quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Crítica: Ex Machina - Instinto Artificial (Ex Machina, 2014)

A ficção científica foi se desgastando ao longo dos anos e por isso digo que é sempre bom ter a chance de encontrar pérolas como "Ex Machina", que vai muito além do que oferecer ótimos efeitos visuais, oferece uma trama complexa, repleta de incríveis ideias e momentos tão intrigantes que o colocam, facilmente, na lista dos bons exemplares que o gênero lançou nos últimos tempos.

por Fernando Labanca

Alex Garland, diretor do filme, é no mínimo, um sujeito muito talentoso. Escreveu o livro "A Praia" que virou um longa-metragem pelas mãos de Danny Boyle em 2000, com quem voltou a trabalhar em "Extermínio" (2002) e "Sunshine" (2007), porém, como roteirista. Se não fosse o bastante, ainda escreveu o roteiro de "Não me Abandone Jamais" (2010) e "Dredd" (2012). É um currículo e tanto, e Garland, mostrou, através dessas obras, sua admiração pela ficção científica, sempre realizando, produtos de extrema originalidade. "Ex Machina" se junta a esses filmes, que se destaca dentre tantos que são lançados. A obra também é a prova de que ele sabe muito bem como conduzir suas boas ideias para tela, logo que se trata de sua primeira empreitada como diretor e podemos afirmar que começou extremamente bem, realizando um trabalho marcante, de uma qualidade notável.


Na trama, conhecemos Caleb, interpretado por Domhnall Gleeson, um jovem programador de computadores que após ganhar um concurso na empresa em que trabalha, é levado para um afastado centro de pesquisa, onde trabalharia ao lado do presidente da companhia, Nathan Bateman (Oscar Isaac), que está investindo no desenvolvimento de uma robô com inteligência artificial. A intenção é que Caleb seja o componente humano do teste que irá aplicar, o colocando frente a frente com seu experimento, AVA (Alicia Vikander), que mesmo não sendo humana, demonstra ter um alto nível de conhecimento e sofisticação, fazendo com que Caleb veja com outros olhos toda essa situação, reafirmando sua teoria de que Nathan não é tão confiável e que pode ter outros planos não revelados.

"Ex Machina" introduz seus personagens de acordo com um protótipo que já conhecemos e já vimos muitas vezes no cinema, a do jovem inspirado e curioso que passa a trabalhar para um homem de caráter duvidoso, e ainda que maravilhado com o novo universo no qual é inserido, começa a questionar as atitudes de seu superior. Caleb é o tal novato e é através de seus olhos que vamos adentrando a sua nova rotina, onde tudo é muito instigante e enigmático, suas dúvidas são as mesmas que as nossas e suas paranoias, dentro daquele local recluso, passam a fazer parte de nós também. Apesar de ser um tanto previsível essa relação entre o empregador e o empregado, o roteiro ainda consegue segurar bem a atenção, mesmo que lento e trabalhado basicamente de diálogos, é fascinante a maneira como tudo é desenvolvido na tela, é bem escrito e suas ideias surpreendem. É muito interessante esta relação que vai sendo construída entre o trio principal, se Nathan se mostra cada vez mais assustador, AVA, que instiga por seu visual e postura, nos seduz da mesma forma que seduz o protagonista, seu jeito doce e contestador de pronunciar cada palavra é hipnotizante, mérito da brilhante composição de Alicia Vikander. Domhnall Gleeson e Oscar Isaac também estão fantásticos. Poucas vezes uma ficção científica dependeu tanto de seu elenco e não poderiam ter selecionado atores melhores. 

O filme consegue, através de suas sequências belíssimas, transmitir diversas sensações. Algumas delas são agonizantes, causam repulsa. Tem ainda algo de perturbador em "Ex Machina", de ver os personagens presos em um local fechado e que vai se tornando, cada vez menor e cada vez mais claustrofóbico, principalmente porque chega um ponto em que não sabemos quem é quem e o que pretendem naquele local. É genial quando AVA começa a questionar sobre seu destino e sobre sua função ali dentro, sobre como ela preza por sua liberdade, logo que não há nada mais humano do que esta constante busca por ser livre. Melhor ainda é quando o próprio protagonista começa a duvidar sobre a razão dele estar ali e se ele realmente é um humano. Ou seja, mais do que uma ficção científica, temos aqui um thriller psicológico dos bons, seus pensamentos, suas reflexões, suas indagações. É muito interessante o que o filme traz sobre inteligência artificial e sobre o avanço da tecnologia, sobre como as coisas chegaram onde chegaram não porque o mundo precisava disso, mas simplesmente porque descobriram que era possível e fizeram, é quando questionam, por que não? Você não faria se soubesse como? De certa forma, é até uma visão pessimista sobre o futuro, sobre como os homens estão fadados a ser meros "seres primatas, vivendo no pó, com linguagem e ferramentas primitivas". Seremos observados por aqueles que criamos da mesma forma como hoje observamos os fósseis.


Acredito que o filme ainda será muito reconhecido, infelizmente, não será lançado nos cinemas aqui no Brasil, então é possível que ele demore a ser descoberto. "Ex Machina" é definitivamente algo que precisa ser achado, é simples ao mesmo tempo em que é grandioso, chocante, fantástico. Alex Garland entrega um roteiro brilhante e uma direção admirável. Poderia escrever um parágrafo inteiro somente para elogiar os efeitos visuais, que trabalho irretocável, lindo de ver. Destaque também para a fotografia e direção de arte. Vale também por conhecer a delicada performance da atriz sueca Alicia Vikander, que provavelmente será muito vista nos próximos anos, de fato, uma grande revelação. 

NOTA: 9,5





País de origem: Reino Unido
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Paramount Pictures
Diretor: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Domhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander, Sonoya Mizuno


Um comentário:

  1. Aos interessados pela Cultura Pop, reZenhada de A a Z, favorita aí 'velhinho'fiz uma reZenha sobre -

    https://rezenhando.wordpress.com/2016/06/23/rezenha-critica-ex-machina-2015/

    Curtam no face a página: https://www.facebook.com/rezenhandoaculturapopaz

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