domingo, 4 de março de 2012

Crítica: Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

Baseado na obra escrita em 2003 por Lionel Shriver, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" estreou ano passado no Festival de Cannes, em competição, sendo indicado a Melhor Diretor para Lynne Ramsay. O filme mostra de forma bastante complexa e intrigante o nascimento de um psicopata, só que por um outro ponto de vista, o da própria mãe. Para escrever o livro, por sua vez, a autora havia se baseado em casos reais de massacres em escolas, ato que se tornou comum, infelizmente, e o filme consegue com perfeição resgatar este realismo das situações e por isso é uma obra tão chocante. 

por Fernando Labanca

Casos como o Massacre de Columbine de 1999, nunca saiu da mente dos norte-americanos. Jovens que por algum motivo entram em suas escolas e cometem o crime, o assassinato de outros adolescentes. A mídia está aí para condenar estes indivíduos e seus pais, que muitos julgam serem os principais culpados. O trauma, a violência, a ausência de bons valores, vem do berço, como muitos acreditam. O filme, assim como o livro, mostra exatamente o que não queremos compreender ou que ignoramos, a vida dos pais deste jovem, mais precisamente, neste caso, a vida da mãe. O que aconteceu nesta família? Como ela era como mãe? O que ela fez para ele? Perguntas que muitos fazem para encontrar uma justificativa ao ato criminoso, entretanto, "Precisamos Falar Sobre o Kevin" em nenhum momento tenta entregar essas justificativas, mas sim, nos levar fundo ao psicológico das personagens, entrar na mente delas, sem moralismos ou respostas fáceis, a difícil jornada de uma mulher e tudo o que ela viu, sentiu e sofreu e nos deixa fazer nossas próprias conclusões. 

Sem seguir uma linha cronológica correta, do presente ao passado, e vice-versa, conhecemos Eva (Tilda Swinton) que mora em uma pequena casa, é mal vista pelos vizinhos que a encaram e a humilham sempre que podem, ela tenta se reerguer na vida pois algo de muito terrível aconteceu em seu passado. Neste mesmo passado, a união com o homem que amava, Franklin (John C.Reilly) e logo o nascimento de Kevin. Com a chegada do bebê, Eva percebe que perdeu o que mais admirava, a liberdade, não consegue aturar os berros de seu próprio filho e se vê presa na pele de uma mãe que nunca sonhou ser. Vemos Kevin crescendo e aos poucos vai mostrando uma personalidade misteriosa, encara sua mãe, lhe diz coisas que crianças não sabem, a chantageia, goza de suas imperfeições e falhas. Já adolescente (Ezra Miller), suas atitudes pioram, surge um jovem quieto, com segredos e Eva se vê perdida nesta situação, ao mesmo tempo em que se assusta e teme pela vida das pessoas que ama, ela tenta se reaproximar, tentar criar um elo que jamais conseguiu ter, o elo entre uma mãe e um filho. E o filme segue até o grande momento, onde descobrimos o que aconteceu na vida desta mulher e deste jovem, um ato que definiu suas vidas.


"Precisamos Falar Sobre o Kevin" é um filme difícil. É duro, é cruel. A diretora Lynne Ramsay em nenhum momento tenta aliviar a tensão e constrói uma obra impactante, onde este mesmo impacto surge em cenas simples, uma pequena sequência que mostra a rotina das personagens, a tensão está ali, no clima, há uma atmosfera pesada em cada uma delas. Seja ainda em cenas como quando Eva descasca a sujeira de sua parede ou quando Kevin come suas unhas, com closes, que nasce em nós, uma sensação de desgosto, de inquietação. Neste quesito, a diretora realiza um trabalho excepcional, o uso das câmeras, os cortes, a edição rápida que nos empolga e nos hipnotiza em cada situação mostrada. Palmas para o roteiro, também de Ramsay, onde ela consegue colocar na tela momentos cruciais para a compreensão de tudo, onde cada cena parece querer dizer algo, nada do que vimos está ali por acaso, tudo tem um motivo, um olhar, uma expressão, um diálogo, cada pequeno elemento da história tem um motivo para estar ali e muito dizem sobre o que queremos saber. A verdade é esta, o longa nos oferece todos os argumentos que precisamos para formar nossa opinião, as perguntas, as respostas, estão ali, a diferença é que nós, como público é que temos que formulá-las, o roteiro não as entrega. Ramsay não usa sua obra para gerar respostas, não tenta encontrar uma moral para a história, nem julgar o que há de certo ou errado numa situação como esta.

O roteiro também acerta ao não seguir uma ordem cronológica dos fatos, assim, consegue criar no público, uma curiosidade, o filme nos mostra logo de início que algo muito grandioso aconteceu na vida das personagens, mas não revela o que, e a partir deste evento conhecemos o que houve antes e depois dele. Não há como não se prender na história, a vontade de querer saber o que houve, o porquê daquela mulher ser tão vazia, tão sofredora. Mas antes mesmo de chegar ao fim, o filme consegue impactar, por cada cena, as atitudes de Kevin realmente assustam, vê-lo tentando acertar sua mãe com uma flecha ou pouco se importando quando sua irmã perde um dos olhos, é de uma frieza tão grande e faz de Kevin um dos personagens mais incríveis que o cinema viu nos últimos anos. Ver Eva como mãe chega a ser até brilhante, o filme nos mostra um outro lado da moeda, onde ela chega ao ápice de chegar perto de uma britadeira na rua para não ouvir os choros de seu filho ou dizer sem nenhum remorso "você destruiu meus sonhos" para o bebê enquanto brincam. A relação de Eva e Kevin é o que há de melhor do longa, é de um nível tão complexo que parece que nossa mente demora a acreditar no que vê. E o final? Nada menos que chocante, um soco forte na alma, e o realismo como tudo acontece faz com que tudo seja mais doloroso, mais difícil de encarar, de engolir.

Tilda Swinton. Uma atuação antológica, sem mais. A atriz brilha e marca, acredito eu, o melhor momento de sua carreira. Se entrega de corpo e alma, se deixa levar pela trama e pelos conflitos de uma forma tão real, tão natural, convence e por isso nos faz sofrer com ela, sua personagem é tão intrigante, tão fascinante, e ela soube trabalhar perfeitamente as nuances de Eva, seus sorrisos forçados, seu olhar afastado e vazio, suas expressões que parecem contar toda uma trajetória. O jovem Ezra Miller também caiu perfeitamente no papel de Kevin, realiza um trabalho notável e sem sua grande atuação o filme não teria o mesmo poder, vale citar ainda as crianças que fizeram as outras fases da personagem e mandaram muito bem. John.C.Reilly sem muito destaque, está correto.

A trilha sonora "alegre" entra em oposição aos conflitos pesados da trama, como se a todo instante algo na vida daquelas pessoas estava errado, alterada de alguma forma. Destaque pelas grandes atuações, direção e roteiro brilhante de Lynne Ramsay, que conta com uma ótima edição e fotografia, que nos transforma em sádicos, pois acaba que sendo uma experiência extremamente agradável assistí-lo, mesmo se tratando de uma trama tão densa, tão violenta, tão forte, pois é uma obra muito bem realizada, como cinema é um primor só, de um nível extremo de qualidade. É realmente muito difícil dissertar sobre este filme, uma obra que nos faz refletir sobre o assunto, esta estranha personalidade dos psicopatas, e isso ocorre na tela de uma maneira, confesso, como nunca havia visto antes. Sabe emocionar sem forçar nenhuma situação, funciona também quase como um terror psicológico, nos amedronta pelas ações das personagens, por seus diálogos inesperados e chocantes, é realista, é pesado, é cruel, uma obra grandiosa, impactante, agonizante, que nos faz esquecer por completo nossa realidade, que é quase impossível se sentir indiferente a ela. Um filme que lhe tira o chão, lhe tira a alma, parece difícil voltar a respirar ao seu término. Enfim, maravilhoso, e mesmo ignorado pela Academia do Oscar, é definitivamente superior a seus indicados. Como alguns acreditam, talvez, os norte-americanos não estejam prontos para encarar esta triste verdade, não desta forma. Brilhante, memorável...o melhor filme do ano, até agora, fato!

NOTA: 9,5



5 comentários:

  1. Excelente texto! esse filme, de fato, é fantastico e eu concordo com tudo que foi escrito!
    Assisti pela primeira vez na semana passada e poderia debater horas e horas sobre ele.
    a Diretora foi sensacional.

    ResponderExcluir
  2. Valeu pelo comentário, Helobres! esse filme é realmente fantástico!

    ResponderExcluir
  3. Ainda tento descobrir como ele matou o pai e a irmã, sendo que ele estava na escola. Por que a mãe é chamada de "puta" por todos que encara? Pontas que o filme não amarrou.

    ResponderExcluir
  4. Kduw, vc não foi o primeiro a fazer tais questionamentos. Mas ao meu ver, o roteiro não deixou essas pontas soltas, pelo menos não me bateu essas dúvidas. E qnto a chamarem ela de "puta" fica mto claro em seu final, logo que todos sabiam q ela era a mãe de Kevin e todos a culpavam pelo o ocorrido na escola, logo que as cenas em q eh insultada são posteriores a este acontecimento.

    Valeu pelo comentário!

    ResponderExcluir
  5. Filme muito bom e perturbador!

    ResponderExcluir

Deixe um comentário #NuncaTePediNada