quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Crítica: Beasts of No Nation (2015)

Primeiro longa-metragem original da Netflix, o filme dirigido por Cary Joji Fukunaga, nasce como um marco da indústria audiovisual, logo que fora lançado via streaming simultaneamente com algumas salas de cinema, nos Estados Unidos. Poucas salas, aliás, mas o suficiente para colocá-lo na corrida para as grandes premiações. Trata-se de uma obra grandiosa, bem realizada, mas que será lembrada muito mais por sua revolução mercadológica do que por suas qualidades.

por Fernando Labanca

A Netflix, ao longo dos últimos anos, tem modificado esta relação entre o público e a TV, com seu conteúdo sob demanda. A empresa já havia se consolidado entre as produções de séries, conseguindo reconhecimento, inclusive no Globo de Ouro e Emmy, e agora decide investir em filmes (e quem sabe uma indicação ao Oscar!), chegando a investir cerca de $12 milhões para ter os direitos de exibição de "Beasts of No Nation" e ainda tem outros títulos a serem lançados, via streaming, até o final do ano.

A obra, por sua vez, teve seu lançamento no último Festival de Toronto e fora baseado no romance homônimo de Uzodinma Iweala. O longa narra o drama de crianças-soldado na África e conta com a narração do pequeno Agu (Abraham Attah), que no meio de uma Guerra, acaba perdendo toda sua família e na fuga se depara com um exército rebelde, liderado pelo Comandante, interpretado por Idris Elba. E neste mundo sem lei, Agu se vê como um animal selvagem, tendo sua infância roubada, matando para não morrer.


Já conhecia o trabalho do diretor Cary Joji Fukunaga da série "True Detective" da HBO e por isso não imaginava uma direção qualquer. E é neste quesito a maior qualidade de "Beasts of No Nation". Fukunaga entrega um filme belíssimo, bem filmado, é cuidadoso com cada enquadramento e ao assinar, também, a fotografia, temos aqui um filme visualmente poderoso. Chega a ser brilhante o trabalho que ele tem com suas cores, que vão se modificando em algumas passagens, com seus tons saturados, construindo sequências de grande impacto. A boa edição do longa ajuda a dar um excelente ritmo, logo que são duas horas e meia e não há realmente um momento tedioso ou desinteressante. Há muita violência também, é brutal e sanguinolento, mas nada que a própria Netflix já não tenha oferecido em outros produtos.

Por outro lado, vejo um grande problema em seu roteiro. Existem aqui dois personagens de grande destaque e senti que nenhum dos dois foi devidamente construído. O Comandante ganha força pela ótima atuação de Idris Elba, no entanto, chega a ser um tanto quanto frustrante o tratamento que lhe é dado pelo texto, também de Fukunaga. Há uma intenção ali de ter um líder, mesmo que carismático, amedrontador, que tem em suas atitudes a razão pelo medo de seus seguidores. Existe o medo daqueles que o seguem, mas não existe a razão para isso. Aliás, há algumas situações pesadas que ficam subentendidas, que poderia até ser usadas como justificativa dele ser temido, mas perto do final, quando seus homens se rebelam, fica enfim, nítido a fragilidade e a incoerência destas relações. E o mesmo tipo de tratamento acontece quando os jovens soldados saem atirando sem parar (e isso acontece muitas vezes) e nunca vemos, de fato, este "inimigo". Agu, o outro personagem de destaque, muito bem defendido pelo jovem Abraham Attah, é interessante, no entanto, me incomodou suas narrações, numa necessidade de soar poético, Fukunaga erra ao evocar o cinema de Terrence Mallick, com belas citações do sol e Deus no meio de uma Guerra, é bonito, mas soa forçado para uma trama narrada por uma criança.

Percebi, também, que chega um ponto onde o longa parece que deixa de oferecer uma história, entregando momentos repetitivos, apenas como uma tentativa de construir mais uma cena muito chocante, porém, sem intuito, sem levar a trama para outro ponto. Aliás, vejo essa violência gráfica da produção como mais um elemento incoerente da obra, é como se o filme valorizasse aquilo mesmo que ele diz ser contra. É irônico esse espetáculo criado para a morte, com direito a câmera lenta e sangue espirrando na tela. Como podemos acreditar nessa realidade triste se o próprio filme parece encontrar um certo prazer nela? É estranho, mas há mais beleza e poesia do que incômodo. Claro que há seus acertos, como a interessante introdução do protagonista, seus costumes, sua relação com os demais, momentos de grande importância e que alteram nosso olhar sobre os próximos acontecimentos. 

"Beasts of No Nation" será um marco pela inovação que trouxe, pela ousadia da Netflix em modificar o mercado cinematográfico, por trazer uma opção que antes não tínhamos. É um produto relevante e que abre uma interessante discussão sobre o futuro do cinema. Mas chego a conclusão de que a obra será lembrada por seu formato de exibição e não, exatamente, por suas qualidades. Existem, sim, algumas chances nas grandes premiações, logo que se trata de uma produção rica e bem realizada e claro que seria ótimo ver seu título citado entre as categorias, como forma de reconhecimento. Vejo, também, que este foi o primeiro passo da Netflix, outros filmes virão e existe uma margem para melhora, o que é ótimo. Apesar das grandes falhas, vemos aqui uma obra que entretém, que prende a atenção, que emociona e que possui um visual primoroso. Como o longa-metragem não chegará nas salas do cinema aqui no Brasil, o jeito é assistir pela Netflix mesmo e digo que vale a pena separar um tempo para vê-lo. 

NOTA: 7




País de origem: EUA
Duração: 137 minutos
Distribuidor: Netflix
Diretor: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Cary Joji Fukunaga 
Elenco: Abraham Attah, Idris Elba









Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe um comentário #NuncaTePediNada