sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Crítica: Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)

Em 1995, o diretor Richard Linklater, ao lado dos atores Ethan Hawke e Julie Delpy, lançou um dos romances mais interessantes que o cinema já teve a oportunidade de conhecer, a jornada de Jesse e Celine em “Antes do Amanhecer”, que surpreendentemente teve sua sequência, nove anos depois (Antes do Pôr-do-Sol, 2004). Pois bem, em “Antes da Meia-Noite”, o trio retorna para fechar essa trilogia, uma longa história que durou dezoito anos a ser concluída. A ideia já é genial, pensar que nós, como público, presenciamos tão de perto a relação deste casal, enfrentamos, ao lado deles, o tempo. A verdade é que não poderiam ter terminado tudo isso de forma melhor. Confesso, eu chorei. Chorei pois vi a mais real e mais honesta história de amor já contada. 

por Fernando Labanca

Li recentemente sobre uma entrevista que o diretor Richard Linklater cedeu a um site. Ele confessa que o encontro de Jesse e Celine fora inspirado em um encontro que ele teve na vida real, com uma estranha, passaram a madrugada juntos, jogando palavras fora. Sua ideia era que ela reconhecesse a história deles em “Antes do Amanhecer” e quem sabe, eles pudessem se encontrar novamente. Entretanto, antes que o filme fosse lançado, ela falece. Logo no começo de “Antes do Pôr-do-Sol” entendemos que Jesse havia escrito um livro sobre o encontro que ele teve com Celine em uma viagem pela Europa e é através desse livro publicado, que eles se reencontram. É triste pensar, mas essa trilogia é nitidamente sobre a história de amor de Linklater nunca vivenciou. Somado a isto, os atores Ethan Hawke e Julie Delpy sempre o auxiliaram no roteiro e, também, colocaram muito de si nos diálogos, experiências próprias, como os conflitos vividos por Hawke e sua ex-esposa com quem teve um filho. Tudo isso acaba trazendo um toque de realidade absurdo, as palavras ditas pelo casal em cena são extremamente humanas, nos faz refletir sobre tantas coisas, infância, família, amor, morte, enfim, tudo dito da forma mais honesta possível. E o fato de existir três filmes, em diferentes tempos, em diferentes situações, tivemos a oportunidade de conhecê-los, tão a fundo e de forma intensa. Conhecemos Jesse e Celine, como nunca tivemos a chance de conhecer um casal de verdade nos cinemas e como consequência disso, conhecemos o grande vilão dessa história, o tempo. 



"(...) como o nascer e o pôr do sol, qualquer coisa efêmera. Como nossas vidas. Nós aparecemos e desaparecemos. E somos tão importantes para alguns, mas nós estamos só de passagem."


Em “Antes da Meia-Noite”, Jesse e Celine vão passar uma temporada na Grécia, onde encontram alguns amigos. Nas últimas horas da viagem, porém, o casal decide caminhar sozinhos, e depois de muitos anos juntos, sentem, que enfim, pararam para pensar, analisar sobre tudo o que viveram até ali. Questões como “e se você não tivesse falado comigo naquele trem?” são colocadas em pauta, a análise de uma vida que poderia não ter acontecido se não fosse aquele fatídico dia. Discutem sobre os anos que passaram juntos e principalmente sobre as escolhas que fizeram, além, é claro, de discutir o futuro, onde Celine deseja mudar de cidade devido a uma ótima oportunidade de trabalho, enquanto que Jesse pensa em viver ao lado de seu filho, pois não consegue parar de pensar em todos os momentos em que ele tem deixado de ser pai. E essas questões fazem o casal parar para refletir se devem mesmo continuar juntos. 

O mais incrível deste projeto, é nós, como público, saber exatamente como tudo começou, o que deu certo, o que não deu, quais são as qualidades e as fraquezas do casal principal. Nós temos a noção do tempo junto com eles, sabemos o quanto envelheceram, o quanto mudaram. Talvez nenhum outro filme do mesmo gênero tenha conseguido oferecer isso, saber o que acontece em cada cena, saber o quanto aquela palavra ou aquela briga pode afetar o outro. Assim, sofremos junto, pois a memória de Jesse e Celine é a mesma que a nossa e as lembranças boas que tiverem, nós tivemos acesso. Por isso, a obra é tão perturbadora, complexa, chega a ser sufocante cada discussão, é tudo muito maduro, sincero, e choca justamente por ser tão real. A todo instante estamos recuperando alguma imagem dos filmes anteriores, tentando entender o que fazia deles um casal tão único, tentando entender o porquê mudaram tanto. Assim, “Antes da Meia-Noite” é como um tapa na cara, nos entrega a verdadeira história de um romance, sem firulas, sem mágicas, da forma mais crua possível, nos faz pensar no quanto tudo o que vemos é natural da vida, natural de uma história a dois, o como duas pessoas se transformam, como elas esquecem o que as levaram até ali, a paixão, a inocência, aquela liberdade da juventude, tudo se vai, até mesmo a beleza, deixando apenas a rotina, o cansaço. Em certo momento do filme, Jesse, ao falar sobre uma de suas invenções literárias, diz que é sobre o tempo, porém é mais do que isso, é sobre tempo também, mas é, principalmente, sobre percepção. 

“Antes da Meia-Noite” consegue o impossível, ser tão bom quanto os anteriores, e por alguns instantes, consegue até mesmo ser melhor. A verdade é que valeu muito a pena toda essa espera, dezoito anos é uma vida, e o filme explora isso da melhor forma, ver Julie Delpy e Ethan Hawke ali, envelhecidos, muito mais do que dois atores extremamente competentes, eles nos deram a chance única de sentir através do cinema o que é realmente viver com uma pessoa, dividir a mesma história, o que é amadurecer ao lado de alguém. O filme é também sobre esta passagem chamada vida, uma fração tão pequena na história do universo, que só nos resta uma única coisa e somente isso nos lembraremos ao final de tudo, sobre aquela pessoa que estava ao nosso lado, sobre aquela que escolhemos para nós. Em suma, uma obra genial, ainda com diálogos impecáveis, onde, aliás, ao seu final, nos deparamos com talvez, uma das mais incríveis declarações dos últimos anos. Belo texto, belas interpretações, o que mais poderia dizer? Fechou com muita sensibilidade e muita ousadia essa que foi uma das mais belas trilogias que a sétima arte já teve notícias.

NOTA: 10




País de origem: EUA
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Diamond Films
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy
Diretor: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke, Julie Delpy





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