sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, 2013)

No ano de 2008, um grupo de adolescentes ficou famoso por invadir e roubar a casa de celebridades. “Bling Ring”, novo filme de Sofia Coppola, é baseado em um artigo que Nancy Jo Sales escreveu para a Vanity Fair sobre o ocorrido. Sem a intenção de julgar ou compreender a mente destes jovens, o que vemos é um filme sobre futilidades, que assusta por ser tão real e tão perto do que vemos diariamente na mídia e nas redes sociais. Mais do que isso, a obra de Coppola expõe o vazio existencial, aquele mesmo sentimento (ou ausência de) tão presente em sua filmografia.

Por Fernando Labanca

Conhecemos Marc (Israel Broussard), um jovem que não se sente tão bonito e atraente e por isso, se sente tão distante dos outros. É seu primeiro dia de aula em seu novo colégio, é onde conhece Rebecca (Katie Chang), uma garota que o enturma em seu grupo de amigos, e logo percebe que ela realiza alguns furtos para não cair na rotina e não demora muito até que Marc passe a auxiliá-la. No entanto, eles querem mais, é a cidade de Los Angeles, local onde residem grandes celebridades, eles passam a invadir suas mansões em busca de qualquer coisa. Até que outros amigos ficam sabendo, como Chloe (Claire Julien), Sam (Taissa Farmiga) e Nicki (Emma Watson) e se deslumbram por este mundo cheio de possibilidades, joias, roupas de grife, vestidos, sapatos, bolsas, de Paris Hilton a Lindsay Lohan. Nada os impede, vivendo loucamente a liberdade de uma vida vazia, sem sentido, exatamente como aquela que a mídia insiste em vender.


“É incômodo que tantos me adorem por algo tão odiado pela sociedade. Se fosse por algo que beneficiasse a comunidade ou algo parecido, eu adoraria. Mas isso demonstra que a América tem um fascínio mórbido por Bonnie e Clyde.”

Quem são nossos heróis? Quem queremos ser? Quem realmente nos fascina, nos inspira? “Bling Ring” coloca essas questões de forma sutil, sem deixar de chocar, de nos fazer refletir, pensar no mundo em que vivemos, na futilidade que vemos diante de nossos olhos diariamente, na televisão e nas revistas que definiram o que é beleza e o que é ser bem sucedido, ou até mesmo nos clipes musicais (que aqui os jovens fazem questão de cantar em alto e bom som) que exaltam a cultura do gangsta e o fascínio que a sociedade tem sobre Bonnie e Clyde. Muitos podem até achar que o filme vangloria este tipo de vida, o “lifestyle of rich and famous”, muitos até o julgarão de vazio, até porque é este sentimento que fica ao seu final. Vejo de forma diferente, vejo que Sofia Coppola acerta ao retratar este mundo, no qual conhece tão bem, a vida destes jovens que tem em comum a ausência dos pais e a fascinação, quase que inconsciente, pela futilidade. Jovens que veem a felicidade nas roupas de grife e principalmente na foto em que vai postar no facebook, nesta vontade imbecil de querer vender a própria vida, ou neste caso, viver, nem que seja por alguns instantes, como se fosse uma celebridade, desfrutando daquilo que eles jamais teriam, desfrutando do holofote que nunca seria deles, num mundo em que glorifica este ato, ser o centro da atenção por não fazer nada, ser tão descartável como uma capa de revista. É impactante, ao mesmo tempo compreensível, o sorriso em que Marc lança ao receber tantos convites de amizade nas redes sociais, como se isso realmente importasse, sua felicidade em perceber que está presente nas fotos, é como se passasse a ser como os outros. “Bling Ring” é extremamente realista nesses detalhes e não foi preciso se aprofundar tanto, conseguiu em poucos minutos extrair a verdadeira e atual sociedade, de forma cruel e chocante. 

O filme em nenhum momento julga o que é certo ou errado, apenas nos mostra os acontecimentos, a parte da reflexão e compreensão cabe a nós. E assim como todas as obras de Sofia Coppola, se instala, em seu final aquele sentimento de vazio, que surge não como um erro, mas por ela, justamente relatar, sempre de forma tão intimista, o vazio existencial, seja do reinado de Maria Antonieta, daquele pai em “Um Lugar Qualquer”, do casal de estranhos em “Encontros e Desencontros” ou das jovens em “Virgens Suicidas”. “Bling Ring” dialoga muito bem com os dias de hoje, mesmo sendo tão simples consegue ser complexo, assim como seus projetos anteriores. Não é seu melhor momento, mas não deixa de ser ainda um grande filme. É até irônico e bastante coerente a maneira como Coppola flagra os acontecimentos da trama, em tom documental, parecendo um verdadeiro reality show, é como se ela entregasse a esses jovens exatamente o que eles queriam, a fama fácil, o espaço para se vender, onde ninguém é amigo de ninguém, estão todos preocupados com suas próprias conquistas. 

A simplicidade está entre as características mais marcantes da cineasta, entretanto, chega alguns momentos que isso passa a ser um defeito, quando ela se limita ao máximo, tanto no roteiro quanto em sua direção, como as cenas das invasões ou dos jovens sendo perseguidos por jornalistas, dando entrevistas. É tudo muito repetitivo e muito igual, não há dinamismo, dando às vezes a impressão de estarmos vendo as mesmas cenas em diferentes momentos. Chega a ser muito didático, quadrado, há um processo muito esquemático no filme que incomoda, primeiro eles roubam, depois ficam famosos por isso, são perseguidos pela polícia e pela mídia, primeiro um dá entrevista, depois o outro, depois o outro, e Coppola não se esforça em criar maneiras diferentes para contar a mesma coisa.

O elenco jovem não desaponta, Israel Broussard constrói um personagem interessante, faz um homossexual sem ser forçado ou irreal, é com certeza, o personagem melhor desenvolvido na trama, é através dele que visualizamos o vazio e a futilidade daquela vida. Muitos acharam que Emma Watson seria a protagonista e se desapontaram por ela não ser, e penso que foi uma escolha acertada, ela é uma grande coadjuvante e se destaca fácil, rouba a cena, eu diria, há filmes feitos para os coadjuvantes, “Bling Ring” é de Emma Watson, ofuscando sem muito esforço suas colegas de cena, como Katie Chang e Taissa Farmiga, ainda que muito competentes. É inevitável não dedicar toda a nossa atenção a Emma em todas as cenas em que aparece.

“Bling Ring” é mais um grande trabalho de Sofia Coppola que se firma como uma das diretoras mais interessantes do cinema atual, que mesmo com suas falhas, conseguiu, somando este, construir uma das filmografias mais adoráveis e coerentes que já se teve notícias. Sou um fã, por isso, é importante deixar claro que sou bem suspeito para falar de qualquer filme que ela faça. Tirando as reflexões e complexidade, a obra é simplesmente deliciosa, gostosa de se ver, com personagens interessantes, história inusitada e uma das trilhas musicais mais envolventes do ano. Recomendo.


NOTA: 8,5  



País de origem: EUA
Duração: 90 minutos
Elenco: Israel Broussard, Katie Chang, Emma Watson, Taissa Farmiga, Leslie Mann, Claire Julien
Diretor: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola


Um comentário:

  1. Conheci o trabalho de Sofia no filme "Um lugar qualquer" um dos melhores filmes que ja apreciei. Desde entao acompanho o desenvolvimento do seu novo filme Bling Ring. Quando vi que Emma Watson estaria no filme, se completou o que eu esperava. Mas o filme tornou-se repetitivo no decorrer da historia ao ponto de torna-se chato em alguns momentos. Atuação otima de Emma Watson, historia limitada.

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