terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Crítica: Ferrugem e Osso (De Rouille et d'Os, 2012)

Um dos indicados à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2012, “Ferrugem e Osso” conta com uma delicada atuação de Marion Cotillard e narra de forma impactante o encontro de dois personagens, que vivem em pontas opostas, vivendo no limite de uma situação, ambos tentando se adaptar a um mundo que desconhecem. Extremamente ousado e original, um filme que surpreende ao não apelar para o romantismo, conseguindo ainda despertar sensações em seu público, sendo assim, mesmo com sua frieza, uma obra difícil de ser esquecida.

por Fernando Labanca

Alain é um bruto homem que viaja com seu pequeno filho para viver na casa de sua irmã e conseguir assim uma vida melhor, já que pouco tem para sustenta-lo. Não demora muito, ele consegue um emprego como segurança de uma boate, é lá que conhece Stéphanie (Marion Cotillard). Ela é uma treinadora de baleias e em uma de suas apresentações acaba sofrendo um acidente, perdendo suas duas pernas. Transtornada e sem saber muito o que fazer, Stéphanie decide entrar em contato com Alain, a partir deste momento, ele será o elemento que a fará aceitar sua nova vida, aceitar suas limitações, enquanto que ela lhe dará confiança para seguir um novo rumo em sua vida, ser um lutador de rua, usando toda sua força para sustentar seu filho.


É difícil expressar exatamente o que é este filme, dizer o que vi, o que senti. Talvez ele seja do tipo que faz mais sentido assim que termina. A verdade é que se trata de uma obra extremamente original, que trás ideias novas e maneiras diferentes de se comunicar com o público. Poderia ser um grande drama, a história da mulher amputada e do homem que precisa sustentar sua família. Poderia ser um belíssimo romance relatando o encontro desses indivíduos sofredores, mas não é. É um filme que captura os conflitos de seus personagens sem a intenção de romantizar, de buscar a emoção, ele é frio, nem por isso, distante, é realista, é poesia que se nega a usar palavras fáceis para expressar sentimento. Não procura entender a mente de seus personagens, o que há por dentro de suas cabeças, vemos o que está do lado de fora, vemos a maneira como eles usam para expressar o que sentem, é no corpo que está a palavra, o corpo como escudo de uma vida que evitam, é na perna que Stéphanie não tem que vemos sua maior fragilidade, é nos músculos que Alain encontra sua maneira de sustento, é na cabeça rachada de seu filho que ele demonstra o amor que não consegue expressar, e é no sexo que eles se conectam, na nudez que dizem quem realmente são. E o diretor Jacques Audiard prova sua competência ao conseguir expor tudo isso, de forma crua, ousada, em sequências visualmente fascinantes.

“Ferrugem e Osso” narra também o encontro desses opostos, Stéphanie e Alain, ambos tentando se adaptar a um universo do qual não faziam parte antes. Ela, que após o acidente, precisa aprender a viver sem as pernas, precisa readquirir o gosto pelas coisas, viver sentindo a ausência de uma parte de seu corpo, daquilo que a compõe, enquanto que incentiva Alain a ser um lutador feroz, desconstruindo seu corpo em prol de seu sustento. E ao longo do filme, vemos esses indivíduos enfrentando este processo de humanização, nem que para isso precisam perder coisas pelo caminho, sentir na pela a dor que a vida tem a oferecer. O que acaba chamando a atenção também para este encontro é o fato de Jacques Audiard, e merece respeito por isso, se desvincular do romantismo, a relação dos dois é fria, por vezes parece até ser indiferente, é sexo, é descaso. E esta é justamente a beleza da obra, fazer destes incríveis personagens encontrar o afeto do qual precisam na fúria de suas ações, não necessariamente na relação a dois, mesmo que no fundo, a presença de um na vida do outro seja, nitidamente, importante, prova disso é o belíssimo diálogo final, tão real, tão sensível, e é neste momento em que ambos permitem que aquele muro de concreto que construíram para si se desmorone.

Os dois atores estão fantásticos em cena, Marion Cotillard trás muita delicadeza a composição de sua personagem, com certeza, um dos papéis mais difíceis de sua carreira, seus olhares são profundos e dizem muito, todo o seu vazio, sua solidão, sua garra, assim também é este promissor ator, Matthias Schoenaerts que entrega uma performance poderosa e digna de elogios. “Ferrugem e Osso” também oferece uma direção competente de Audiard, que faz cada cena um momento para se apreciar, desde a fotografia à composição de cada sequência, chegando a ser hipnotizador. A trilha sonora composta por Alexandre Desplat é outro ponto positivo, além das ótimas canções selecionadas que embelezam ainda mais este filme. Para se ver e admirar, uma obra marcante e extremamente corajosa. Recomendo.  

NOTA: 9





País de origem: França / Bélgica
Duração: 120 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts
Diretor: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain

2 comentários:

  1. Sabe, senti tudo isso que vc escreveu ao assistir este filme! Gostei demais!

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    Respostas
    1. Tbm gosto muito deste filme!! E que bom que se identificou com o texto!

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