2014. Retornando as atividades aqui no blog, decidi escrever sobre o último filme que vi em 2013, diria que foi a cereja no topo do bolo, um ótimo "último filme" para se ver, ainda mais nesta época do ano em que paramos para refletir sobre tudo o que fizemos e o que não fizemos, "A Vida Secreta de Walter Mitty" parece auxiliar neste tipo de reflexão e com toda a certeza, nos faz pensar na nossa vida e nas escolhas que fizemos.
Baseado no conto de James Thurber publicado em 1939 - e que também já teve uma versão para os cinemas em 1947, com o título "O Homem de 8 Vidas" - o longa é mais uma empreitada de Ben Stiller como diretor, e que surpreendentemente, mais uma vez, se mostra competente nesta função, realizando um filme extremamente interessante, bem feito, e mesmo com suas pieguices motivacionais, consegue emocionar.
por Fernando Labanca
Conhecemos Walter Mitty. Um homem tímido que vive sua vida limitada e sem aventuras, trabalha no setor de fotografias da revista "Life", onde sempre recebe as imagens tiradas por Sean O'Connell (Sean Penn), um radical freelancer que dedica sua vida viajando e fotografando e diante de tantas incríveis jornadas que Walter vê através das fotos só lhe resta sonhar, sonhar acordado e é justamente isso o que ele faz, mesmo enquanto conversa com os outros, sonha sobre como seria sua vida se ele tivesse coragem, ser rude com seu novo chefe (Adam Scott), que o maltrata, e dizer o quanto ama sua colega de trabalho, Cheryl (Kristen Wiig). Eis que a revista Life passa por mudanças, passará a ser "Life Online", e para a última revista impressa, Sean envia o negativo que desejaria para a capa, o problema é que Walter não o encontra, o fazendo ter a escolha mais difícil de sua vida, encarar uma jornada, viajando para outros países, encarando seus medos, tudo para ter em mãos a última foto, é quando Walter Mitty descobre o que realmente é viver.
Não muito conhecida aqui no Brasil, a roteirista e atriz Jennifer Westfeldt, de "Beijando Jessica Stein" (2001), retorna depois de tantos anos no mesmo gênero, a comédia romântica, não aquela repleta de clichês e situações forçadas, constrói uma trama madura, original e com pitadas de drama, que emociona e consegue de forma bastante espontânea trazer grandes reflexões.
por Fernando Labanca
"Solteiros Com Filhos", de longe, até parece uma continuação de "Missão Madrinha de Casamento", isso porque, Westfeldt reúne em seu novo longa, Kristen Wiig, Maya Rudolph, Jon Hamm e Chris O'Dowd, que estiveram juntos na comédia lançada ano passado. Mas não se engane, em nada se assemelha com o filme de Paul Feig, longe das piadas escatológicas e do humor quase que pastelão. O que retorna é a nítida química que existe entre todos eles, parecendo grandes amigos que se reuniram para realizar um projeto, o que de fato, é um dos pontos mais positivos, pois torna toda a obra em algo verossímil, convincente.
Conhecemos os seis amigos inseparáveis já na fase adulta. Dois casais, Leslie e Alex (Rudolph e O'Dowd) que parecem terem sido feitos um para outro, cheios de planos e compromissos e Missy e Ben (Wiig e Hamm) que possuem uma ligação sexual bastante forte. Além deles, a dupla de amigos, Julie (Westfeldt) e Jason (Adam Scott), aqueles que ligam de madrugada para conversar sobre assuntos idiotas e dividem todas as experiências de vida. Eis que a vida dos amigos muda, quando os dois casais avançam para o próximo estágio, a paternidade. É então que, Julie e Jason analisando o quão amargos e infelizes os quatro amigos se tornaram após o nascimento dos filhos, eles decidem inovar. Desde muito tempo, sonhavam em ser pais, mas temiam o casamento, o compromisso, a rotina, queriam estar ligados com a pessoa a quem mais admiravam sem correr o risco disso ter um fim. Pois bem, os dois tem um filho juntos, mas longe de todas as regras de um casamento oficial, continuam amigos e felizes e toda essa revolução acaba afetando a vida de todos os amigos, pois é quando todos passam a refletir sobre as decisões que tomaram.
Comédias românticas existem de monte, mas poucas conseguem ser tão eficientes, como é o caso desta. Nos apresenta uma história um tanto quanto simples, mas o roteiro é tão bom que consegue se expandir dentro da tela, é bastante original, foge dos clichês, nos apresenta personagens humanos com conflitos possíveis e convence em cada diálogo, cada situação. É eficiente pois joga uma idéia e o bom roteiro consegue explorar todas as possibilidades disso e alcança êxito boa parte da trama. O roteiro de Jennifer Westfeldt é primoroso, conta toda uma história sem a necessidade de contá-la em detalhes, como por exemplo, a trama acontece durante vários anos e compreendemos inúmeros acontecimentos, principalmente dos coadjuvantes sem a necessidade de mostrá-los, um único diálogo, um único olhar, já deciframos o que nos fora omitido. Como é o caso do casal Missy e Ben, que em poucas cenas na tela, é construída toda uma história e os personagens são bem desenvolvidos, mesmo sem espaço. Melhor ainda quando o roteiro não se limita ao casal principal e todos os conflitos que eles sofrem, ganha muitos pontos quando vai além do que esperamos, quando nos revela o quanto as ações do casal afeta os outros amigos, quais são as consequências que cada personagem sofre. Brilhante.
Não teria o mesmo efeito sem as grandes atuações. Jennifer Westfeldt, não a conhecia e me surpreendi. Confesso que foi muito bom vê-la em cena, um rosto novo, o que faz tudo ser ainda mais interessante. Nos revela de forma convincente seus sentimentos, desde sua infantilidade e ingenuidade, seu medo de se magoar e sua naturalidade com que enfrenta as situações inusitadas de sua vida. Melhor ainda é quando ela divide a tela com outra grande surpresa, Adam Scott, que realiza alguns dos melhores momentos do filme, de coadjuvante esquecível, Scott prova ser um ator promissor, talentoso. Dentre os coadjuvantes, todos se destacam de forma positiva, da espontaneidade à bela química que o quarteto possui, fazendo as cenas parecer quase que um improviso, Kristen Wiig surpreende num papel mais dramático que o de costume, é uma pena que tem pouco espaço, e seu parceiro Jon Hamm esbanja carisma, juntos, funcionam perfeitamente bem. Assim como Maya Rudolph e Chris O'Dowd que demonstram grande afinidade e convencem. O longa ainda conta com participações de Edward Burns e Megan Fox.
"Solteiros Com Filhos" peca em seu final e peca feio. Com pressa de terminar ou medo de não conseguir vender seu filme, Jennifer nos entrega uma sequência furada, que não faz jus a tudo o que havia construído, toda a originalidade e inovação se perde, vai contra a própria personalidade criada para seus personagens. Um desastre. Entretanto, o filme como um todo é quase que genial, foge do que é convencional, nos oferece uma obra interessante, com ideias bem desenvolvidas que consegue fazer o público refletir, pensar no que já viveu, pensar nas decisões que irá tomar no futuro, o quanto o casamento pode transformar a vida de alguém, mas diferente de todos os outros filmes, o longa coloca alguns "porém", a união de um casal, o nascimento de um filho, tudo ocorre de forma real, portanto, longe de ser um conto de fadas, há a tristeza, o desencantamento, nos mostra a vida de forma palpável, verossímil. Não é aquela comédia que fará o público dar gargalhadas, haverá risos contidos, não desmerecendo o humor, que aliás, funciona. Mas é nos momentos mais românticos e dramáticos que o filme ganha força, onde alcança seu clímax numa incrível cena onde os personagens de Jon Hamm e Adam Scott se enfrentam num jantar entre os amigos, colocando para fora as diferenças que cada um enxerga sobre o casamento, é então que Jason faz uma belíssima declaração para Julie. Não uma declaração de amor, uma declaração de amizade, aquela amizade verdadeira que a gente luta a vida inteira para encontrar. Esta é a intenção do filme, nos fazer pensar sobre o que é melhor na união entre duas pessoas, sobre o quão triste para um filho é ver seus pais serem infelizes pois antes de tudo, não foram amigos. Uma nova definição para o que é família. Original, brilhante, maduro e surpreendentemente, emocionante. Um raridade. Recomendo.