quarta-feira, 7 de março de 2012

Crítica: Reino Animal (Animal Kingdom, 2010)

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance em 2010, o longa independente e australiano ganhou notoriedade pelas diversas indicações à prêmios importantes de cinema na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, para a desconhecida Jacki Weaver, incluindo o Oscar 2011. Lançado nos cinemas ano passado aqui no Brasil, o filme surpreende pela grande qualidade, com pouco custo e totalmente fora dos padrões do Festival de Sundance. Para quem procura algo novo, bem feito e fora do circuito hollywoodiano, "Reino Animal" é uma ótima escolha. 

por Fernando Labanca

O filme começa com uma cena bastante inusitada. Joshua "J" Cody (James Frecheville), um jovem que aguarda a chegada da ambulância para levar sua mãe morta por overdose de drogas. Sem saber o que fazer, liga para sua avó distante, Janine 'Smurf' (Jacki Weaver). Há muitos anos perdera contato com seus parentes e agora passa a viver com eles, na mesma casa. Vovó Smurf e seus três filhos, Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o foragido da polícia e um dos bandidos mais procurados do bairro, Andrew 'Pope' (Ben Mendelsohn), além de Barry Brown (Joel Edgerton) que mora fora. Uma família que tem uma matriarca, mas são os homens que comandam e comandam a cidade também, por seus crimes e ações ilegais. É neste cenário que J é colocado, num ambiente onde a violência reina e é obrigado a se adaptar a ela. Eis que surge um detetive (Guy Pearce) que decidido a encontrar provas concretas para prender os membros da família, começa a usar o jovem, prometendo uma salvação e lhe mostrando que ali não era seu lugar. 


O reino animal. Já dizia Darwin, os mais fortes sobrevivem. Há outras teorias que provam que a sobrevivência está relacionada com a adaptação. É exatamente sobre isso que o roteiro coloca em pauta, a adaptação dos seres humanos. "J" não pertencia aquele mundo, mas foi obrigado a fazer parte daquilo, era uma questão de sobrevivência, ignorando seus ideais, seus valores. O roteiro também nos apresenta esta inusitada família como verdadeiros animais, que seguem firme na cadeia alimentar, matando para sobreviver, são caçadores que temem a todo instante se tornarem a caça, além de suas atitudes grosseiras que por vezes assustam, ações de homens que usam somente a razão, que ignoram qualquer tipo de emoção, que já não se importam com o que é certo ou errado. A mãe coruja que cuida de seus eternos filhotes em seu ninho. Vemos também a reflexão sobre a nossa missão aqui neste reino animal que é a vida, sempre buscando um espaço para se encaixar, sempre procurando um grupo para se fazer parte.

Dirigido por David Michôd, o australiano realiza um trabalho admirável, suas movimentações de câmeras são geniais e nos apresenta cenas brilhantes. É interessante como um filme de baixo custo se concentra tanto em sua realização, é tão bem cuidado, a fotografia é belíssima e tudo na tela funciona perfeitamente bem. Mesmo sendo um filme independente, Michôd não levou seu trabalho "nas cochas", levou muito a sério, se preocupou em mostrar ao mundo um cinema australiano de alta qualidade. Vale a pena ver o filme somente por sua grande direção, é belo como tudo é mostrado, a câmera lenta, os cenários, em junção com uma trilha sonora que remete a algo grandioso, memorável. Tudo muito estiloso. É isso o que "Reino Animal" é, estiloso, cool. 

As atuações estão corretas, no geral. Apenas vemos Guy Pearce de conhecido no elenco e fez o que tinha de fazer, não surpreende, mas cumpre bem sua função. Joel Edgerton, Sullivan Stapleton e Luke Ford estão bons, convencem bem seus respectivos personagens, cada um com sua característica, e Ben Mendelsohn como o tio mais procurado pela polícia local, faz uma personagem bem diferente que aos poucos vai se mostrando quase como um psicopata, frio e calculista e acaba surpreendendo. Já o protagonista, James Frecheville, é bem fraco, chega a ser lamentável algumas de suas cenas, mas é notável que o diretor percebeu as limitações do ator e deixou para os coadjuvantes fazerem as partes mais difíceis. E não há como não reparar e prestar maior atenção em Jacki Weaver, devido as indicações e aos prêmios que recebeu por sua interpretação. A meu ver, tem uma atuação boa, mas nada oscarizável, a personagem é incrível, surpreendente, eu diria e tem seu grande momento na reta final do longa, onde faz um discurso sobre os novos rumos da família e seus aliados, é de arrepiar!

"Reino Animal" é um filme bastante inovador, recheado de bons e inesperados acontecimentos, com ótimas reviravoltas, onde eventos que acreditávamos que aconteceriam apenas no final, acontecem nas primeiras, com um constante clima tenso, com boas atuações, personagens extremamente interessantes e cativantes e uma história que prende do início ao fim, com direito a grandes cenas que permanecerão na memória, isso, principalmente, à ótima direção de Michôd, não deixando de citar o ótimo roteiro, muito bem escrito também por ele. Enfim, um filme surpreendente e muito bem realizado, com idéias bem desenvolvidas, mostrando o poder de um cinema que eu desconhecia, o australiano. Sim, um filme poderoso, que merece ser encontrado já que é desconhecido por grande parte das pessoas. E para completar, um final memorável. Recomendo!

NOTA: 9





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