terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Crítica: O Hobbit - A Desolação de Smaug (The Hobbit - The Desolation of Smaug, 2013)


Demorei, mas finalmente assisti a tão aguardada sequência de "O Hobbit". Ainda dirigido por Peter Jackson, o filme surpreende por seus efeitos visuais e sequências extremamente bem executadas, entretanto deixa a desejar como adaptação, abusando de escolhas desnecessárias, desconstruindo de forma épica o universo criado por Tolkien.


por Fernando Labanca

Assim como a maioria das trilogias, a segunda parte carrega em si uma responsabilidade enorme, é o meio do caminho, mais do que manter as qualidades do primeiro, necessita instigar seu público a querer continuar na jornada. Alguns filmes conseguem este feito, outros passam a ser meros "filmes ponte" aquele que apenas conecta o primeiro ao terceiro. "A Desolação de Smaug" até se esforça mas não consegue ir além do que introduzir o último capítulo. Não só é pior que seu anterior como também não é capaz de criar uma narrativa bem elaborada.

Neste segundo, Bilbo e os anões continuam suas jornadas até a Montanha Solitária, agora sem os sábios conselhos e ajuda de Gandalf, eles terão de enfrentar inúmeros obstáculos, inclusive os insistentes ataques dos orc's, liderados por Azog. Entretanto, o perigo dessa vez é bem maior, precisam recuperar o tesouro que está sob o cuidado do dragão Smaug, mais do que isso, precisam recuperar a pedra de Arken, que fará de Thorin o rei de Erebor.


Difícil acreditar que este filme foi escrito a seis mãos, além de Jackson, Guillermo del Toro e Philippa Boyens também assinam o roteiro. O longa até começa bem, já fomos introduzidos a aventura no primeiro e sem muitas delongas a trama logo se desenvolve, apresentando um bom ritmo que se mantém até o final e ganha pontos por algumas eletrizantes e bem conduzidas sequências como o ataque das aranhas gigantes na Floresta das Trevas. No entanto, todo aquele encanto por Terra Média e aquele universo - tão bem explorado por Jackson e sua equipe em "O Senhor dos Anéis", diga-se de passagem.- vai sendo desconstruído de forma trágica, e no desespero nítido de querer preencher suas três horas de duração nos são apresentados elementos extremamente desnecessários, chegando ao ápice de criar um triângulo amoroso entre elfos e um anão - momentos que são salvos pela boa presença de Evangeline Lilly - e em sua parte final, ainda que muito interessante a aparição do dragão Smaug, o imaturo roteiro transforma aquele encontro que deveria ser épico em algo patético que se limita ao "essa turminha do barulho vai se meter em grandes enrascadas e aprontar todas com este dragão do mal", só ficou faltando os anões começarem a cantar mesmo.

Sinceramente não me incomoda uma adaptação ser livre para seguir seu próprio caminho, e definitivamente, este segundo filme pouco me fez lembrar do livro, não somente por introduzir informações e personagens novos, mas principalmente por preferir colocar em destaque situações que nada alteram a trama e infelizmente este é seu maior defeito, seja a bizarra aparição de Legolas ou do "vilão" Azog. Momentos que no livro dariam ótimas sequências são descartadas como o curioso banquete com Beorn - este, que poderia ter sido um bom personagem - em prol de escolhas bastante duvidosas, como o romance ou o simples fato de que nem todos os anões vão para a Montanha, e tais escolhas não são ruins porque não estão no livro, são ruins porque o roteiro não teve o cuidado de justificá-las. O mais assustador é pensar que se eles tinham três horas para preencher, porque não explorar da melhor forma este universo? Há espaço e tempo de sobra para desenvolver personagens e isso em nenhum momento acontece, muito pelo contrário, não há espaço para personagens e história, apenas para a ação, lutas, fugas e tudo o que o um bom e vazio blockbuster necessita. Para piorar a situação, os personagens entram em cena para dar voz a diálogos sofríveis, que de tão ruins acabam causando um humor involuntário. 

Enquanto que o roteiro é repleto de falhas, ao menos o visual fez a experiência no cinema valer um pouco mais a pena, efeitos visuais e sonoros surpreendem, principalmente ao surgir em cena Smaug, que ganha ainda mais destaque ao ser dublado pelo ótimo Benedict Cumberbatch. "A Desolação de Smaug" é, por fim, Peter Jackson fazendo o impossível para rechear, enchendo de enrolação e firulas uma trama sem ideias, vazia do começo ao fim, e sua ganância como produtor é tanta que resolveu fazer uma trilogia e se no primeiro ainda havia dúvidas sobre se haveria assunto para tanto, aqui se prova que não há mais nada a se fazer a não ser enrolar seu público, enganar da forma mais descarada possível, coloquem Bilbo, Smaug, Gandalf e Terra Média e muitos efeitos especiais e teremos uma platéia cheia e feliz. Eles conseguiram. Entretanto não consigo não enxergar essa "trilogia" como uma grande farsa, Peter Jackson lucrando em cima de uma obra desonesta, que vende algo que não é.

NOTA: 5


País de origem: EUA/ Nova Zelândia
Duração: 161 minutos
Distribuidor: Warner Bros.
Elenco: Martin Freeman, Richard Armitage, Evangeline Lilly, Orlando Bloom, Benedict Cumberbatch, Ian McKellen, Lee Pace
Diretor: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson, Phillipa Boyens, Guillermo del Toro





[Crítica: O Hobbit - Uma Jornada Inesperada]

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