quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Crítica: Frances Ha (2013)

Noah Baumbach é um dos mais renomados roteiristas de Hollywood, isso devido as bem sucedidas parcerias com o diretor Wes Anderson, e principalmente pelo elogiado “A Lula e a Baleia” (2005), que também dirigiu. Ficou muito tempo afastado da direção, eis que ele retorna com todo o êxito e prestígio que possuía ao início de sua carreira, toda originalidade e aquele frescor do cinema indie que ele ajudou a consolidar retornam aqui. "Frances Ha" é um evento, já se tornou cult mesmo com o pouco tempo em que ficou em cartaz nos cinemas. A obra, que é uma comédia em preto e branco, também consagra Greta Gerwig como a mais nova musa indie, além de provar, mais uma vez, seu inegável talento como atriz. 

Por Fernando Labanca

Frances (Gerwig) é uma mulher de trinta anos, mas ainda não se encontrou. Vive distante de sua família, não tem uma vida profissional estável e acaba de terminar seu namoro, isso porque ela nega ir morar com ele em seu apartamento, devido ao fato de já dividir um lugar com sua melhor amiga, Sophie (Mickey Summer). Elas são inseparáveis, essa é a única certeza que Frances tem em sua vida. Eis que Sophie decide sair do apartamento para ir morar com outra garota num lugar melhor, colocando em cheque a amizade entre as duas. A partir de então, Frances que trabalha em uma companhia de dança, tenta de diversas formas ganhar mais dinheiro e conseguir, no mínimo, pagar suas contas, passando a morar em outros apartamentos, conhecendo outras pessoas, vivendo novas experiências, sempre com sua visão única sobre a vida, sempre acreditando no melhor, sem se importar com o fato de que ela é uma eterna criança incapaz de resolver seus problemas. 


“Frances Ha” é daquelas obras que surgem de tempos em tempos, do tipo bem raro que em nada nos lembra de outros filmes. É tudo muito original, delicioso, que nos faz ficar com sorriso bobo durante toda a projeção, nos faz esquecer da vida e desfrutar a de Frances, mesmo que ela seja tão comum, e essa é a graça do filme, trazer beleza a esta vida tão ordinária, beleza que surge da própria protagonista, da maneira como ela age, como ela vê a sua própria existência, beleza que não se vê na imagem, pois a obra é justamente isso, se desprender da estética, não há na tela nenhum apelo visual, tudo surge da forma mais natural e mais crua possível, a vida como ela é, tão normal, tão sem surpresas, mas que cabe a nós, enquanto vivemos, entregar beleza ao que vivemos, tudo depende do nosso ponto de vista e Frances é, de fato, uma inspiração. Aliás, fazia muito tempo em que o cinema não nos entregava uma inspiração como essa, tão inovadora, tão única, essa é Frances Ha, esta personagem feminina que tem tudo para ser lembrada daqui alguns anos, louca, infantil, que vai contra até mesmo aos estereótipos do cinema indie, não é uma admiradora da sétima arte e nem da literatura, não é descolada e pouco se importa com o que veste ou o que fala. Mais do que uma inovação, é um marco. 

Ao seu início, a obra causa certa estranheza, comédia de costumes, filmada em preto e branco, mas logo adentramos a este universo tão bem captado por Noah Baumbach e tão bem expressado por esta excelente atriz chamada Greta Gerwig, que trás naturalidade a cada cena, que parece acreditar neste modo de vida. No entanto, qualquer dúvida que se tem sobre o filme é desmanchada na sequência em que, ao som de “Modern Love” de David Bowie, Frances sai dançando pelas ruas da cidade, enquanto via essa cena tive a sensação de estar vendo um clássico! Tem aquela liberdade e nostalgia que John Hughes aprovaria. O filme é pura libertação, a liberdade que esta personagem tem ao decidir viver a vida como deseja, que não sente apreciação por tudo aquilo que a sociedade almeja, é a libertação de Noah Baumbach que despensa os inúmeros conceitos e maneirismos do cinema indie, que entrega ao público algo novo, a liberdade de lançar, em pleno 2013, um filme preto e branco. Parece também a libertação de Greta Gerwig, que também assina o roteiro, que faz de tudo em cena, do emocional ao bizarro, e lhe entrega a chance de ser finalmente um nome a ser notado. 

“Frances Ha” diverte com sua espontaneidade, rimos de sua desgraça, ao percebemos que suas mancadas são tão naturais, ações patéticas dignas de serem realizadas por nós mesmos. O filme também reserva um espaço para as emoções, a jornada da protagonista não deixa de ser bela, o fato dela nunca se encaixar, de parecer nunca dar um passo a frente. Alguns conflitos parecem dizer muito sobre nós, nos afeiçoamos a muito do que acontece ali na tela. Ao seu final, temos a sensação de termos conhecido profundamente alguém, em alguns minutos tivemos Frances como nossa amiga, rimos e emocionamos com ela. Uma experiência muito única, extremamente prazerosa, um filme genuíno e inspirador. "Frances Ha" já é, desde já, um clássico!

NOTA: 9.5

País de origem: EUA
Duração: 86 minutos
Distribuidor: Vitrine Filmes
Elenco: Greta Gerwig, Mickey Summer, Adam Driver, Michael Zegan
Diretor: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig








4 comentários:

  1. Não tenho costume de postar nada, porem parabéns pelo texto, foi o melhor que li sobre o filme!

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  2. curti mt tb,mas sei la acho q o benji claramente gostava dela,e q estou acostumada com romances que sempre acho q o final ideal seria pelo menos ela ficar com alguém

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    1. Pior q fiquei nesta expectativa também. Mas acho que é pq realmente estamos acostumados com aquela fórmula clássica, no entanto, foi bom ver um final diferente, a surpresa foi bem positiva.

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