segunda-feira, 30 de abril de 2012

Crítica: Jovens Adultos (Young Adult, 2011)


Em 2007, o cinema independente norte-americano conheceu uma tal de Diablo Cody, uma ex-stripper que acabou vencendo o Oscar de Melhor Roteiro pela comédia "Juno", sucesso de público e crítica. Ela, escreveu outros roteiros, mas acabou se perdendo em filmes como "Garota Infernal" e "Burlesque". O diretor de "Juno", Jason Reitman, que já havia sido consagrado pela comédia "Obrigado por Fumar" de 2005, conquistou o estrelato e diferente de Cody, realizou um outro grande trabalho, "Amor Sem Escalas", em 2009.

Quatro anos após o sucesso de "Juno", Diablo Cody e Jason Reitman retornaram com mais um novo projeto, "Jovens Adultos". Entretanto, o filme não alcançou as expectativas de todos, aqui no Brasil, fora simplesmente ignorado. Acontece que se em 2007, a dupla revitalizou o cinema independente, em 2011, eles destroem tudo o que este subgênero conquistou. Não chamo isso de burrice. Chamo isso de ousadia. De originalidade. 



por Fernando Labanca

O filme começa nos mostrando o monótono cotidiano de Mavis Gary (Charlize Theron), divorciada, vive num apartamento na cidade grande ao lado de sua cachorra. É escritora de uma coleção de livros destinados ao público jovem e adulto que já não faz mais sucesso. Até que vasculhando seus e-mails, vê que fora convidada por seu ex-namorado Buddy Slade (Patrick Wilson) para uma festa de comemoração do batismo de sua filha. Os dois namoraram na época do colégio. Época em que Mavis era a rainha, todos a admiravam e conseguia tudo o que queria. 

Convicta de que Buddy, na verdade está pedindo socorro por estar casado e com uma filha, Mavis viaja até sua pequena cidade natal, Minessota, para salvar a vida dele e reconquistá-lo, recuperando os anos de glória do colégio. O problema é que ninguém na cidade a vê como vencedora, assim como ela imaginava, muito pelo contrário, a recebem com um certo desprezo, e o único que a respeita acaba sendo Matt (Patton Oswalt), que estudaram juntos, mas era um nerd fracassado e assim como ela, se prende no passado, sempre com receio de encarar a triste realidade, a de que eles cresceram e já não são mais adolescentes. 


"Jovens Adultos", sem querer, acabou sendo vendido como comédia. Comédia dramática com o selo do Festival de Sundance. Isso porque tem em seus créditos, Diablo Cody e Jason Reitman. Acontece que o filme é bem diferente de tudo isso. Não é mais um filminho norte americano independente. Não é uma comédia. É na verdade um drama intenso, com uma trama melancólica. É um estudo profundo na mente desta incrível personagem chamada Mavis Gary, complexa, onde o roteiro arma situações inusitadas afim de justamente estudar esta mente com personalidade desprezível e com sérios problemas psicológicos. Ainda há humor, com referências a cultura nerd, cheia de boas sacadas e muito sarcasmo e cinismo, mas diferente dos outros trabalhos da dupla, aqui o alvo não é a excentricidade de uma sociedade, o alvo é sua protagonista, nos revela de forma assustadora suas manias, suas falhas, seus medos, mesmo que nem ela seja capaz de enxergá-los. 

E o filme vai causar certo estranhamento naqueles que assistem. Mavis não é a heroína da história, muito menos a mocinha. É tudo muito bizarro a trajetória desta protagonista, a risada vem pela vergonha alheia e o mesmo ocorre com o nosso coadjuvante, Matt. É engraçado como ela enxerga sua vida, jamais conseguindo compreender o quanto ela falha, o quanto seus atos não fazem o menor sentido. Ao mesmo tempo, não conseguimos achar graça de nada disso, pois é tudo muito melancólico, vê-la a ponto de cometer grandes erros, vê-la acreditar que os anos do colégio ainda permanecem, que as atitudes de uma garota fútil, esnobe, amarga ainda podem fazê-la conquistar seus sonhos, vê-la desprezando uma vida de família, casamento, filho, como se esta fase marcasse o verdadeiro fracasso de uma pessoa. Assim como Matt, que se prende em seus objetos e brinquedos de adolescente nerd, que se fecha em seu mundinho, tudo por seu fracasso no passado, que não teve o direito de ser visto como herói nem mesmo quando virou deficiente. Como se a vida não tivesse mais espaço para eles. É triste notar que os anos passaram. É exatamente isso que "Jovens Adultos" retrata, os anos que ficaram para trás e o quanto é difícil aceitar que crescemos, encarar as responsabilidades da vida adulta e o dilema que os protagonistas enfrentam, se jogar na chatice de ser responsável ou se prender na felicidade artificial dos anos do colégio.

O roteiro de Diablo Cody beira a genialidade. Quando escrevi que ela havia destruído o que "Juno" havia construído, era justamente por conseguir quebrar os estereótipos das comédias independentes. Em "Juno" e em todos os outros filmes do gênero, todos os problemas eram resolvidos, tudo acontecia de forma agradável e com uma música indie alegre no fundo. E este universo, Cody e Reitman ajudaram a consolidar e para minha surpresa são os mesmos que resolveram quebrar com tudo isso. Em "Jovens Adultos", a dupla mostra uma outra faceta do cinema independente, com uma história dramática, com grande carga psicológica, sem músicas alegres, sem final feliz, sem lições de moral e protagonistas vencendo os próprios medos e aprendendo com seus erros. Mavis Gary é uma revolução. É a anti-heroína. E Jason Reitman soube mais uma vez traduzir as idéias de Diablo para as telas, em cenas frias, monótonas, tão amargas quanto a mente de Gary. 

Se em "Juno" foi seu grande roteiro que ganhou destaque, em "Jovens Adultos" é sua protagonista que ganha maior notoriedade. A verdade é que Charlize Theron consegue ser maior que tudo isso. Maior que o roteiro. Maior que as belas sacadas. Maior que a direção de Reitman. "Jovens Adultos" poderia muito bem ser resumido em duas palavras: Charlize Theron. Ela é o filme. Consegue com perfeição nos mostrar esta personagem de ouro, a sua imaturidade, sua falta de senso, de noção, seu jeito de adolescente bagaceira, de adulta que se recusa a crescer. Uma atriz talentosa que prova em cada diálogo ser uma das melhores da atualidade, é simplesmente fantástico o que ela realiza aqui, além de "Monster" e "Terra Fria", este filme marca um grande momento de Theron nas telas. Ainda temos um grande coadjuvante, o desconhecido Patton Oswalt, que também surpreende. No elenco, ainda nomes como Patrick Wilson e Elizabeth Reaser, corretos. 

Um filme ousado, que foge do convencional, que foge daquilo que esperamos dele. O problema é que ele foge para um lugar não tão agradável assim. Ás vezes é difícil acompanhar a trama, tudo é muito melancólico, lento, monótono, o que faz com a grande idéia de Cody perca a força. E os conflitos nem sempre são resolvidos da melhor maneira e há cenas que se não fossem o poder de Theron poderiam ter sido descartadas. Faltou ritmo e uma intenção de transformar o longa em algo mais memorável. É um projeto ousado por suas inovações, mas infelizmente parece pequeno, onde a protagonista é muito maior que a própria história. Ainda assim, vale a pena, aliás, não é sempre que temos a chance de conferir um filme como este, que vai além do que já foi feito. 

NOTA: 8


4 comentários:

  1. Só o nome, já nos deixa com a vontade de assistir, pois parece bem enigmático ^^

    http://therevolucaonerd.blogspot.com.br/
    Visita?

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  2. Valeu pelo comentário, Victhor! tenho visitado seu blog tbm!

    o filme eh bem enigmático msm, tudo acontece d uma forma q acaba nos deixando curiosos sobre o que acontecerá no final.

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  3. Adorei a crítica, muito parecido com o que eu achei do filme. Que é, realmente, fora do convencional, e sem o clichê da lição de moral que estamos acostumados a ver em quase todos os finais de filmes como esse. Mas, como você comentou, Charlize é o filme, como sempre, deixando claro o porquê de já ter levado um Oscar. Esse estilo não agrada gregos e troianos, esse drama intenso, mas quando agrada alguém, pode se notar que satisfaz em cheio, como foi no meu caso.

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  4. Valeu, Mariah, pelo comentário!
    Confesso q foi dificil chegar a alguma conclusão sobre este filme e fico feliz d saber q existem pessoas q sentiram o msm por ele!

    ah! e Charlize Theron eh realmente fantástica!

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