terça-feira, 12 de novembro de 2013

Crítica: A Datilógrafa (Populaire, 2013)

Dirigido pelo estreante Régis Roinsard, uma deliciosa comédia romântica francesa que resgata com competência o charme do cinema da década de 50. O gênero que teve pouquíssimos bons exemplares em 2013, ganha um ótimo reforço com “A Datilógrafa”, extremamente cativante e divertido, com uma direção de arte impecável e uma grande revelação chamada Déborah François.

por Fernando Labanca

Filha de um pai conservador que a quer casada com o homem que ele mesmo escolheu, Rose Pamphyle (Déborah François) sai de sua cidade, se recusando a ter a vida comum de todas as mulheres, foge da obrigação de ser uma dona-de-casa, tinha um plano maior em mente. Consegue um trabalho como secretária no escritório de seguros de Louis Échard (Romain Duris), e apesar de não ter muito talento na profissão, acaba chamando a atenção por sua agilidade em datilografar, despertando assim o espírito esportivo de Louis, que a faz participar de uma competição entre datilógrafas. A partir de então, ele passa a treiná-la e Rose aos poucos vai ganhando notoriedade na mídia, conquistando fãs, conhecendo a fama, conseguindo viver a vida que na época era o “sonho de toda mulher moderna”.


Nas paredes do quarto de Rose Pamphyle, ela guarda recortes daquilo que a inspira, da mulher que ela quer ser, como a bela atriz Audrey Hepburn, ícone da época, e com seu discurso bastante feminista, Rose é o retrato da mulher moderna aos fins dos anos cinquenta, sua luta por ser vista entre os homens, ser tratada da mesma forma. O roteiro explora muito bem a época, não só dessas conquistas, mas também de uma sociedade que vangloria tanto aquilo que é popular, a fama, o sucesso, como as disputas tolas entre escritórios ou o aumento do consumismo alimentado pela própria mídia. Rose acaba que sendo vítima de tudo isso mesmo que em sua mente ingênua seja apenas sonhos sendo realizados. E o diretor Régis Roinsard, que me surpreende e muito saber que é sua estreia em um longa-metragem, age como um veterano e comanda tudo com competência, mostra muito bem a época retratada e explora, sempre da forma mais interessante possível, todos os eventos da trama.

Apesar de ser comédia romântica, “A Datilógrafa” trás algumas qualidades e preocupações raras no gênero, como o cuidado da produção em mostrar cada passagem, em relatar aquela época, seja através dos figurinos, da ótima trilha sonora, dos efeitos sonoros e iluminação, que surpreendem pelo alto nível. O visual é belíssimo e tudo orquestrado com cuidado pelas mãos de Régis Roinsard, que capricha também na edição nos entregando cenas tão sofisticadas, tão bem elaboradas que dão até aquele gostinho de “preciso ver isso de novo”. Aliás, mais do que ser uma trama ambientada na década de cinquenta, a obra tem como proposta recuperar o charme do cinema naquela época, aquela ingenuidade dos romances, com personagens bobinhos e por vezes caricatos. Foi uma proposta arriscada, mas ousada e que funciona muito bem em todos os momentos. Entretanto, não deixa de ser comédia romântica, tem uma história simples e o romance do casal principal agrada e muito devido aos atores, mas não deixa de ser previsível, e apesar de fazer bom uso da fórmula, não foge daquilo que já conhecemos.

E para complementar este charme do passado, escolheram a atriz perfeita para isso, que através de seu carisma e elegância, de seus olhares, voz e expressão, resgata com muito êxito as qualidades das atrizes daquela época, Déborah François é uma revelação, soube trabalhar bem cada característica de Rose Pamphyle, soube ser sedutora ao mesmo inocente, belíssima performance. E Romain Duris, sempre muito carismático e sempre um grande ator. No elenco ainda vemos a incrível Bérénice Bejo.

“A Datilógrafa” é uma obra deliciosa, encantadora, que enche nossos olhos com tanta beleza. Nos dá a chance de voltar no tempo e apreciar toda aquela inocência, o charme e o humor dos filmes antigos. É, também, uma obra extremamente estilosa, que mesmo se apropriando daquilo que um dia existiu, não deixa de ter sua própria personalidade. Vale muito a pena arriscar para um final de semana descompromissado. Recomendo.

NOTA: 8

País de origem: França
Duração: 111 minutos
Elenco: Déborah François, Romain Duris, Bérénice Bejo
Diretor: Régis Roinsard
Roteiro: Régis Roinsard, Daniel Presley, Romain Compingt


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