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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Crítica: Boogie Nights - Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997)

Lançado em 1997, “Boogie Nights” conta com a direção de Paul Thomas Anderson e mostra, através de sua narrativa bastante dinâmica, o auge e decadência da indústria pornográfica no final dos anos 70. Sem moralismos, o longa tem o poder de ser mais do que pretende e registra um dos retratos mais fiéis e mais impactantes daquela época. Sutilmente engraçado e extremamente original, a obra é um marco na carreira deste brilhante diretor, e porque não, um marco na história do cinema. Um clássico!

Por Fernando Labanca

Década de setenta, nas noites agitadas ao som de disco, Eddie Adams (Mark Wahlberg) trabalha em uma boate, lavando pratos. Tem uma relação turbulenta com sua família, onde é considerado um fracassado, mesmo ele sonhando em ser um ator de sucesso. É neste local onde desperta a atenção de Jack Horner (Burt Reynolds), um famoso e bem sucedido produtor de filmes pornográficos que vê em Eddie a chance de realizar seu grande desejo, fazer uma obra no cinema que seja respeitada. O garoto, então, se transforma em Dirk Diggler, o mais novo astro pornô, ganha fama, notoriedade e um espaço entre as figuras descoladas que circulam neste meio, uma espécie de família, entre atores, diretores e produtores, amigos que cuidam um dos outros. Entre essas pessoas, está a atriz veterana Amber Waves (Julianne Moore) e a encantadora Rollergirl (Heather Graham), além de Reed Rothchild (John C.Reilly), que se torna seu grande parceiro. Mas como sempre, a fama tem seu preço, e Dirk se afunda nas drogas, perde o rumo, sempre acreditando ser o melhor, sem perceber que seu lugar não é tão especial assim e que facilmente poderá ser substituído por outro.


Muito mais do que relatar os bastidores da indústria pornográfica, “Boogie Nights” é um retrato de uma época, a transição dos anos setenta para os oitenta, a vida noturna, a música, a moda, as drogas, o sexo, os sonhos de uma juventude sem rumo, as desilusões de um grupo de pessoas que optaram por abandonar aquela vida correta repleta de regras e viver intensamente exercendo uma função tão julgada, tão ignorada, mas que era tudo para eles. Paul Thomas Anderson, que também assina o roteiro, entrega alma a esses indivíduos, nos dá a chance de olhar para seus personagens sem moralismos, sem julgamentos, partindo sempre do pressuposto de que cada um ali é um ser humano, acima de tudo, complexo, por vezes ambíguo, que sofre, que sonha, que tem conflitos a ser enfrentados, como a atriz que luta pela guarda do filho. E o grande mérito da obra foi esse, relatar, mas sem julgar. Sabe também ser polêmico, sensual, provocativo, sem ser obsceno, vulgar, sempre optando pelo bom gosto, sabe ser descompromissado ao mesmo tempo em que é pesado, complexo. E assim, nos deparamos com este brilhante roteiro de PTA, tão primoroso, rico em detalhes, constrói personagens únicos, memoráveis, reconstrói uma época, nos dando a chance de voltar no tempo e se deliciar com este filme insanamente divertido e inteligente.

Sou um grande fã de Paul Thomas Anderson, elogiar seu trabalho como diretor é quase como chover no molhado. Ele é um gênio. Vejo isso em cada cena, em cada tomada, em cada corte. Se não bastasse toda a originalidade de sua obra, o diretor opta por resolver suas sequências da forma menos ordinária possível, se utiliza de zooms, de rápidas rotações com sua câmera, de mirabolantes planos sequência de deixar qualquer um chocado. É tudo muito incrível, deleite aos olhos, e a excelente edição reforça ainda mais seu talento, dinâmico ao extremo, onde nunca perde o ritmo, me lembrando por muitas vezes seu filme posterior, “Magnólia”, ágil e eletrizante, características incomuns para o gênero. Para melhorar, uma trilha sonora fantástica, talvez uma das mais incríveis que ouvi nos últimos anos, canções pra ninguém por defeito, como as clássicas de Night Ranger, Rick Springfield, The Beach Boys e Marvin Gaye, entre outras.


Seu elenco é mais um ponto positivo. Julianne Moore é um monstro no cinema, é genial ao mesmo tempo chocante sua habilidade em se transformar, sua interpretação é belíssima, um marco em sua carreira. Burt Reynolds também se destaca, oscilando bem entre a autoconfiança e as desilusões de seu personagem. John C.Reilley, mais uma vez, hilário e muito bem em cena, assim como Don Cheadle. Mark Wahkberg realiza, de longe, seu melhor trabalho como ator, por mais que ele suma ao lado de seus coadjuvantes de peso, ainda assim, é muito bom o que faz, o mesmo posso dizer da bela Heather Graham, que ao longo de sua carreira, este foi seu auge. Ainda há participações menores, mas que surpreendem e muito em cena, como Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, William H.Macy e Thomas Jane.

“Boogie Nights” é um clássico, é mais uma excelente obra na filmografia deste gênio, Paul Thomas Anderson. Se hoje, ele facilmente se destaca como um dos melhores diretores do cinema, é estranho pensar que há exatamente dezesseis anos atrás, poderíamos ter afirmado a mesma coisa. Porque sim, “Boogie Nights” é uma obra-prima, simplesmente não há como não dizer isso diante da beleza de cada cena. Um filme admirável, memorável. Roteiro, direção, atuação, trilha sonora, enfim, tudo em perfeito estado. Recomendo. E muito.


NOTA: 10


País de origem: EUA
Duração: 155 minutos
Elenco: Mark Wahlberg, Julianne Moore, Burt Reynolds, Heather Graham, John C.Reilly, Don Cheadle, William H.Macy, Thomas Jane, Philip Seymour Hoffman, Luis Guzmán, Alfred Molina
Diretor: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Crítica: O Mestre (The Master, 2012)

Vencedor do Leão de Prata de Melhor Diretor no último Festival de Veneza e indicado ao Oscar 2013 nas categorias de Melhor Ator, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante, para Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams, respectivamente. Já era polêmica muito antes de ser lançado por ter sua trama inspirada na Cientologia, o que acabou decepcionando alguns que esperavam maiores conclusões sobre o controverso assunto. "O Mestre" marca o retorno de Paul Thomas Anderson, um dos melhores diretores da atualidade, além de ter a memorável interpretação de Joaquin Phoenix, sem sombra de dúvida, a melhor atuação masculina dos últimos anos.

por Fernando Labanca

Assim que a Segunda Guerra Mundial termina, o marinheiro Freddie Quell (Phoenix) tenta voltar a vida normal trabalhando como fotógrafo. Um homem com sérios problemas emocionais, conturbado pelos acontecimentos da Guerra, atordoado pela própria vida, onde nunca encontrou um verdadeiro sentido para ela, tem uma incontrolável ansiedade sexual e surtos de ira e violência. Perambulando pelas ruas da cidade, como de costume, alcoolizado, Quell se depara com Lancaster Dodd (Hoffman), um homem inteligente e carismático que lhe oferece abrigo. Mais do que um lugar para ficar, Dodd ao perceber o quão problemático é o misterioso homem, o usa como cobaia de seu novo estudo, ele que escreveu "A Causa", livro que guia uma doutrina religiosa e que tem milhares de fervorosos seguidores, tenta salvá-lo, dominando sua mente, numa ideologia que acredita que a procura de vidas passadas é a cura para doenças atuais, é o caminho para o controle e libertação da alma.


"Se descobrir um modo de viver sem servir a um mestre, qualquer mestre, então nos conte como conseguiu. Você seria a primeira pessoa na história do mundo". Frase dita por Dodd a seu pupilo, Freddie, ao perceber que ele já estava muito distante de seus ensinamentos. "O Mestre", que tem seu roteiro assinado também por Paul Thomas Anderson, trás grandes reflexões sobre como uma sociedade parece não conseguir progredir sem seguir uma ordem superior, sem ter alguém guiando seus passos, como é tão mais fácil sentir ter a permissão de uma doutrina, usá-la como desculpa para suas ações. A trama acompanha uma época onde seus personagens enfrentam o vazio deixado pela Guerra, mais do que isso, o declínio daquele tão sonhado "american way of life", onde "A Causa", claramente inspirada na Cientologia, revela ensinamentos tão absurdos mas que de alguma forma preenche o vazio daquelas almas. Freddie Quell, que demonstra ter por Dodd um sentimento fraternal, permite ser moldado às normas de "A Causa", deixando ter sua mente controlada, pois seus vícios e sua loucura eram vistos como doença, algo a ser curado. 
  
Ao ver "O Mestre", muitos poderão encontrar razões para odiá-lo, o filme tem um formato diferente do que geralmente vemos, Paul Thomas Anderson não se preocupa em criar uma obra para ser agradável, é, assim como todos os seus trabalhos anteriores, um projeto pessoal, que foge do casual, ele cria um universo novo incapaz de ser comparado a qualquer outra coisa, por isso é tão difícil descrevê-lo, encontrar um sentido, uma razão para todas aquelas cenas. Se para muitos, sua trama se aprofundaria nos primórdios da Cientologia, PTA logo nos prova que sua intenção era bem outra, longe de querer ser polêmico ou ofender alguém, longe de querer encontrar lógica para a religião, "O Mestre" é uma obra extremamente complexa, subjetiva, que poderá ter inúmeras definições e interpretações. Para algumas pessoas, certamente, será um longo filme sobre absolutamente nada. Vi algo a mais, vi um belo filme sobre a jornada deste memorável personagem, Freddie Quell, sobre o vazio da sua vida, sobre sua busca insistente de querer encontrar um sentido para ela. Seja pelo o que ele viu da Guerra, seja por um amor não concluído, nunca conseguimos encontrar as razões para sua loucura, sua raiva, seu alcoolismo. É então que surge esta relação dele com Lancaster, que de início parece ser uma relação de interesses, logo se mostra uma amizade de grande intensidade, ambos acabam revelando a verdade sobre um ao outro, parece que conhecemos a fragilidade de Quell quando este está com Dodd, ao mesmo tempo em que podemos observar o lado mais sombrio e monstruoso do tal mestre. É simplesmente belo o olhar de Freddie para seu amigo, um olhar que pede ajuda, compaixão, um homem que não se adequa a sua religião, mas permanece pois acredita que seu mentor e amigo poderá encontrar a razão para suas dores, poderá preencher o vazio de sua vida fracassada. 

São raras as vezes que nos deparamos com obras como esta, Paul Thomas Anderson que já havia feito trabalhos fantásticos como "Megnólia" de 1999 e "Sangue Negro" de 2007, já não havia nada para provar, ele é um dos melhores diretores do cinema atual e percebemos isso a cada cena, a cada minuto sentimos um grande prazer, prazer porque são por filmes como este que se vale a pena admirar a sétima arte, ser cinéfilo, por ter a certeza de que há alguém, ainda, capaz de realizar um trabalho tão primoroso e tão completo quanto "O Mestre". A maneira como captura cada imagem é única, há beleza em todas as sequências, seja sua direção com os atores que consegue expor o melhor de cada um, seja nas belíssimas paisagens, com fotografia impecável, o jeito único de PTA de reúnir todos estes elementos e construir algo hipnotizante, mesmo quando nada acontece. Vale citar a incrível trilha sonora composta por Jonny Greenwood, músico da banda "Radiohead", que conversa bem com as cenas, conseguindo transmitir toda a confusão daquele universo, revelando com competência o lado enigmático e doentio dos personagens. 

Joaquin Phoenix. O que dizer deste ator? Simplesmente fiquei arrepiado com seu desempenho, desde a interpretação de Daniel Day-Lewis em "Sangue Negro",  não via nada tão magnífico no cinema, é digno de palmas, tem poucas chances no Oscar, no entanto, não só é a melhor atuação do ano, como a melhor atuação masculina em anos. Phoenix faz de Freddie Quell um personagem único, memorável, surge com sua forma física tão monstruosa quanto seu interior, seu olhar é tão profundo, seu sorriso que revela seu lado mais inocente, quase que de uma criança, que pede por ajuda. Enfim, foram poucas as vezes que vi uma atuação tão incrível quanto a deste ator. Os coadjuvantes também são de peso, Philip Seymour Hoffman surge magnífico, realiza cenas antológicas ao lado de Phoenix, mesmo que cenas simples como o jogo de perguntas e respostas, provam o quão grandiosos são estes dois atores. Amy Adams, que mesmo sem perder sua doçura, aparece como nunca a vimos antes, com um olhar forte e uma voz mais segura, domina o texto, e prova seu talento ao conseguir atuar ao lado de dois monstros do cinema sem ser ofuscada. 

Ver e apreciar "O Mestre" é uma experiência única, é uma verdadeira aula de como se fazer um bom filme. Paul Thomas Anderson é um gênio. Uma direção que se atenta aos detalhes, construindo cenas que permanecem na memória muito tempo depois de ter terminado. Com seu roteiro, vemos na tela o desenvolver de grandes personagens, complexos, que transitam entre o medo e a loucura, do sensível ao violento, agressivo. Há um sentimento muito forte preso na trama, por vezes sentia que havia uma bomba prestes a explodir, há algo de monstruoso e enigmático presente em cada sequência, parece que vamos adentrando um universo sombrio e nos sentimos tão atordoados quanto os personagens ali retratados, por fim, me senti vendo um verdadeiro terror psicológico. Intrigante, assustador, belo e inspirador, "O Mestre" é a mais nova obra-prima de Paul Thomas Anderson. Provavelmente não levará nenhum Oscar este ano, mas é nitidamente superior a muitos dos indicados. Recomendo. 

NOTA: 9



quarta-feira, 22 de setembro de 2010

2 em 1: Paul Thomas Anderson

Um dos diretores mais aclamados da atualidade e considerado um dos melhores realizadores dos últimos anos. P.T Anderson foi consagrado por filmes como Boggie Nights (1997) e por seu último trabalho, o excelente "Sangue Negro" (2007), e recentemente tive o prazer de ver dois de sua maravilhosa filmografia: Magnólia e Embriagado de Amor.

Vale citar que o diretor está realizando um novo projeto, ainda intitulado como "The Master", que deveria chegar no final deste ano nos EUA, mas as últimas notícias indicam que a obra está parada, por "bloqueio criativo". O filme conta com Philip Seymour Hoffman, Jeremy Renner e Reese Witherspoon no elenco.

por Fernando Labanca


Magnólia (Magnolia, 1999)

Definitivamente, uma obra-prima, o melhor de Paul Thomas Anderson, que além de dirigir, escreveu e editou o filme. Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2000 e indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, Melhor Ator Coadjuvante para Tom Cruise e Melhor Canção Original.

O longa conta algumas horas na vida de alguns moradores de Los Angeles. Claudia (Melora Walters), uma viciada em drogas, abusada sexualmente por seu pai na infância e com mantém um relacionamento atordoado no presente, ele é Jimmy Gator (Philip Baker Hall), que por sua vez, um apresentador de TV bem sucedido, que apresenta um famoso quadro onde crianças super inteligentes provam seus conhecimentos: no presente, um garoto é obrigado por seu pai a participar do programa pelo dinheiro; e no passado, um menino fez muito sucesso respondendo as perguntas e hoje (interpretado por William H.Macy), afetado psicológicamente pela fama repentina na infância, sofre por não encontrar seu lugar no mundo. Enquanto isso, um homem em coma afeta algumas vidas ao seu redor: um enfermeiro (Philip Seymour Hoffman), sua atual esposa (Juliane Moore) e seu filho (Tom Cruise), um guro do sexo, abandonado por ele na infância e que agora vai atrás de perdoar os erros passados do pai. Não muito distante, Jim (John C.Reilly), um policial que acaba se apaixonando por Claudia, uma viciada em drogas.


Pessoas que acabam se encontrando por pura coincidências do destino, ou melhor, por fatos inexplicáveis com uma probabilidade mínima de acontecerem, mas que acontecem, é a estranheza desse mundo, inexplicável, incoerente, surpreendente.


Uma história sobre perdão, sobre pessoas que por algum motivo deixaram de seguir em frente, mas que nessas horas, terão seus medos, suas fraquezas, suas crenças confrontadas. Ainda vemos várias aparições do número 82, referência de uma passagem bíblica, êxodo 8:2, uma breve metáfora sobre o perdão, onde há uma chuva de sapos e no filme, isso ocorre literalmente. E há quem diga que magnólia seja a flor do perdão, ou seja, um filme cheio de simbologias.

Editado pelo próprio Paul Thomas Anderson, "Magnólia" é ágil, sabendo contar cada história de forma magestral, um drama hipnotizante que nos fisga desde o primeiro segundo, fazendo as 3 horas de filme parecerem rápidos minutos.

As atuações são ótimas, porém as performances masculinas tiveram mais destaque. Juliane Moore, sempre incrível, tem uma personagem um pouco incompreensível que só chora e sofre. Melora Walters, uma pseudo-protagonista, derrapa feio em determinadas cenas, mas se recupera em outras. O destaque fica para John C.Reilly, incrível em sua performance, assim como William H.Macy, o melhor desempenho do ator que vi. A surpresa fica para Tom Cruise, indicado ao Oscar e vencedor do Globo de Ouro por sua atuação, muito bom em cena, surpreende qualquer um que achava que ele só era capaz de fazer filmes de ação.

Repito, uma obra-prima. Incrível, magnífico, surpreendente no roteiro e nas atuações, hipnotizante e emocionante. E mesmo após 11 anos de seu lançamento, vale a pena ser resgatado e apreciado.

NOTA: 10




Embriagado de Amor
(Punch-Drunk Love, 2002)

Nesta sutil comédia romântica, bem fora dos padrões, PTA também dirige e escreve o roteiro. Um filme bem leve e com uma direção impecável.

Na trama, Barry (Adam Sandler) é um pequeno empresário, que vende algumas criações num depósito, mas que tem a noção de que isto não lhe trará dinheiro, para resolver seu problema financeiro, ele descobre uma falha na promoção de uma compania aérea, comprando alguns pudins no mercado, ele conseguiria uma grande quantidade de milhas para viagens de graça. Logo, ele se torna um "viciado em pudim", sem que ninguém saiba seu plano incrível. Trabalha de terno para provar a si próprio que seu trabalho é sério e tem sete irmãs, o que para ele é uma desgraça, pois desde criança sempre foi sete contra um, e devido a isso, foi alvo de brincadeiras e humilhações que seguiram durante toda sua vida, e toda sua infelicidade, guardada, ele expõe para o mundo com algumas crises de raiva e depressão repentinas.

Até que conhece Lena (Emily Watson), uma mulher tão estranha quanto ele, e logo ele se identifica, entretanto, ele não tem a menor idéia de como ser legal e amar alguém. E aos poucos ela vai entrando neste estranho e louco mundo de Barry e descobre que a vida do rapaz é muito mais fora do comum do que ela imaginava, principalmente quando ele começa a ser perseguido por mafiosos perigosos, que dizem que Barry tem uma dívida com eles.

"Embriagado de Amor" nos mostra com bastante delicadeza essa estranha história de amor e a busca de um cara perdido no próprio mundo em ser forte e ser capaz de fazer alguém feliz. Um roteiro bem dirferente para uma comédia romântica e sua direção também caminha por novos rumos, cenas longas e silenciosas, humor bastante sutil e referências a filmes clássicos de romance, construindo cenas memoráveis.

O defeito fica na introdução de personagens necessários, porém, muito mal desenvolvidos, como os mafiosos, liderado por Philip Seymour Hoffman, se tornando vilões patéticos, o problema que eles acabam tendo bastante destaque na trama, destruindo toda a história que estava indo maravilhosamente bem.

Adam Sandler é a surpresa da vez, muito bem como ator de comédia, ele surpreende também nas cenas mais tensas e dramáticas. Emily Watson, sempre incrível, com seu jeitinho meigo e seu carisma inquestionável, ela facilmente conquista o público. Vale a pena pelos dois, pela inovação do gênero comédia romântica e pela impacável direção de Paul Thomas Anderson. Um filme belo e divertido, mas que infelizmente derrapa na história, acabando de um jeito sem graça, destruindo aquilo que era para ser perfeito.

NOTA: 6

terça-feira, 3 de março de 2009

Dica de DVD: Sangue Negro

Voltando um pouco no tempo, ao Oscar do ano passado, estava a obra-prima Sangue Negro, que era um dos favoritos a ganhar os principais prêmios, mas acabou perdendo injustamente para Onde os Fracos Não Têm Vez. Mas levou o Oscar de Melhor Ator para o sempre ótimo Daniel Day Lewis e Melhor Fotografia.

por Fernando

Sangue Negro conta a tragetória de Daniel Plainview (Daniel Day Lewis) e seu pequeno filho H.W. Daniel é um perfurador de solos a procura de petróleo, vive sua vida disso e toma conta de sua família que se resume a seu único filho, pois ele havia perdido sua esposa. Até que um dia, um milagre para ele acontece, ele encontra muito petróleo em um determinado terreno, o equivalente para ele se tornar um milionário, empresário, admistrador de seu próprio trabalho e o homem mais influente da região. E com isso, ele, é claro, decide se expandir.

Logo, ele parte com seu filho para uma pacata cidade, ele descobre através de um desconhecido um terreno que poderá gerar muitos frutos para ele, muito petróleo seria encontrado, essa informação foi dada em troca de dinheiro. Pois a vida de todos da região se resumia a trabalho, ambição e ir para a igreja, a igreja de Eli Sunday (Paul Dano). O plano dá certo, Daniel encontra muito petróleo, se expande cada vez mais e influência cada vez mais pessoas.

Daniel é autônomo, ele é sua própria empresa, cria uma região feita para gerar dinheiro, cada vez mais dinheiro, pessoas vinham de toda a parte trabalhar com ele, isso significava, que suas respectivas famílias se mudavam com seus maridos trabalhadores, isso, por sua vez, significava ter que construir escolas e casas para as novas famílias. Com isso, Daniel constrói um mundo ao seu redor.

Por outro lado, nem tudo segue perfeitamente. Eli Sunday é um jovem e ambicioso pastor, é rígido demais e subordinado demais sob as leis da igreja, segue seus passos através da palavra da fé. Não admite as idéias de Daniel, é completamente contra um homem ser tão ambicioso e nem ligar para Deus, só pensar em dinheiro. Ele começa a bater de frente com Daniel, começa exigir dinheiro para sua igreja, começa a exigir atitudes "nobres" dele. E Plainview encontra no pastor seu pior inimigo, seu maior obstáculo. A relação dos dois atravessa os limites da compreensão, Daniel chega a espancar o pastor, Eli, por sua vez, praticamente obriga Daniel a ser exorcisado, já que ele acredita fielmente que ele está sendo dominado por um demônio, e por isso age de maneira tão arrogante, tão ambiciosa, tão individualista.

Daniel passa dos limites com sua ambição, começa a ter tanto poder que perde completamente o controle. Seu filho fica surdo por causa de um acidente em uma torre que perfurava o chão. Ele não é um pai carinhoso e partir disso começa a abandonar o filho, a não aceitar ele ser surdo. H.W começa a ficar sózinho e Daniel não vê o quanto seu trabalho e sua ausência começa a afetar a vida de seu filho.

Daniel Plainview é uma personagem de ouro, clássica. É tão humano que chega a assustar. Conforme o filme segue, vamos conhecendo a personalidade dele e vamos nos envolvendo com facilidade a sua trajetória, nos emocionamos com ele e ao mesmo tempo sentimos raiva. Em determinada cena, ele se revela, mostrando quem realmente ele é, um homem maduro, sério, compenetrado no trabalho, só pensa em vencer, a questão para ele não ter muito dinheiro, mas sim vencer, não se admite ser pior que os outros, não se admite falhar, não se admite ser pequeno.

A história é ótima, a fotografia é bela e junto com a excelente trilha sonora dão um tom pesado ao filme. Mas não importa o quanto de qualidades Sangue Negro tenha, só conseguimos ver Daniel Day Lewis.

Day Lewis é um ator completo, parece que conseguiu chegar ao auge de sua carreira com essa personagem. É difícil encontrar palavras para descrever o seu mais que excelnete desempenho. Sua atuação é fora de sério, uma das melhores performances masculinas dos últimos anos, o que ele faz é memorável, admirável. Daniel Day Lewis tem uma atuação antológica.

Palmas também para o diretor Paul Thomas Anderson, que faz um filme brilhante. Outro destaque é o coadjuvante Paul Dano que está ótimo com seu pastor obsecado pela igreja, um pastor fajuto e cheio de más intensões.

Sangue Negro é um filme longo e bem monótomo, e está ai o seu pior defeito. Mas as cenas, as atuações, os diálogos são tão belos que nem ligamos tanto para o tempo. Pelo menos, acredito que aguentaria mais, é um filme bom de se ver, de se admirar. Mas é um longa com um clima pesado, angustiado, melancólico, forte e que contribui para entrarmos de cabeça nessa vida de poder e corrupção de Daniel Plainview e Eli Sunday. Aliás, existem algumas cenas inesquecíveis e diálogos fortes e memoráveis, em determinados momentos ficamos espantados com os acontecimentos de tão pesados e expressivos, isso gráças as atuações de Paul Dano e Daniel Day Lewis. A vontade que dá é de abrir a boca e ficar ali parado, sem pensar, sem respirar e depois reprisar para ver de novo.

Sangue Negro está ai para provar que nem sempre o filme que ganha o Oscar é o melhor. De longe, disparado, esse filme é muito melhor que Onde os Fracos Não têm Vez, que até hoje não entendo como esse filme conseguiu ganhar os principais prêmios, seus concorrentes eram bem melhores, além de Sangue Negro, havia os ótimos Juno e Desejo e Reparação, que se ganhassem, seria algo mais compreensível. Esqueça Contato de Risco, com George Clooney, que conseguiu ser pior que o vencedor. Mas tudo isso ficou no passado, esse ano estamos de frente de filmes um pouco melhores que do prêmio do ano passado.

Mas deixa de lado os prêmios, Sangue Negro não é o melhor filme, para muitos pode até ser um filme chato, mas é brilhante, original, recomendável. Assista se puder, vale a pena.

NOTA: 8.5

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