domingo, 22 de abril de 2012

Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012)

Desde que se percebeu que a saga "Harry Potter" infelizmente teria um fim, o cinema, mais precisamente, Hollywood, tentou investir em outros projetos que tivessem a mesma força do bruxo britânico, geralmente buscando suas fontes em adaptações de livros voltados para o público jovem e que tivessem sequências. Nisso, assistimos ao bom começo de "As Crônicas de Nárnia" até seu crescente fracasso. Vimos também o desinteresse de grandes estúdios em "A Bússola de Ouro" que para a surpresa de todos só teve um filme, além da aposta em "Percy Jackson" que não foi bem realizada e nem bem recebida pelo público. E, claro, o fraco, mas que acabou "dando certo", a saga Crepúsculo, que conseguiu manter seu público até o quarto filme. Pois bem, Hollywood ainda não desistiu. Surgiu então, nas livrarias, aquela trilogia que poderia trazer de volta o público jovem, "Jogos Vorazes", obra de Suzanne Collins. A adaptação ficou por conta da própria autora ao lado do diretor, Gary Ross. E assim fica a pergunta, "Jogos Vorazes" merece realmente toda essa atenção, toda essa aposta? Ao término do filme, compreendi. Sim, merece.


por Fernando Labanca

O filme nos leva para um futuro pós-apocalíptico distante, numa região conhecida como Panen. A região era dividida por 12 distritos, todos habitados por uma sociedade assustada e pobre. Viviam sob um regime totalitário comandado pela Capital, uma metrópole habitada por seres fúteis e bizarros. No passado, houve uma rebelião nesses distritos contra a opressão da Capital e como consequência deste ato, os poderosos opressores criaram uma espécie de reality show, colocando numa arena, assim como os antigos gladiadores, jovens entre 12 a 18 anos, onde cada divisão deveria oferecer um casal como tributo. Nesta arena, os 24 escolhidos deveriam lutar pela sobrevivência e para isso, deveriam matar seus oponentes. Como ninguém se oferecia, anualmente era feito um sorteio, é então que no 12º distrito, para salvar a pele de sua pequena irmã que fora escolhida, Katniss (Jennifer Lawrence) se coloca no lugar, enfrentando Peeta (Josh Hutcherson), o outro sorteado.

Um casal de cada distrito é lavado para Capital. Lá, eles conhecem um estranho mundo, cheio de mordomias e riquezas. Katniss e Peeta seguem com o auxílio de Haymitch (Woody Harrelson), um ex-sobrevivente que conhece as táticas para vencer no jogo, e logo os dois percebem que tudo é uma questão de saber se vender, pois haviam os ricos que patrocinavam os Jogos Vorazes e quanto mais gostavam do casal, mais os ajudariam na arena. Já no campo de batalha, Katniss, Peeta e todos os outros jovens, se enfrentam numa guerra onde os valores que aprenderam são completamente ignorados, seja como amizade, companheirismo ou até mesmo o amor, são confundidos como táticas de jogo, onde tudo o que importa é sobreviver, é vencer. Não importa quem perca, não importa quem morra.


Confesso que tinha um enorme preconceito com "Jogos Vorazes", não passaria de um filminho para adolescentes, com romances e um elenco com rostos bonitos. O que foi bom, pois minhas expectativas eram extremamente baixas. O que vi na tela foi um filme poderoso, com uma idéia promissora capaz de sustentar uma trilogia, cheio de boas sacadas e conflitos incrivelmente bem escritos que preencheram bem as duas horas e meia de duração. O futuro mostrado no filme foi trabalhado com certo primor de detalhes, seja naquela sociedade pobre dos distritos, criando toda uma nova cultura, seja na Capital, onde os figurinos e maquiagem assustam pela bizarrice, mas enchem os olhos pela originalidade. Tudo foi muito bem pensado, passamos a acreditar naquele universo, se torna real. Aliás, "Jogos Vorazes" conta com um roteiro raro, sem a necessidade de correr para mostrar as batalhas, sem a necessidade de grandes efeitos visuais e sem a necessidade de criar cenas forçadas de romance. Tudo ocorre naturalmente e nem por isso deixar de ser frenético, hipnotizante. 

A escolha da direção foi outro grande acerto. Gary Ross ("A Vida em Preto e Branco" e "Seabiscuit") realiza um trabalho notável, é belo o que o diretor faz deste filme. Já no início ele nos prova sua competência, desde os cortes bruscos, a incrível composição das cenas, enfim, contribuindo e muito para a qualidade da obra. Vale destacar os figurinos, a fotografia e a ótima trilha sonora de James Newton Howard. Aliás, há uma bela direção de arte, desde as locações, os cenários, fortemente influenciados pela Art Deco da década de 30, um visual futurístico retrô, pois é este o universo retratado, nada mais conveniente, um futuro regido por ordens passadas.  Mas a grande sacada do filme é sua idéia, a noção que eles passam daquele regime totalitário, a maneira como tudo acontece, as críticas da sociedade moderna, o vazio de uma guerra que parece nunca fazer algum sentido, o vazio também daquelas pessoas, fascinadas por moda e futilidades, a influência do poder, pessoas corrompidas por ele, se vendendo por ele, questionamentos sobre o que o ser humano é capaz de fazer para sobreviver, até onde ele carrega consigo seus valores, qual é seu limite. Cada pensamento, cada reflexão, inserida de forma madura, que respeita a inteligência de seu público, onde as personagens são colocadas em situações complicadas, que por vezes nos tira o fôlego, por outras nos mostram aquelas situações do tipo "o que você faria?", e assim o roteiro sempre procura seguir por caminhos não muito óbveis, provando a grande ousadia do projeto.

Ter Jennifer Lawrence como protagonista é o sonho de muitos diretores e produtores atualmente, e a atriz consegue mais uma vez provar o porquê de ser tão requisitada. Ela eleva o nível da produção, faz qualquer blockbuster parecer melhor, o que conseguiu fazer com "X-Men: Primeira Classe" e que faz aqui novamente. Talentosa, versátil, cumpre bem seu papel, mas vai além, não é simplesmente a mocinha corajosa, Lawrence tem posição, encarara a personagem, emociona nas cenas dramáticas e também convence na ação. Josh Hutcherson (aquele ator que parece crescer a cada filme que faz) foi uma boa escolha também, apesar de jovem, é veterano no cinema, já sabe o que faz e faz bem. Ambos surgem na tela com personagens raros, são complexos, possuem diversas facetas e surpreendem por suas atitudes, não são um mero casalzinho de filme adolescente, são melhores. Além deles, coadjuvantes interessantes, Woody Harrelson fazendo o que sabe fazer de melhor, o bêbado com cara de psicopata, Elizabeth Banks, quase que irreconhecível, e o jovem há muito tempo afastado do cinema, Wes Bentley. Além do veterano, Donald Sutherland e o sempre ótimo, Stanley Tucci. 

"Jogos Vorazes" merece toda a atenção que teve na mídia. Um filme que merece as apostas, tem potencial para ser uma grande saga, pelo menos se conseguir manter no grande nível deste primeiro. Uma obra surpreendente, que hipnotiza por seus acontecimentos, cheio de conflitos interessantes e bem desenvolvidos, com um roteiro brilhantemente bem escrito, que vai muito além de um filme para adolescentes, é um filme poderoso, com grandes idéias, que não subestima seu público, oferece algo de qualidade, que aposta na inteligência daquele que assiste. Um filme ousado, seja pelos elementos já citados, mas também pela violência, que surge de forma inesperada e de uma maneira quase nunca explorada pelo cinema, ousa tembém por seu final, definitivamente, muito longe daquilo que todo mundo esperava. Fantástico. Recomendo. Que venham mais "Jogos Vorazes". 

NOTA: 9






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