sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Crítica: Blue Jasmine (2013)

Woody Allen tem sua carreira marcada por altos e baixos, não é de se esperar que tudo produzido por ele seja perfeito, até porque o diretor tem praticamente um longa lançado a cada ano, no entanto, ainda assim, é de se espantar a qualidade de suas obras e mesmo em seus "filmes menores" há sempre algo a ser admirado. "Blue Jasmine" parecia, de longe, um trabalho qualquer, um intervalo para um próximo grande filme, estava enganado, Woody surge, surpreendentemente renovado, construindo uma de seus obras mais corajosas. Pode até não se enquadrar no grupo de seus "filmes maiores" como "Annie Hall", "Match Point" ou "Meia-Noite em Paris", mas se enquadra, com toda certeza, no grupo dos melhores que ele já realizou.

por Fernando Labanca

Em cada novo trabalho de Woody Allen, está lá, a cidade como personagem e um protagonista intelectualizado e idolatrado pelo próprio roteiro. A revolução do diretor começa neste ponto, por retornar ao seu país, tendo a cidade de San Francisco como cenário, mas não uma cidade bela que tem vida própria, e sim, uma cidade vazia, fria, que não acolhe seus habitantes, que por sua vez, estão em total decadência. E esta é a nova protagonista escrita por ele, Jasmine, em decadência, que perdeu seu dinheiro e precisa se reerguer mesmo fazendo parte de uma classe a qual sempre rejeitou, a dos desafortunados. Ele não a idolatra, não lhe dá chances, muito pelo contrário, sua personagem é sofrida, lhe entrega a dor e rejeição, exatamente como não tivemos a oportunidade de ver em nenhum outro filme dirigido por ele.


O filme já começa nos apresentando a protagonista da forma mais triste possível, vemos Jasmine contando seus momentos de felicidade e riqueza para uma estranha no avião, não que a estranha tivesse perguntado, mas era a forma dela se mostrar superior, a forma que ela criou para se manter presa ao passado, jamais aceitando que sua vida como socialite da classe alta acabou. Jasmine era casada com um milionário, Hal (Alec Baldwin), que lhe deu uma vida de rainha, casa, roupas de grife, festas com bebidas caras, até que ele foi preso e teve todos os seus pertences confiscados. Jasmine, que antes era "Jeanette" (mas preferiu mudar de nome por ter mais brilho), agora precisa retornar as origens, viver em San Francisco, na casa de sua meia-irmã Ginger (Sally Hawkins), que não teve a mesma "sorte" que ela, nunca enriqueceu. E mesmo decidida a se reerguer, Jasmine não consegue aceitar seu novo estilo de vida, nasceu para ser superior, para desfrutar da futilidade, da riqueza, até que ela conhece Dwight (Peter Sarsgaard), um milionário solteiro, o único que poderá dar a vida da qual ela acredita ser merecedora.

Os créditos iniciais, a trilha sonora com Jazz, fotografia, diálogos agéis e humor irônico. Sim, estamos diante de um Woody Allen, isso não há dúvida. Entretanto, depois de tantos trabalhos em sua filmografia, seu estilo parece que se tornou um gênero a parte. E foi então que me surpreendi, pois mesmo depois de tantos filmes, o diretor e roteirista parece não ter se acostumado, parece que não aceitou cair no lugar comum, no piloto automático e "Blue Jasmine" é a prova concreta disso. Se ele falhou terrivelmente em "Para Roma, Com Amor", ele se recupera aqui e vai muito além. Surge renovado, apesar de haver inúmeras características presentes, vi também um Woody Allen diferente, ousado até, tanto pelo modo como descreve e desconstrói sua protagonista, mas principalmente por assumir de vez o drama - ainda que tenha seus bons momentos de humor- de fato, desde "Match Point" ele não trazia uma trama tão forte quanto esta. Aqui não há o brilho da cidade, não há o protagonista falante e intelectual, não há final feliz, é aliás, extremamente realista, conseguindo chocar em diversas passagens. Esta é a palavra, afinal, ele choca, sentimento que quase nunca senti vendo um Woody Allen, pois suas histórias e seu modo de contá-las foi sempre tão linear, sem clímax, poucas vezes vemos reviravoltas. "Blue Jasmine" é também a quebra disso, ele altera o modo de contar sua trama, insere conflitos, momentos insanos, seus personagens se machucam, falham, caem e Cate Blanchett, que é um furacão em cena, trás vida e alma a cada sequência, ela grita, chora, esperneia, e mais do que ser um dos melhores momentos em sua carreira, ela dá a chance a Jasmine de ser uma das personagens mais memoráveis escritas por este gênio.


Jasmine é extremamente complexa, talvez cada pessoa enxergue sua passagem de forma diferente. É difícil não sentir um certo ódio da protagonista, suas ambições tão distorcidas, de não conseguir se desfazer de sua Louis Vuitton ou de viajar de avião sem ser na classe alta, e mesmo quando ela está no fundo do poço, quando enfim ganha a chance de entender o que realmente importa na vida, ela ainda acredita que o único modo de vencer e se reeguer é se casando com um homem rico. É uma mulher interesseira, que não se acostuma com pouco. Porém, há outro lado, é também impossível não sentir uma certa pena dela, é triste vê-la vivendo dessa forma, saber o que ela passou, abandonou a faculdade, os estudos (ironicamente estudava antropologia), para se dedicar ao homem que amava, a vida não lhe deu chances de acreditar em outra coisa a não ser o amor por Hal, ele lhe deu tudo e era tudo o que ela tinha, por mais que seja errado este raciocínio, era tudo o que ela tinha e perdeu, e quando ela perde não lhe resta mais nada. É chocante e triste quando Jasmine fala sozinha, tentando reverter alguma situação, tentando como uma segunda chance dizer o que não disse ou reviver mesmo que em sua mente seus momentos de glória. Woody Allen nunca foi tão impiedoso, tão cruel e a maneira como ele constrói Jasmine é trágica e seu brilhante roteiro ganha ainda mais pontos quando ele resolve contar o antes e o depois, vemos sempre as oposições, de Jasmine desfrutando da riqueza de seu marido e amargurando na casa de sua irmã, essencial para compreendermos sua mente doentia.

Como disse no início, vi achando ser "só mais um", não foi, muito pelo contrário, entra para lista dos que mais gostei do diretor. É sempre bom ir ao cinema ver Woody Allen, mas a experiência se torna ainda mais gratificante quando vemos este Woody Allen, nos entregando algo novo, que se desvincula daquilo que já provou ser bom, que arrisca, que ousa. É ainda melhor quando vemos uma atriz tão entregue, tão disposta a fazer o melhor, Cate Blanchett faz arrepiar, é incrível como não há sequer uma cena em que ela não surpreenda, é belo, é genial, é merecedora de prêmios e seu discurso final me fez cair o queixo, uma atuação impecável. Sally Hawkins tem a ingrata missão de atuar ao lado deste monstro, mas ela está ótima e fez um grande trabalho, o restante dos coadjuvantes também não decepcionam, principalmente Bobby Cannavale, que se destaca. Enfim, mais um trabalho incrível deste grande diretor e roteirista, "Blue Jasmine" pode não ser seu melhor, mas é com certeza, um dos mais corajosos que ele se sujeitou a fazer.

NOTA: 9


País de origem: EUA
Duração: 98 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Peter Sarsgaard, Michael Stuhlbarg, Bobby Cannavale, Alec Baldwin 
Diretor: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen



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