segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Crítica: A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, 2013)

2014. Retornando as atividades aqui no blog, decidi escrever sobre o último filme que vi em 2013, diria que foi a cereja no topo do bolo, um ótimo "último filme" para se ver, ainda mais nesta época do ano em que paramos para refletir sobre tudo o que fizemos e o que não fizemos, "A Vida Secreta de Walter Mitty" parece auxiliar neste tipo de reflexão e com toda a certeza, nos faz pensar na nossa vida e nas escolhas que fizemos.

Baseado no conto de James Thurber publicado em 1939 -  e que também já teve uma versão para os cinemas em 1947, com o título "O Homem de 8 Vidas" - o longa é mais uma empreitada de Ben Stiller como diretor, e que surpreendentemente, mais uma vez, se mostra competente nesta função, realizando um filme extremamente interessante, bem feito, e mesmo com suas pieguices motivacionais, consegue emocionar.

por Fernando Labanca

Conhecemos Walter Mitty. Um homem tímido que vive sua vida limitada e sem aventuras, trabalha no setor de fotografias da revista "Life", onde sempre recebe as imagens tiradas por Sean O'Connell (Sean Penn), um radical freelancer que dedica sua vida viajando e fotografando e diante de tantas incríveis jornadas que Walter vê através das fotos só lhe resta sonhar, sonhar acordado e é justamente isso o que ele faz, mesmo enquanto conversa com os outros, sonha sobre como seria sua vida se ele tivesse coragem, ser rude com seu novo chefe (Adam Scott), que o maltrata, e dizer o quanto ama sua colega de trabalho, Cheryl (Kristen Wiig). Eis que a revista Life passa por mudanças, passará a ser "Life Online", e para a última revista impressa, Sean envia o negativo que desejaria para a capa, o problema é que Walter não o encontra, o fazendo ter a escolha mais difícil de sua vida, encarar uma jornada, viajando para outros países, encarando seus medos, tudo para ter em mãos a última foto, é quando Walter Mitty descobre o que realmente é viver.


“Ver o mundo e os perigos que virão, ver por trás dos muros, chegar mais perto, 
encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida”.

Sem sombra de dúvida, "A Vida Secreta de Walter Mitty" nos trouxe um dos melhores trailers do ano passado, e felizmente ele não engana, é tão bom quanto pretende ser e o melhor ainda é que não entrega sua trama, deixando um certo suspense sobre o que realmente se trata a obra, é então que nos deparamos com diversas surpresas, ótimas surpresas, eu diria. O roteiro me surpreendeu bastante, apesar de possuir uma ideia simples (e clichê, até), vemos nas entrelinhas, elementos extremamente inteligentes, seja de suas referências ou detalhes que provam o cuidado que tiveram ao construir a história, como o uso da canção "Space Oddity" de David Bowie, que conta a saga do astronauta Major Tom, é interessante a relação que se constrói entre a canção e o protagonista e como ela é definitiva para suas ações. A inserção da revista "Life" chega a ser genial, é de uma ironia sutil mas que revela a real intenção da obra, a transição de uma revista impressa para a digital diz muito sobre a nova jornada de Walter Mitty e confesso que foi neste ponto em que o filme conseguiu me emocionar, pois nada mais é que uma grande metáfora para o que vivemos atualmente, aliás, Ben Stiller se apropria com maestria de simbolismos e metáforas e esta é a grande beleza de seu trabalho. Negar a revista digital foi a maneira que ele encontrou para dizer o quanto a sociedade caminha, e é um caminho sem volta, para um mundo extremamente abstrato, onde não há contato, não há experiências, talvez consequência do domínio da tecnologia sobre nossas ações, que de fato, nos aproxima de tudo mas nos distancia do que realmente é viver, estamos convergindo para uma vida sem vida. 

O visual da obra chama a atenção, cenas tão belas que chegam a ser impactantes e são enaltecidas pelas interessantes soluções que Stiller encontra, como o bom uso de câmera lenta ou tomadas extremamente bem montadas como quando Walter se joga para dentro do helicóptero ao som de David Bowie, que aliás, a trilha musical é muito bem inserida nas cenas e nos faz sair cantando da sessão, com direito a Of Monsters and Men e Arcade Fire, prova do flerte que Ben Stiller tem com cinema indie. Ele peca, porém, pelo exagero, algumas inovações gráficas chegam a ser bizarras, pois são desnecessárias, como as mensagens de texto escrito nas montanhas, mas no geral, o uso de texto nas cenas não incomoda, pelo contrário, causam um certo interesse. Algumas dessas soluções me remeteram um pouco "Into the Wild", curiosamente dirigido por Sean Penn, que está presente no filme, o ator aparece em poucas cenas, mas sua passagem é comovente e marca um dos mais belos momentos da obra, se é que é possível escolher um. "A Vida Secreta de Walter Mitty" é isso, uma junção de ótimos elementos, como sua belíssima fotografia, trilha sonora e atuações, que são convincentes, tanto de Stiller, Sean Penn e das ótimas Kirsten Wiig e Kathryn Hahn. 

Como disse no começo da resenha, é possível encontrar em "A Vida Secreta de Walter Mitty" uma certa pieguice, talvez pelos exageros de Ben Stiller como diretor, mas principalmente pelas frases motivacionais inseridas num contexto e numa trama um tanto quanto previsível. Entretanto, as boas intenções da obra são nitidas, e mesmo que piegas, seu discurso final comove, até porque nunca é o bastante para se dizer coisas belas e quando isso é feito de forma tão interessante e cuidadosa, vale o ingresso. Pode não ser nada inovador, mas ver Ben Stiller neste filme é algo diferente e é muito bom vê-lo se arriscando dessa forma, fugindo daquilo que esperamos dele, ainda há humor, mas sua intenção mesmo é emocionar e consegue com muito êxito. A verdade é que no fundo há um pouco de Walter Mitty dentro de cada um, aquele ser que sonha com uma vida diferente, uma aventura, que sonha em se arriscar e dizer adeus a uma vida tão ordinária, que se imagina dentro da mente um ser mais corajoso, um herói, uma celebridade. E a intenção da obra não é dizer "como a vida deve ser vivida", é sobre este cara, tão comum, que decidiu viver a vida que sempre quis, a vida que deveria ter vivido, a vida que a criança que ele foi um dia o alertou. No filme há a frase: "coisas belas não pedem por atenção" e em seu final, quando a foto misteriosa finalmente é revelada, trás consigo uma beleza que me fez apaixonar pela obra, além de ser uma boa surpresa o que vemos também é um sincero e bonito discurso sobre esses seres que vagam pelo mundo se achando menores do que realmente são, que tem seus talentos menosprezados, parece um agradecimento a essas "pequenas" e desconhecidas pessoas, que fazem o bem mesmo quando ninguém está vendo. Water era importante, mas só ele não sabia. Divertido, um humor inocente poucas vezes visto em 2013, sem apelação, e mesmo com seu visual grandioso, é um filme que encanta por sua simplicidade. Recomendo.

NOTA: 8,5




País de origem: EUA
Duração: 114 minutos
Distribuidor: Fox Filmes
Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Sean Penn, Adam Scott, Patton Oswalt, Kathryn Hahn, Shirley MacLaine
Diretor: Ben Stiller
Roteiro: Steve Conrad


5 comentários:

  1. Resenha excelente!

    P.S.: concordo com a nota.

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  2. Excelente crítica. Agora vá ler a crítica do omelete. Senti vontade de vomitar e ainda sobrar um pouco de biles para colocar num frasco e mandar por sedex para Hessel. Hurf...

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  3. Amigo amei sua critica, e não teve como não utilizar alguns pontos que você conseguiu observar e eu não, se puder conferir a minha, ficaria grato.

    http://wp.me/p27WIE-dZ

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    Respostas
    1. Conferi sua crítica...gostei bastante tbm! Acredito que seja um filme que permite sempre novos olhares e novas interpretações sobre ele.

      E obrigado pelo comentário!

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