segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Crítica: Truman (2015)

Vencedor do Prêmio Goya de Melhor Filme e Roteiro, ano passado, "Truman", drama argentino estrelado por Ricardo Darín, narra, de forma leve e descontraída, os últimos passos de um homem que aceitou sua morte.

por Fernando Labanca

"Truman" é um filme brilhante, que surpreende não por sua trama, que aliás segue quase que linear, sem muitas reviravoltas, mas por conseguir extrair de uma premissa simples, tanto sentimento, tanta emoção. É quase que impossível não se sentir tocado por cada sequência. Aqui, Darín interpreta Julián, um ator que ao descobrir que sofria de um câncer incurável, encontra uma drástica solução para o resto de sua vida...aceitar sua morte, sem medicamentos, sem tratamento, aceitando o curso natural de sua trajetória. O longa começa quando Tomás (Javier Cámara), um antigo amigo, sai de sua casa no Canadá e parte até Madrid para passar quatro dias ao seu lado, para se despedir e tentar dizer o que ainda não havia dito. No meio disso, ambos se unem para encontrar um lar para Truman, seu cão que em breve precisará de um novo dono.


O cinema argentino continua não decepcionando e "Truman" é uma obra a se destacar. De causar uma empatia fácil naquele que assiste, é incrível como um assunto tão pesado e tão doloroso é tratado de forma leve e gostosa de acompanhar. É belo este encontro dos dois amigos e o roteiro, tão espontâneo, constrói uma pequena aventura para eles e entre despedidas e últimos encontros, há sempre uma pitada de humor, jamais caindo no dramalhão ou no velho clichê de "últimas chances". Emociona sem forçar, extraindo sempre algo muito delicado e muito sentimental em cada nova sequência, que diverte sem ignorar o peso de seu tema, isso porque Julián, em nenhum momento encara sua morte como derrota ou como sendo vítima de um destino cruel, mas ainda assim tem a consciência de tudo aquilo que irá perder e resolve ir atrás disso. Essa sua segurança e essa maturidade com que encara tal situação é comovente porque ele não mede esforços para se expressar, dizer o que sente, mesmo que ao seu redor, precise lidar com pessoas que se mostram desconfortáveis com suas escolhas, que nunca sabem o que dizer ou como é estar em sua pele. Os excelentes diálogos pontuam bem essas ideias.

O que também faz deste filme tão especial são as atuações. Além de existir uma química incrível em cena, achei de uma sensibilidade extrema a entrega de Ricardo Darín e Javer Cámara, eles definitivamente sentiram que algo muito conflituoso estava acontecendo ali. É comovente quando já no primeiro encontro, existe, nos dois, olhos marejados. Ao decorrer de todo o filme é no olhar que encontramos a sinceridade dos personagens, entre dois homens que lutam para se manterem firmes, mas que sofrem por dentro. Tomás também é um ser interessante, que não retorna para dizer "amigo, não faça isso", mas com toda sua calma e tristeza para dizer "amigo, vou contigo nessa". Há algo muito sensível também na relação entre Julián e Truman, seu fiel escudeiro. Nem sempre o cinema mostra este forte envolvimento entre um homem e seu cachorro de forma tão real e tão delicado quanto aqui. Foi bonito de ver, foi sincero.

Dizer adeus é cruel. É sempre cruel. Mesmo sem conhecer a vida que os personagens tiverem antes dali, como aquela amizade foi construída ao longo dos anos, sentimos aquele momento, embarcamos nesta aventura nostálgica, porque todos nós já vivemos algo pela última vez e sabemos o quanto é doloroso encarar um momento tendo a consciência de que será o último. Me vi ali torcendo para que aqueles quatro dias que Julián passaria em Madrid fossem eternos, para que a despedida nunca acontecesse. Me encontrei querendo chacoalhar os personagens para que dissessem tudo o que queriam, tudo o que precisavam. Infelizmente, na vida nunca é assim e por isso "Truman" não poderia ter sido mais realista, porque de fato, há muito o que deixamos de dizer, mesmo quando sabemos que o "na próxima vez" nunca existirá. O filme é, talvez, um pouco sobre isso, sobre as palavras não ditas e como nossa vida nunca deixa de ser, um acumulado de últimas chances.  

NOTA: 9,5




País de origem: Argentina, Espanha
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Pandora Filmes
Diretor: Cesc Gay
Roteiro: Cesc Gay
Elenco: Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi


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