quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Crítica: The Rover - A Caçada (The Rover, 2014)

Em 2010, o diretor australiano David Michôd ganhou notoriedade por sua surpreendente estreia no premiado longa "Reino Animal". Quatro anos depois, ele retorna com "The Rover" e mais uma vez, prova ser um cineasta competente, que merece atenção. É um trabalho admirável, seco e lento, porém, belíssimo e hipnotizante.

por Fernando Labanca

Este seu segundo filme poderia muito bem receber o título do primeiro: "Reino Animal". Michôd, que também assina o roteiro, ao lado do ator Joel Edgerton, parece ainda ter um interesse sobre este mundo pós-apocalíptico, onde numa sociedade degradada, sem lei, seus personagens caminham sem rumo, de certa forma, buscando alguma ordem no caos, algum resquício perdido de humanidade. É também um pouco sobre adaptação e sobrevivência, desses seres que agem como animais, que matam para não morrer, É neste mundo caótico que vive Eric (Guy Pearce), que sem ter mais nada a perder, parte em busca de uma perigosa gangue que roubara seu único pertence, seu carro. Essa mesma gangue, após um incidente, acaba deixando para trás um de seus membros feridos, o jovem Rey (Robert Pettinson), que abandonado, decide ajudar Eric em sua jornada, pois era o único que sabia exatamente o paradeiro de seus comparsas.


"The Rover" é bem consistente ao relatar este mundo pós-apocalíptico, pelas locações, até mesmo pelos figurinos desleixados e principalmente pelas figuras desamparadas que surgem pelo caminho dos protagonistas, seres descrentes, lutando pela sobrevivência nessa sociedade sem lei. Guy Pearce e sua composição irreparável é a representação ideal desde novo mundo, o vazio e a fúria existente em seu olhar e em suas atitudes, um homem cansado do descaso, que vive perturbado por seu passado turbulento, que sofre não por suas ações impensáveis, mas principalmente por que suas ações de um criminoso não surtiram efeito pelo local, nunca fora julgado, compreendeu que vive numa sociedade em que ninguém se importa com nada e nem com ninguém, onde ele se vê obrigado a usar sua própria memória como martírio, sem jamais esquecer de seus erros, de sua dor e usa isso como sua arma, a arma de alguém que não tem mais nada a perder, mais nada a ganhar. Em sua oposição, vemos Rey, um jovem inocente, que parece alheio aquela desgraça. que canta sua música pop no carro e caminha com um estranho sorriso no rosto como alguém que parece acreditar em alguma melhora, mesmo diante de um cenário tão devastado.

David Michôd continua surpreendendo como diretor. Suas escolhas agradam e consegue manter o filme sempre a um nível acima, tudo é extremamente bem captado, as sequências são de um primor admirável, auxiliado pela ótima fotografia e pela fantástica trilha sonora. É uma mistura interessante de um faroeste contemporâneo com um road movie, é também bastante lento, tão seco quanto seu cenário, mas que consegue atrair a atenção do público facilmente com sua trama bem elaborada, onde tudo parece extremamente simples, pois aparentemente se trata de um homem atrás de seu carro, entretanto, a maneira como tudo é desenvolvido chega a ser brilhante, uma ação inesperada que acaba desencadeando outra ação inesperada e assim o filme flui até seu final, e ficamos ali presos, hipnotizados, seja pela trama, seja pela beleza que o diretor imprime sobre cada imagem. Até que chegamos ao final, surpreendentemente sensível, simples, mas que de certa forma, nos faz encarar a obra e compreender a jornada do protagonista com outros olhos.

Grandiosa é como posso definir a interpretação de Guy Pearce, um momento marcante em sua carreira, que me fez lembrar do quão bom ele é, mas que, infelizmente, nem sempre tem a oportunidade de provar. Robert Pattinson surpreenderá muitos que duvidaram de seu talento, é ótimo vê-lo aqui, seu esforço é nítido e se entrega neste que é, com certeza, seu papel mais desafiador e que ele agarra com força. Pelas grandes atuações, "The Rover" já vale a pena, mas é uma obra que tem muito mais a oferecer, se trata de um filme impactante, cruel, bruto, onde até mesmo seu silêncio é inquietante, parece dizer muito sem nem precisar dizer. Não é do tipo que agrada todos os públicos, mas quem adentrar neste belíssimo universo criado por Michôd, provavelmente não sairá indiferente. Surpreendente e poderoso, Recomendo.

NOTA: 9




País de origem: Austrália, EUA
Duração: 103 minutos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Elenco: Guy Pearce, Robert Pattinson
Diretor: David Michôd
Roteiro: David Michôd, Joel Edgerton



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