os membros da família, começa a usar o jovem, prometendo uma salvação e lhe mostrando que ali não era seu lugar.
O reino animal. Já dizia Darwin, os mais fortes sobrevivem. Há outras teorias que provam que a sobrevivência está relacionada com a adaptação. É exatamente sobre isso que o roteiro coloca em pauta, a adaptação dos seres humanos. "J" não pertencia aquele mundo, mas foi obrigado a fazer parte daquilo, era uma questão de sobrevivência, ignorando seus ideais, seus valores. O roteiro também nos apresenta esta inusitada família como verdadeiros animais, que seguem firme na cadeia alimentar, matando para sobreviver, são caçadores que temem a todo instante se tornarem a caça, além de suas atitudes grosseiras que por vezes assustam, ações de homens que usam somente a razão, que ignoram qualquer tipo de emoção, que já não se importam com o que é certo ou errado. A mãe coruja que cuida de seus eternos filhotes em seu ninho. Vemos também a reflexão sobre a nossa missão aqui neste reino animal que é a vida, sempre buscando um espaço para se encaixar, sempre procurando um grupo para se fazer parte.
Dirigido por David Michôd, o australiano realiza um trabalho admirável, suas movimentações de câmeras são geniais e nos apresenta cenas brilhantes. É interessante como um filme de baixo custo se concentra tanto em sua realização, é tão bem cuidado, a fotografia é belíssima e tudo na tela funciona perfeitamente bem. Mesmo sendo um filme independente, Michôd não levou seu trabalho "nas cochas", levou muito a sério, se preocupou em mostrar ao mundo um cinema australiano de alta qualidade. Vale a pena ver o filme somente por sua grande direção, é belo como tudo é mostrado, a câmera lenta, os cenários, em junção com uma trilha sonora que remete a algo grandioso, memorável. Tudo muito estiloso. É isso o que "Reino Animal" é, estiloso, cool.
As atuações estão corretas, no geral. Apenas vemos Guy Pearce de conhecido no elenco e fez o que tinha de fazer, não surpreende, mas cumpre bem sua função. Joel Edgerton, Sullivan Stapleton e Luke Ford estão bons, convencem bem seus respectivos personagens, cada um com sua característica, e Ben Mendelsohn como o tio mais procurado pela polícia local, faz uma personagem bem diferente que aos poucos vai se mostrando quase como um psicopata, frio e calculista e acaba surpreendendo. Já o protagonista, James Frecheville, é bem fraco, chega a ser lamentável algumas de suas cenas, mas é notável que o diretor percebeu as limitações do ator e deixou para os coadjuvantes fazerem as partes mais difíceis. E não há como não reparar e prestar maior atenção em Jacki Weaver, devido as indicações e aos prêmios que recebeu por sua interpretação. A meu ver, tem uma atuação boa, mas nada oscarizável, a personagem é incrível, surpreendente, eu diria e tem seu grande momento na reta final do longa, onde faz um discurso sobre os novos rumos da família e seus aliados, é de arrepiar!
"Reino Animal" é um filme bastante inovador, recheado de bons e inesperados acontecimentos, com ótimas reviravoltas, onde eventos que acreditávamos que aconteceriam apenas no final, acontecem nas primeiras, com um constante clima tenso, com boas atuações, personagens extremamente interessantes e cativantes e uma história que prende do início ao fim, com direito a grandes cenas que permanecerão na memória, isso, principalmente, à ótima direção de Michôd, não deixando de citar o ótimo roteiro, muito bem escrito também por ele. Enfim, um filme surpreendente e muito bem realizado, com idéias bem desenvolvidas, mostrando o poder de um cinema que eu desconhecia, o australiano. Sim, um filme poderoso, que merece ser encontrado já que é desconhecido por grande parte das pessoas. E para completar, um final memorável. Recomendo!
O favorito ao Oscar deste ano, trás grandiosas atuações e uma história interessante, pouco para 12 indicações, mas ainda assim...um filme poderoso!
por Fernando Labanca
Colin Firth interpreta George que desde os quatro anos de idade enfrenta um grande problema, a gagueira. Passou sua vida inteira tentando enfrentar este obstáculo, que não só afetava sua fala, como afetava sua relação com as outras pessoas e principalmente sua auto-estima. O pior de tudo é que ele faz parte de uma família da realeza britânica, seu pai é Rei George V e ele atua como Duque de York e faz discursos devido a isso, para sua total humilhação.
Depois de várias tentativas frustrantes com médicos para tentar curar seu problema, sua adorável esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter) o leva para conversar com um terapeuta, desconhecido e fora da lista de profissionais indicados pela realeza, Lionel Logue (Geoffrey Rush). Este excêntrico homem tem a difícil missão de salvá-lo da gagueira e para isso, o trata de igual para igual, numa conversa franca, testando-o de diversas formas, agindo como seu psicólogo. De início, George acha uma tremenda besteira dar ouvidos para um estranho, eis que seu pai falece e a coroa é dada para seu irmão David (Guy Pearce), o problema é que ele mantém uma vida fora dos padrões da época e a qualquer momento a coroa poderia ir para George, o que o faz entrar numa crise de nervos, nisso procura novamente Lionel, decidido a melhorar e a seguir os conselhos do terapeuta.
Quando enfim, David abdica da coroa, George se torna George VI, num momento tenso na sociedade britânica, numa época de guerra, onde o que o povo mais queria era de um homem que lhes representassem, que falasse por eles. E Lionel passa a ser de papel fundamental neste momento, lhe dá coragem para falar, lhe dá auto-estima, e muito mais do que isso, se torna um verdadeiro e leal amigo.
"O Discurso do Rei" começa lento, a história vai se desenvolvendo aos poucos, e que muitas vezes perde o ritmo, acontecendo sem nos permitir entrar na história. Da metade para o final, o longa ganha mais vida, e quando termina, nos sentimos gratos, satisfeitos por estarmos diante de um filme de qualidade, ainda mais no final, quando estamos realmente emocionados, uma história que nos pega de surpresa, acreditamos desde o início que não daria em nada, mas quando menos esperamos, estamos intensamente envolvidos, no problema de George e na bela amizade que surge entre ele e Lionel. Pelo menos, foi assim que eu me senti.
12 Indicações realmente é forçar a barra, favoritismo no Oscar é um problema. Ter 12 indicações acaba elevando as expectativas, fazendo todos esperarem muita coisa e o filme pode não preencher aquilo que o público espera. Felizmente não ligo muito para o número de indicações, "Bravura Indômita" e "A Rede Social" também tiveram várias e não são filmes tão intessantes assim, logo esperava pouco de "O Discurso do Rei", o que foi bom, pois no meu caso, foi além das minhas expectativas, mas mesmo assim, não merece toda essa badalação.
Tom Hooper não seria um Oscar desperdiçado como Melhor Diretor, um profissional competante e isto é nítido pela extrema qualidade do filme. Fotografia muito boa, cenários bem construídos, tudo muito bem captado pela câmera, além dos ótimos figurinos e uma trilha sonora encantadora feita pelo sempre incrível Alexandre Desplat.
Mas o melhor de "O Discurso do Rei" são as atuações. Colin Firth me surpreendeu, até ano passado quando o ator fez "Direito de Amar" o achava só mais um ator britânico, mas despois de vê-lo no filme de Tom Fordy fazendo um homossexual e convensendo numa performance digna de prêmios, não tive dúvida de seu talento e neste de Tom Hooper, é confirmado sua versatilidade como ator, seu profissionalismo, simplesmente arregaça como protagonista, construindo uma personagem muito interessante. Mas personagem mesmo é Lionel Logue, interpretado magistralmente por Geoffrey Rush, que declaro aqui minha torcida no Oscar por ele como Ator Coadjuvante, um personagem de ouro, com diálogos inteligentes e uma performance incrível. Helena Bonham Carter tira seus trejeitos de "filmes Tim Burton" e encara uma personagem mais séria e convense, sua indicação acho que foi um pouco exagerada, Amy Adams por "O Vencedor" merece mais. Guy Pearce, correto e Timothy Spall totalmente perdido na trama, numa atuação estranha e assustadora.
Um belo filme, correto, que consegue emocionar através da simplicidade, sutilmente nos comove, e sentimos que valeu a pena, não foi um tempo perdido nem dinheiro jogado fora, muito pelo contrário. Vale também pelas boas cenas mais humoradas que funcionam muito bem. "O Discurso do Rei" é muito mais do que um homem tentando se salvar da gagueira, que aliás, em nenhum momento é tratada como uma piada, mas sim como um problema que pode sim afetar a auto estima de uma pessoa. É uma história inteligente, sobre superação, sobre tentar lutar contra a baixa estima, reconhecer seus valores, ter coragem mesmo reconhecendo seus medos e suas fraquezas, de como uma sociedade precisa sim de uma voz e isso acontece até hoje, além de claro, uma sincera história de amizade. Bravo!