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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Oscar 2020: Os Vencedores, as surpresas e injustiças


Foi anunciado, nesta noite de domingo (09/02), os vencedores do Oscar. A premiação mais importante e aguardada do cinema veio com algumas previsibilidades mas com boas surpresas também. Os favoritos aos prêmios de atuação foram definidos com bastante antecedência nesta temporada e a Academia optou por não ousar, premiando o quarteto formado por Joaquin Phoenix, Renée Zellweger, Brad Pitt e Laura Dern. 

A grande surpresa, claro, ficou por conta da forte presença de "Parasita", o mais premiado da noite, com 4 estatuetas, vencendo ainda nas categorias principais como Melhor Filme, Direção e Roteiro Original. Foi um momento histórico, pois nunca um filme internacional chegou tão longe na premiação. Épico eu diria. Essa renovação faz um bem enorme ao Oscar e podemos afirmar que essa foi uma das maiores e mais adoráveis reviravoltas que o evento teve nos últimos anos. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Retrospectiva 2019: Os Melhores Atores

Em 2019 tivemos ótimos personagens masculinos e, como consequência, grandes atores se destacam durante o ano. Foi uma lista um pouco difícil de fechar, logo, acabei deixando nomes fortes de fora. Caso sinta falta de alguém, deixe nos comentários. 

Essas são, na minha opinião, as melhores atuações masculinas de 2019. Espero que gostem dos selecionados. Sempre bom lembrar que na retrospectiva aqui no blog, os filmes possíveis de seleção são todos aqueles lançados no Brasil entre janeiro e dezembro, independente do ano em que foram lançados nos países de origem. 

por Fernando Labanca



15. Timothée Chalamet (O Rei)
É surpreendente a força de Timothée Chalamet em cena. Apesar de muito jovem, ele encara o protagonista de “O Rei” com garra e prova ser mais do que uma mera nova promessa de Hollywood. Aqui ele interpreta Henrique V, que contra sua vontade, aceita o reinado deixado por seu pai, assumindo o posto de rei da Inglaterra e liderando uma violenta guerra. Toda a construção do personagem é interessante e vê-lo crescendo na pele de Chalamet é ainda mais fascinante. 




14. Eddie Murphy (Meu Nome é Dolemite)
“Meu Nome é Dolemite” marca uma volta triunfal do veterano Eddie Murphy, que depois de anos longe do cinema retorna em um papel que lhe cai como uma luva. É a sua cara. É o seu momento. Na pele de Rudy Ray Moore, um homem que na década de 70 fez absolutamente de tudo para conseguir emplacar uma carreira artística, o ator encontra espaço para explorar todo o seu talento, fazendo stand up, cantando e provando que é capaz de ir muito além da comédia. 




13. Daniel Craig (Entre Facas e Segredos)
No início de “Entre Facas e Segredos” há um certo mistério diante do famoso detetive que entre em cena para solucionar um crime. Quando, enfim, o rosto de Daniel Craig é revelado e seu personagem ganha destaque na trama, o filme ganha uma nova vida, um novo brilho. Depois de tanto tempo se dedicando ao James Bond, acabamos que esquecendo do quão bom ator ele é. Benoit Blanc é um personagem pomposo, inteligente, cômico e parece ter sido tirado de um filme antigo. Craig, por sua vez, é este ator intrigante, que diante desta baixa expectativa que existe sobre sua presença, vem e nos entrega uma grande atuação. Ele tem carisma e um charme que é difícil de tirar os olhos quando está frente à câmera. 




12. Zain Al Rafeea (Cafarnaum)
Me emociona e me faz pensar no quão milagroso o cinema consegue ser. Zain, o ator, é um refugiado sírio e quando filmou “Cafarnaum”, não sabia ler. É brilhante, então, a veracidade e intensidade que ele traz ao personagem Zain, o garoto pobre libanês, que processa os pais por tê-lo colocado no mundo. É muito forte toda a trajetória do garoto e nos choca como ele, que não é um ator profissional, conseguiu trazer tanta honestidade e tanta comoção em cena. Zain é um desses milagres e que lindo foi poder vê-lo aqui. 




11. Taron Egerton (Rocketman)
Taron Egerton tem construído uma carreira interessante em Hollywood. Rosto bonito, ele é o típico jovem padrão que tem tudo para ser um galã de sucesso. É curioso, então, perceber o quanto ele se recusa a isso e consegue, através de projetos tão arriscados, apagar essa imagem fútil e provar o quão talentoso é. Em “Rocketman”, nada é capaz de apagar o brilho que ele tem. Taron canta, dança e entrega uma atuação digna de prêmios. Na pele do astro Elton John, o ator foge da caricatura ou imitação e faz sua própria versão daquilo que acredita ser Elton. E traz verdade, traz intensidade e nos convida a enfrentar sua mágica e dolorosa jornada ao seu lado. 




10. Brad Pitt (Ad Astra)
Brad Pitt é um grande ator, mas por alguma razão, sempre esquecemos disso. “Ad Astra” veio para nos lembrar do quão competente ele é capaz de ser quando recebe um bom filme e um bom personagem em mãos. Ao interpretar o engenheiro espacial Roy, que viaja ao espaço a procura de seu pai, o vemos quase que o tempo inteiro sozinho em cena. É preciso ser um grande ator para segurar a público diante deste isolamento e, apesar de extremamente sutil, ele nos hipnotiza e nos emociona. Brad é bastante honesto ao revelar os dramas de seu personagem e entrega uma atuação, surpreendentemente, sensível e delicada, muito distante de tudo o que ele realizou anteriormente. 




09. Christian Bale (Ford vs Ferrari)
Não fechei esta lista até assistir “Ford vs Ferrari” pois sabia da possibilidade que havia de Christian Bale entregar uma atuação digna de ser lembrada como “uma das melhores”. Afinal, quando foi que ele errou? Bale é unânime e segue construindo uma carreira de acertos. Muito a vontade na pele do piloto Ken Miles, o ator entrega mais uma grande interpretação. É um cara grosseiro, meio truculento e no meio de sua comicidade, o ator encontra sua humanidade. Ao fim, criamos um laço forte com aquele personagem, uma afeição que nos faz torcer fortemente por suas vitórias e isso se deve a Bale e a capacidade dele de nos convencer. De acreditar no quão humano, quão real e verdadeiro ele é.  




08. Jonathan Pryce (Dois Papas)
Eu não consigo imaginar outro ator sendo o Papa além de Jonathan Pryce. Mais do que uma questão de fisionomia, ele nos prova, cena após cena, que ninguém poderia incorporar aquele personagem além dele. Há algo de muito especial em sua composição, que nos transmite verdade, que nos transmite paz. A naturalidade com que ele fala outros idiomas também impressiona e revela o quão preparado ele estava para viver aquilo. Os diálogos são ótimos e são como presentes dados ao veterano que poucas vezes, nos últimos anos, recebeu um material tão completo como este. 




07. Marcello Fonte (Dogman)
Marcello venceu, ano passado, o prêmio de Melhor Ator em Cannes e não só por isso merece estar aqui. Estrela do elogiado filme do italiano Matteo Garrone, Marcello surpreende por não ser um ator profissional e ter se entregado com tanta garra. Ele foi achado ao acaso pelo diretor para dar vida ao protagonista Marcelo, um humilde funcionário de uma pet shop. Seu carisma enche a tela e sua presença nos impacta, tamanha força. Ele traz honestidade em cada diálogo e em cada situação vivida pelo personagem e nos envolve facilmente em sua jornada. 




06. Ethan Hawke (Fé Corrompida)
Foi uma grande surpresa ver Ethan Hawke na pele do reverendo Toller no drama “Fé Corrompida”. Ele sempre foi um ator muito correto, no entanto, confesso que nunca o tinha visto desta forma, tão entregue a seu personagem. Pela primeira vez me fez esquecer seus outros papéis e encará-lo como um ator realmente competente, capaz de sair de sua zona de conforto e viver por completo uma outra realidade. 




05. Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez em Hollywood)
Leonardo DiCaprio é um desses grandes atores que nunca erram. Pelo menos nesta última década, não me vem à cabeça um projeto que ele tenha se envolvido e dado errado. Na pele do ator Rick Dalton, ele entrega mais uma irretocável atuação. Aqui ele é um astro da comédia, do drama, da ação e trilha com perfeição por todos os gêneros, explorando ao máximo todas as possibilidades de seu personagem. DiCaprio nos mantém atentos e é ele a grande razão do novo filme de Tarantino valer a pena.  




04. Adam Driver (História de Um Casamento)
Queridinho do cineasta Noah Baumbach, os dois tem construído uma bela parceria nos últimos anos. É nítido o quão pessoal e intimista é o texto de “História de Um Casamento” e Driver serve quase como um alter ego do roteirista aqui. É nítido, também, o quanto o ator se doou aqui, mergulhando de cabeça nos dramas de seu personagem e entregando umas das interpretações mais viscerais do ano. Ao viver o marido que está se divorciando, Driver se mostra intenso e muito honesto em cada diálogo. É seu melhor momento, com certeza. 




03. Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)
Não que Willem Dafoe seja a escolha mais óbvia para dar vida a Van Gogh no cinema, mas quando “No Portal da Eternidade” começou, ficou claro que não poderia haver outro ator para interpretá-lo. Ela abraça o personagem, vive com intensidade aquela verdade e durante aqueles minutos nos juntamos a ele em sua jornada e acreditamos em seus dramas e relatos. É linda e irretocável sua presença em cena, emociona e nos faz ter a certeza do quão completo ele é como profissional.   




02. Antonio Banderas (Dor e Glória)
Acho que esquecemos do grande ator que Antonio Banderas é. Talvez por isso tenha sido tão surpreendente vê-lo em “Dor e Glória”. Ele renasce em cena para viver o alter ego do diretor Pedro Almodóvar, Salvador Mallo. É uma performance sutil, que encanta, nos envolve e nos deixa ali, hipnotizados por cada diálogo que pronuncia. Banderas nos convence e prova que por muitos anos o subestimamos. É um ator incrível, que domina a cena e que merece mais chances como esta. 




01. Joaquin Phoenix (Coringa)
Foi a atuação de 2019, fato. Me deixou sem palavras por diversos momentos e arrepiado pela entrega e transformação do ator. Joaquin Phoenix é um monstro, um camaleão e não resta dúvidas de que ele é um dos maiores atores ainda em atividade. Na pele do Coringa, Phoenix renasce e supera as altíssimas expectativas que existam em cima de sua interpretação. É brilhante sua entrega, em como ele entende o personagem e se permite crescer em cena. Cada nova sequência, um novo choque, um novo impacto. Phoenix deu um show, um show que vamos lembrar daqui há muitos e muitos anos. Foi mágico, foi memorável. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Retrospectiva 2018: Os Melhores Atores



Para finalizar a parte da retrospectiva relacionada às melhores atuações de 2018, deixo com vocês a lista dos melhores atores do ano. É um pouco delicado colocar em uma "ordem", então não levem a sequência muito em consideração, já que não existe aqui um melhor ou pior que o outro. Se sentirem falta de algum nome, deixem nos comentários. Lembrando que selecionei apenas as atuações presentes em filmes lançados no Brasil entre janeiro e dezembro do ano passado. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Crítica: Você Nunca Esteve Realmente Aqui

O irretocável e vazio cinema de Lynne Ramsay.

Havia uma grande expectativa quanto a este novo filme de Lynne Ramsay, que não lançava nada desde o extraordinário "Precisamos Falar Sobre o Kevin", de 2011. Exibido na mostra de competição no Festival de Cannes em 2017, onde saiu vencedor dos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator, a obra é baseada no livro de Jonathan Ames e narra a história de Joe (Joaquin Phoenix), veterano de guerra, que vive sua vida resgatando garotas que são presas e trabalham como escravas sexuais em bordéis. A tensão aumenta quando uma de suas missões falha e ele passa a ser alvo de uma brutal conspiração. 

Existe aqui um cinema de extrema qualidade. Ramsay constrói, cena por cena, instantes de puro sadismo. Seu produto é pesado, violento, mas seguimos contemplando cada recurso que se utiliza. Sua arte é milimetricamente calculada e dessa forma, entrega um filme rigorosamente bem realizado. A montagem se destaca, assim como a potente trilha sonora composta por Jonny Greenwood. Existe uma violência gráfica aqui e a diretora expõe sem muita censura. É interessante essa atmosfera que ela consegue criar, logo nos remetendo ao classico Táxi Driver e essa solidão do homem que dirige pelas ruas violentas da cidade. Joaquin Phoenix parece um monstro em cena, atordoado pelo passado que não temos acesso e rumo um caminho que não vê sentido, mas segue como única solução. É uma atuação mais contida, sem muito o que explorar.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Crítica: Ela (Her, 2013)


Vencedor do Oscar 2014 de Melhor Roteiro Original, "Ela" trás aos cinemas uma das histórias mais inusitadas que tivemos a oportunidade de ver nos últimos anos. Escrito e dirigido por Spike Jonze, que prova ser um dos cineastas mais competentes e mais criativos da atualidade, que tem o dom de lançar uma obra-prima a cada nova estreia. Vemos aqui, um filme extremamente inteligente, tocante e memorável.

por Fernando Labanca

Em um futuro não muito distante, conhecemos o solitário Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor que ainda deprimido e inconformado por sua separação, passa suas horas no trabalho e o restante jogando video-game em seu apartamento, preso nas lembranças que tem de sua ex-mulher (Rooney Mara), a mulher que acreditava ser a certa para ele. Até que curioso por um novo lançamento no mercado, Theodore instala em seu computador um sistema operacional bastante instigante e que parece resolver sua solidão, uma inteligência artificial que conversa com seu usuário, que evolui a cada novo diálogo, que é capaz de amar. É assim que ele conhece Samantha (Scarlett Johansson), a única que parece compreender suas falhas, que faz ele dizer o que sente, se sentir acolhido, a única por quem ele consegue finalmente se apaixonar. 



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Crítica: O Mestre (The Master, 2012)

Vencedor do Leão de Prata de Melhor Diretor no último Festival de Veneza e indicado ao Oscar 2013 nas categorias de Melhor Ator, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante, para Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams, respectivamente. Já era polêmica muito antes de ser lançado por ter sua trama inspirada na Cientologia, o que acabou decepcionando alguns que esperavam maiores conclusões sobre o controverso assunto. "O Mestre" marca o retorno de Paul Thomas Anderson, um dos melhores diretores da atualidade, além de ter a memorável interpretação de Joaquin Phoenix, sem sombra de dúvida, a melhor atuação masculina dos últimos anos.

por Fernando Labanca

Assim que a Segunda Guerra Mundial termina, o marinheiro Freddie Quell (Phoenix) tenta voltar a vida normal trabalhando como fotógrafo. Um homem com sérios problemas emocionais, conturbado pelos acontecimentos da Guerra, atordoado pela própria vida, onde nunca encontrou um verdadeiro sentido para ela, tem uma incontrolável ansiedade sexual e surtos de ira e violência. Perambulando pelas ruas da cidade, como de costume, alcoolizado, Quell se depara com Lancaster Dodd (Hoffman), um homem inteligente e carismático que lhe oferece abrigo. Mais do que um lugar para ficar, Dodd ao perceber o quão problemático é o misterioso homem, o usa como cobaia de seu novo estudo, ele que escreveu "A Causa", livro que guia uma doutrina religiosa e que tem milhares de fervorosos seguidores, tenta salvá-lo, dominando sua mente, numa ideologia que acredita que a procura de vidas passadas é a cura para doenças atuais, é o caminho para o controle e libertação da alma.


"Se descobrir um modo de viver sem servir a um mestre, qualquer mestre, então nos conte como conseguiu. Você seria a primeira pessoa na história do mundo". Frase dita por Dodd a seu pupilo, Freddie, ao perceber que ele já estava muito distante de seus ensinamentos. "O Mestre", que tem seu roteiro assinado também por Paul Thomas Anderson, trás grandes reflexões sobre como uma sociedade parece não conseguir progredir sem seguir uma ordem superior, sem ter alguém guiando seus passos, como é tão mais fácil sentir ter a permissão de uma doutrina, usá-la como desculpa para suas ações. A trama acompanha uma época onde seus personagens enfrentam o vazio deixado pela Guerra, mais do que isso, o declínio daquele tão sonhado "american way of life", onde "A Causa", claramente inspirada na Cientologia, revela ensinamentos tão absurdos mas que de alguma forma preenche o vazio daquelas almas. Freddie Quell, que demonstra ter por Dodd um sentimento fraternal, permite ser moldado às normas de "A Causa", deixando ter sua mente controlada, pois seus vícios e sua loucura eram vistos como doença, algo a ser curado. 
  
Ao ver "O Mestre", muitos poderão encontrar razões para odiá-lo, o filme tem um formato diferente do que geralmente vemos, Paul Thomas Anderson não se preocupa em criar uma obra para ser agradável, é, assim como todos os seus trabalhos anteriores, um projeto pessoal, que foge do casual, ele cria um universo novo incapaz de ser comparado a qualquer outra coisa, por isso é tão difícil descrevê-lo, encontrar um sentido, uma razão para todas aquelas cenas. Se para muitos, sua trama se aprofundaria nos primórdios da Cientologia, PTA logo nos prova que sua intenção era bem outra, longe de querer ser polêmico ou ofender alguém, longe de querer encontrar lógica para a religião, "O Mestre" é uma obra extremamente complexa, subjetiva, que poderá ter inúmeras definições e interpretações. Para algumas pessoas, certamente, será um longo filme sobre absolutamente nada. Vi algo a mais, vi um belo filme sobre a jornada deste memorável personagem, Freddie Quell, sobre o vazio da sua vida, sobre sua busca insistente de querer encontrar um sentido para ela. Seja pelo o que ele viu da Guerra, seja por um amor não concluído, nunca conseguimos encontrar as razões para sua loucura, sua raiva, seu alcoolismo. É então que surge esta relação dele com Lancaster, que de início parece ser uma relação de interesses, logo se mostra uma amizade de grande intensidade, ambos acabam revelando a verdade sobre um ao outro, parece que conhecemos a fragilidade de Quell quando este está com Dodd, ao mesmo tempo em que podemos observar o lado mais sombrio e monstruoso do tal mestre. É simplesmente belo o olhar de Freddie para seu amigo, um olhar que pede ajuda, compaixão, um homem que não se adequa a sua religião, mas permanece pois acredita que seu mentor e amigo poderá encontrar a razão para suas dores, poderá preencher o vazio de sua vida fracassada. 

São raras as vezes que nos deparamos com obras como esta, Paul Thomas Anderson que já havia feito trabalhos fantásticos como "Megnólia" de 1999 e "Sangue Negro" de 2007, já não havia nada para provar, ele é um dos melhores diretores do cinema atual e percebemos isso a cada cena, a cada minuto sentimos um grande prazer, prazer porque são por filmes como este que se vale a pena admirar a sétima arte, ser cinéfilo, por ter a certeza de que há alguém, ainda, capaz de realizar um trabalho tão primoroso e tão completo quanto "O Mestre". A maneira como captura cada imagem é única, há beleza em todas as sequências, seja sua direção com os atores que consegue expor o melhor de cada um, seja nas belíssimas paisagens, com fotografia impecável, o jeito único de PTA de reúnir todos estes elementos e construir algo hipnotizante, mesmo quando nada acontece. Vale citar a incrível trilha sonora composta por Jonny Greenwood, músico da banda "Radiohead", que conversa bem com as cenas, conseguindo transmitir toda a confusão daquele universo, revelando com competência o lado enigmático e doentio dos personagens. 

Joaquin Phoenix. O que dizer deste ator? Simplesmente fiquei arrepiado com seu desempenho, desde a interpretação de Daniel Day-Lewis em "Sangue Negro",  não via nada tão magnífico no cinema, é digno de palmas, tem poucas chances no Oscar, no entanto, não só é a melhor atuação do ano, como a melhor atuação masculina em anos. Phoenix faz de Freddie Quell um personagem único, memorável, surge com sua forma física tão monstruosa quanto seu interior, seu olhar é tão profundo, seu sorriso que revela seu lado mais inocente, quase que de uma criança, que pede por ajuda. Enfim, foram poucas as vezes que vi uma atuação tão incrível quanto a deste ator. Os coadjuvantes também são de peso, Philip Seymour Hoffman surge magnífico, realiza cenas antológicas ao lado de Phoenix, mesmo que cenas simples como o jogo de perguntas e respostas, provam o quão grandiosos são estes dois atores. Amy Adams, que mesmo sem perder sua doçura, aparece como nunca a vimos antes, com um olhar forte e uma voz mais segura, domina o texto, e prova seu talento ao conseguir atuar ao lado de dois monstros do cinema sem ser ofuscada. 

Ver e apreciar "O Mestre" é uma experiência única, é uma verdadeira aula de como se fazer um bom filme. Paul Thomas Anderson é um gênio. Uma direção que se atenta aos detalhes, construindo cenas que permanecem na memória muito tempo depois de ter terminado. Com seu roteiro, vemos na tela o desenvolver de grandes personagens, complexos, que transitam entre o medo e a loucura, do sensível ao violento, agressivo. Há um sentimento muito forte preso na trama, por vezes sentia que havia uma bomba prestes a explodir, há algo de monstruoso e enigmático presente em cada sequência, parece que vamos adentrando um universo sombrio e nos sentimos tão atordoados quanto os personagens ali retratados, por fim, me senti vendo um verdadeiro terror psicológico. Intrigante, assustador, belo e inspirador, "O Mestre" é a mais nova obra-prima de Paul Thomas Anderson. Provavelmente não levará nenhum Oscar este ano, mas é nitidamente superior a muitos dos indicados. Recomendo. 

NOTA: 9



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