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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Retrospectiva 2019: Os Melhores Atores

Em 2019 tivemos ótimos personagens masculinos e, como consequência, grandes atores se destacam durante o ano. Foi uma lista um pouco difícil de fechar, logo, acabei deixando nomes fortes de fora. Caso sinta falta de alguém, deixe nos comentários. 

Essas são, na minha opinião, as melhores atuações masculinas de 2019. Espero que gostem dos selecionados. Sempre bom lembrar que na retrospectiva aqui no blog, os filmes possíveis de seleção são todos aqueles lançados no Brasil entre janeiro e dezembro, independente do ano em que foram lançados nos países de origem. 

por Fernando Labanca



15. Timothée Chalamet (O Rei)
É surpreendente a força de Timothée Chalamet em cena. Apesar de muito jovem, ele encara o protagonista de “O Rei” com garra e prova ser mais do que uma mera nova promessa de Hollywood. Aqui ele interpreta Henrique V, que contra sua vontade, aceita o reinado deixado por seu pai, assumindo o posto de rei da Inglaterra e liderando uma violenta guerra. Toda a construção do personagem é interessante e vê-lo crescendo na pele de Chalamet é ainda mais fascinante. 




14. Eddie Murphy (Meu Nome é Dolemite)
“Meu Nome é Dolemite” marca uma volta triunfal do veterano Eddie Murphy, que depois de anos longe do cinema retorna em um papel que lhe cai como uma luva. É a sua cara. É o seu momento. Na pele de Rudy Ray Moore, um homem que na década de 70 fez absolutamente de tudo para conseguir emplacar uma carreira artística, o ator encontra espaço para explorar todo o seu talento, fazendo stand up, cantando e provando que é capaz de ir muito além da comédia. 




13. Daniel Craig (Entre Facas e Segredos)
No início de “Entre Facas e Segredos” há um certo mistério diante do famoso detetive que entre em cena para solucionar um crime. Quando, enfim, o rosto de Daniel Craig é revelado e seu personagem ganha destaque na trama, o filme ganha uma nova vida, um novo brilho. Depois de tanto tempo se dedicando ao James Bond, acabamos que esquecendo do quão bom ator ele é. Benoit Blanc é um personagem pomposo, inteligente, cômico e parece ter sido tirado de um filme antigo. Craig, por sua vez, é este ator intrigante, que diante desta baixa expectativa que existe sobre sua presença, vem e nos entrega uma grande atuação. Ele tem carisma e um charme que é difícil de tirar os olhos quando está frente à câmera. 




12. Zain Al Rafeea (Cafarnaum)
Me emociona e me faz pensar no quão milagroso o cinema consegue ser. Zain, o ator, é um refugiado sírio e quando filmou “Cafarnaum”, não sabia ler. É brilhante, então, a veracidade e intensidade que ele traz ao personagem Zain, o garoto pobre libanês, que processa os pais por tê-lo colocado no mundo. É muito forte toda a trajetória do garoto e nos choca como ele, que não é um ator profissional, conseguiu trazer tanta honestidade e tanta comoção em cena. Zain é um desses milagres e que lindo foi poder vê-lo aqui. 




11. Taron Egerton (Rocketman)
Taron Egerton tem construído uma carreira interessante em Hollywood. Rosto bonito, ele é o típico jovem padrão que tem tudo para ser um galã de sucesso. É curioso, então, perceber o quanto ele se recusa a isso e consegue, através de projetos tão arriscados, apagar essa imagem fútil e provar o quão talentoso é. Em “Rocketman”, nada é capaz de apagar o brilho que ele tem. Taron canta, dança e entrega uma atuação digna de prêmios. Na pele do astro Elton John, o ator foge da caricatura ou imitação e faz sua própria versão daquilo que acredita ser Elton. E traz verdade, traz intensidade e nos convida a enfrentar sua mágica e dolorosa jornada ao seu lado. 




10. Brad Pitt (Ad Astra)
Brad Pitt é um grande ator, mas por alguma razão, sempre esquecemos disso. “Ad Astra” veio para nos lembrar do quão competente ele é capaz de ser quando recebe um bom filme e um bom personagem em mãos. Ao interpretar o engenheiro espacial Roy, que viaja ao espaço a procura de seu pai, o vemos quase que o tempo inteiro sozinho em cena. É preciso ser um grande ator para segurar a público diante deste isolamento e, apesar de extremamente sutil, ele nos hipnotiza e nos emociona. Brad é bastante honesto ao revelar os dramas de seu personagem e entrega uma atuação, surpreendentemente, sensível e delicada, muito distante de tudo o que ele realizou anteriormente. 




09. Christian Bale (Ford vs Ferrari)
Não fechei esta lista até assistir “Ford vs Ferrari” pois sabia da possibilidade que havia de Christian Bale entregar uma atuação digna de ser lembrada como “uma das melhores”. Afinal, quando foi que ele errou? Bale é unânime e segue construindo uma carreira de acertos. Muito a vontade na pele do piloto Ken Miles, o ator entrega mais uma grande interpretação. É um cara grosseiro, meio truculento e no meio de sua comicidade, o ator encontra sua humanidade. Ao fim, criamos um laço forte com aquele personagem, uma afeição que nos faz torcer fortemente por suas vitórias e isso se deve a Bale e a capacidade dele de nos convencer. De acreditar no quão humano, quão real e verdadeiro ele é.  




08. Jonathan Pryce (Dois Papas)
Eu não consigo imaginar outro ator sendo o Papa além de Jonathan Pryce. Mais do que uma questão de fisionomia, ele nos prova, cena após cena, que ninguém poderia incorporar aquele personagem além dele. Há algo de muito especial em sua composição, que nos transmite verdade, que nos transmite paz. A naturalidade com que ele fala outros idiomas também impressiona e revela o quão preparado ele estava para viver aquilo. Os diálogos são ótimos e são como presentes dados ao veterano que poucas vezes, nos últimos anos, recebeu um material tão completo como este. 




07. Marcello Fonte (Dogman)
Marcello venceu, ano passado, o prêmio de Melhor Ator em Cannes e não só por isso merece estar aqui. Estrela do elogiado filme do italiano Matteo Garrone, Marcello surpreende por não ser um ator profissional e ter se entregado com tanta garra. Ele foi achado ao acaso pelo diretor para dar vida ao protagonista Marcelo, um humilde funcionário de uma pet shop. Seu carisma enche a tela e sua presença nos impacta, tamanha força. Ele traz honestidade em cada diálogo e em cada situação vivida pelo personagem e nos envolve facilmente em sua jornada. 




06. Ethan Hawke (Fé Corrompida)
Foi uma grande surpresa ver Ethan Hawke na pele do reverendo Toller no drama “Fé Corrompida”. Ele sempre foi um ator muito correto, no entanto, confesso que nunca o tinha visto desta forma, tão entregue a seu personagem. Pela primeira vez me fez esquecer seus outros papéis e encará-lo como um ator realmente competente, capaz de sair de sua zona de conforto e viver por completo uma outra realidade. 




05. Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez em Hollywood)
Leonardo DiCaprio é um desses grandes atores que nunca erram. Pelo menos nesta última década, não me vem à cabeça um projeto que ele tenha se envolvido e dado errado. Na pele do ator Rick Dalton, ele entrega mais uma irretocável atuação. Aqui ele é um astro da comédia, do drama, da ação e trilha com perfeição por todos os gêneros, explorando ao máximo todas as possibilidades de seu personagem. DiCaprio nos mantém atentos e é ele a grande razão do novo filme de Tarantino valer a pena.  




04. Adam Driver (História de Um Casamento)
Queridinho do cineasta Noah Baumbach, os dois tem construído uma bela parceria nos últimos anos. É nítido o quão pessoal e intimista é o texto de “História de Um Casamento” e Driver serve quase como um alter ego do roteirista aqui. É nítido, também, o quanto o ator se doou aqui, mergulhando de cabeça nos dramas de seu personagem e entregando umas das interpretações mais viscerais do ano. Ao viver o marido que está se divorciando, Driver se mostra intenso e muito honesto em cada diálogo. É seu melhor momento, com certeza. 




03. Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)
Não que Willem Dafoe seja a escolha mais óbvia para dar vida a Van Gogh no cinema, mas quando “No Portal da Eternidade” começou, ficou claro que não poderia haver outro ator para interpretá-lo. Ela abraça o personagem, vive com intensidade aquela verdade e durante aqueles minutos nos juntamos a ele em sua jornada e acreditamos em seus dramas e relatos. É linda e irretocável sua presença em cena, emociona e nos faz ter a certeza do quão completo ele é como profissional.   




02. Antonio Banderas (Dor e Glória)
Acho que esquecemos do grande ator que Antonio Banderas é. Talvez por isso tenha sido tão surpreendente vê-lo em “Dor e Glória”. Ele renasce em cena para viver o alter ego do diretor Pedro Almodóvar, Salvador Mallo. É uma performance sutil, que encanta, nos envolve e nos deixa ali, hipnotizados por cada diálogo que pronuncia. Banderas nos convence e prova que por muitos anos o subestimamos. É um ator incrível, que domina a cena e que merece mais chances como esta. 




01. Joaquin Phoenix (Coringa)
Foi a atuação de 2019, fato. Me deixou sem palavras por diversos momentos e arrepiado pela entrega e transformação do ator. Joaquin Phoenix é um monstro, um camaleão e não resta dúvidas de que ele é um dos maiores atores ainda em atividade. Na pele do Coringa, Phoenix renasce e supera as altíssimas expectativas que existam em cima de sua interpretação. É brilhante sua entrega, em como ele entende o personagem e se permite crescer em cena. Cada nova sequência, um novo choque, um novo impacto. Phoenix deu um show, um show que vamos lembrar daqui há muitos e muitos anos. Foi mágico, foi memorável. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Retrospectiva 2016 - Os Melhores Atores


Continuando com a retrospectiva 2016, escrevo agora sobre as atuações masculinas mais marcantes do ano. Como toda lista, alguns nomes ficaram de fora, mas deixem nos comentários aqueles que sentirem mais falta. Este ano que passou tivemos vários atores que se destacaram, então conseguir fechar o TOP 15 não foi uma tarefa fácil. Tivemos algumas revelações, atores jovens que surgiram e veteranos que provaram, mais uma vez, seus talentos. Espero que gostem dos selecionados!

por Fernando Labanca


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Oscar 2016 - Os Vencedores


Aconteceu neste domingo (28/02), em Los Angeles, a cerimônia do Oscar apresentada pelo comediante Chris Rock. 

O evento não teve grandes momentos e no geral foi bem esquecível, e apesar de aproveitar seu espaço para discutir o #Oscarsowhite, a apresentação de Chris Rock foi fraca, aquele velho humor que ninguém vê graça de sempre. "Spotlight" saiu consagrado pelo prêmio principal e isso foi um choque negativo, mesmo que dentro dos favoritos, é estranho pensar que um filme tão comum venceu no ano em que tivemos exemplos bem melhores. Por outro lado, "Mad Max - Estrada da Fúria" foi quem levou mais prêmios para a casa, vencendo 6 Oscars.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crítica: O Regresso (The Revenant, 2015)

O filme com maior número de indicações ao Oscar deste ano, "O Regresso" é o breve e surpreendente retorno de Alejandro González Iñárritu, em uma obra marcada por sua belíssima filmagem e pela irretocável atuação de Leonardo DiCaprio.

por Fernando Labanca

Digo breve retorno pelo fato de que faz pouco tempo que fomos presenteados com "Birdman", último trabalho do diretor mexicano. É estranho pensar que ele tenha conquistado a proeza de entregar duas obras tão complexas em um período tão curto, aliás, quase nunca um diretor entregou dois filmes favoritos ao Oscar em dois anos seguidos. E em seu retorno, Iñárritu oferece mais um trabalho grandioso, com inúmeras dificuldades e por isso é tão fascinante poder assistir "O Regresso" nos cinemas, seja pelo som, pelos incríveis efeitos visuais e principalmente pela qualidade das imagens, surreais de tão belas. Acredito que desde "A Árvore da Vida" de Terrence Malick não via um filme visualmente tão incrível quanto. Curiosamente, o diretor de fotografia é o mesmo, Emmanuel Lubezki, com quem Alejandro já havia trabalhado em "Birdman". Por coincidência ou não, por inspiração ou não, vemos na tela muitas características de Malick também, principalmente de seu filme "O Novo Mundo", de 2005. Toda sua produção remete à obra, desde as paisagens, os figurinos, à toda a composição deste universo, deste encontro do homem com a natureza, do personagem que se infiltra para viver com os nativos, da paixão que nasce ali. Ele ainda resgata do cineasta norte-americano este estado de contemplação, neste cinema que encontra beleza em tudo aquilo que é natural e nos deixa a vontade, observando e admirando tudo o que nos vem pela frente.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Crítica: O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013)

É de se esperar ver um bom filme de Martin Scorsese. Quando vamos ao cinema ou quando assistimos alguma raridade de sua brilhante filmografia, é difícil sentir decepção, portanto a expectativa em torno do diretor é sempre alta. Me surpreende, porém, depois de tantos anos dirigindo, ele conseguir realizar o que talvez seja um de seus melhores trabalhos, "O Lobo de Wall Street" vai além do que ser apenas mais um bom filme de Scorsese, ele já nasce como um clássico. É Excepcional. É uma obra-prima.

por Fernando Labanca

O longa conta o nascimento do grande império de Jordan Belfort, aquele que acredita que o dinheiro é a solução para todos os problemas. Jovem, ele já sonhava em estar em Wall Street e desfrutar do lucro ganho pelos corretores de ações, é onde conhece seu mentor, Mark Hanna (Matthew McConaughey), é também onde conhece a decadência, perdendo seu emprego assim que uma crise derruba Wall Street. Ainda acreditando em seu sucesso e com a lábia de um excelente vendedor, Jordan descobre as conhecidas penny stocks, ações de pequenas empresas que não valem nada, mas que aquele que vende ganha uma comissão cheia, uma atitude ilegal mas que o faz fundar, ao lado do amigo Donnie Azoff (Jonah Hill) e outros velhos parceiros, a Stratton Oakmont, uma corretora de ações que "vende lixo para lixeiros". Ganha fama nos jornais, conhecido como "O Lobo de Wall Street" e ganha também mais dinheiro do que precisa. E para passar as horas de sua vida fácil, Jordan se alimenta de seus vícios, das drogas e do sexo, da loucura da sua rotina, do amor pelo dinheiro, transforma sua vida e seu ambiente de trabalho em um verdadeiro circo, onde não existe certo ou errado. Vivendo uma vida sem limites, desfrutando de forma insana tudo o que o dinheiro pode pagar.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Globo de Ouro 2014 - Os Vencedores



por Fernando Labanca

O Globo de Ouro anunciou seus vencedores neste último domingo (12/01), em Los Angeles, com a apresentação das comediantes Tina Fey e Amy Poehler, que também apresentaram ano passado e continuaram dando um belo show, são naturalmente engraçadas e fizeram boas piadas durante a noite. Segundo elas, é isso o que Hollywood faz: "se uma coisa dá certo, eles continuam fazendo até provocar ódio nas pessoas!". No geral, não teve nenhum grande momento, mas surpreendeu em algumas categorias, principalmente a de atores. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Crítica: O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013)

Baseado na obra de F.Scott Fitzgerald, "O Grande Gatsby" é a quarta versão para os cinemas, dessa vez, dirigida pelo australiano Baz Luhrmann, de "Romeu + Julieta" e "Moulin Rouge", conhecido por seus exageros e suas formas caricatas. Aqui, ele insere todas essas suas peculiares características e nos entrega muito mais do que um remake ou uma adaptação, nos entrega um filme único, cheio de personalidade e com seu visual deslumbrante, marca, um dos filmes mais belos que passou pelo cinema este ano.

por Fernando Labanca

Nick Carraway (Tobey Maguire) é um aspirante escritor que vai parar em Nova York em busca de seu próprio sonho americano. É um período de grande prosperidade no país, onde as festas eram maiores e a moralidade já não era mais tão questionada, é assim que ele conhece Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), seu vizinho que mora em uma belíssima mansão, palco das melhores festas, onde a cidade se encontra sem nem ao menos saber quem é o dono de tudo aquilo. Certo dia, Nick recebe um convite de Gatsby, e como já sentia um certo fascínio por ele, nasce assim uma grande amizade, é neste momento em que ele enfim compreende seus motivos, onde na verdade, o que este misterioso homem desejava era se encontrar com uma mulher, sua verdadeira paixão, Daisy Buchanan (Carey Mulligan), que por sua vez, era prima de Nick e casada com o milionário Tom (Joel Edgerton). E vivendo a margem destes acontecimentos, Nick Carraway vai tentar unir este casal, mesmo sabendo das consequências que aquilo traria para a vida de todos os envolvidos.


Quando Fitzgerald escreveu "O Grande Gatsby" não recebeu seu devido valor na época, foi depois de muitos anos que os norte-americanos começaram a vê-lo com um marco em sua literatura, e este reconhecimento o levou aos cinemas, sendo que até então a obra mais marcante havia sido o de 1964, dirigido por Jack Clayton e protagonizado por Robert Redford. É até compreensível o fascínio da sétima arte por esta obra, o mistério sobre quem é exatamente Jay Gatsby, o retrato amargo do sonho americano e um romance quase que shakespeariano, com direito a um final trágico e marcante. E longe daquele tradicional comportamento em transpor histórias de época para as telas, surge um renovado Baz Luhrmann, totalmente dedicado em fazer o que poucos filmes conseguiram este ano, ou o que quase nenhum de época teve a ousadia em fazer. Por isso, é difícil vê-lo como mais um sobre Gatsby ou como um remake, é um trabalho totalmente original, que foge e muito do que já conhecemos, Luhrmann inova, trás um visual deslumbrante em prol de um filme difícil de ser esquecido. Há, porém, muito de "Moulin Rouge" aqui, seja do protagonista derrotado ao inicio prestes a contar uma história trágica, seja dos movimentos das câmeras ou das referências estéticas das festas mostradas. Existe um exagero constante, quase que caricato, muitos apontarão como algo negativo, mas vejo de outra forma, vejo como uma obra de um diretor que foge a todo instante em nos trazer algo ordinário, "O Grande Gatsby" poderia, com sua história, ser só mais um filme de época, no entanto, ele é grandioso, ousado, diferente de tudo o que vi nos cinemas este ano.

"Você vai ficar aí só olhando, ou vai participar?", pergunta Tom Buchanan a Nick Carraway na primeira metade do filme. É assim que vive este personagem, o coadjuvante de sua própria jornada, que se vê em um constante dilema, sempre se sentindo dentro e fora dos acontecimentos de sua vida. É Nick, o único que sabe de toda a verdade por trás de todas as especulações, por trás de quem é Gatsby e de seu amor por Daisy, por trás das traições de Tom. É interessante a relação que ele tem com os demais personagens, sempre a margem de tudo ainda que seja o elo entre todos, a história precisava dele para prosseguir, mesmo ele estando por fora. 

E assim como Nick, nós, como público, vivenciamos tudo aquilo, sabemos o que há por trás de cada sentimento não revelado e sofremos por isso, entretanto, também desfrutamos de cada cena e graças a Baz Luhrmann que fez cada sequência parecer um sonho, as festas que são um deleite para os olhos e ouvidos e cada momento do filme que é tão belo que foi difícil se desapegar, acreditar que uma hora iria terminar, é tudo bom demais só para ver, dá mesmo é vontade de querer participar, vivenciar toda aquela beleza, beleza que só o cinema pode nos presentear, e que bom que Luhrmann compreendeu isso e explorou o máximo essa função da sétima arte. Os figurinos foram os grandes destaques, belíssimos e que dão a sensação de que foram projetados para cada ator, pois ficam perfeitos em cada um deles, os cenários, as locações, tudo bem pensado, bem colocado em cada cena, construindo um visual tão rico em detalhes, demonstrando um cuidado quase que perfeccionista do diretor e de toda a equipe. A trilha sonora também chama a atenção, por ser moderna, que espanta de início, mas logo demonstra ser mais uma ousadia do filme, composta por Jay.Z, a trilha ainda trás nomes como Florence + The Machine, Lana Del Rey, Jack White e Beyoncé.  

Por trás deste visual, há um elenco interessante, que fazem desta impressionante experiência valer muito mais a pena. Leonardo DiCaprio, por mais difícil que seja acreditar, surpreende, há muito tempo não o via interpretando este tipo de personagem, romântico, que faz de tudo por aquela que ama, é muito interessante o que ele faz de Gatsby, suas expressões, seus olhares, um jeito único, de maneira muito distinta de todas as suas outras atuações. Assim também é com a belíssima Carey Mulligan, que encanta cada cena, com sua voz firme e doce, que vai muito além de "só um rostinho bonito", ela está simplesmente impecável com Daisy Buchanan. Tobey Maguire não tem muito espaço para brilhar como o restante do elenco, mas não faz feio em cena, faz o que precisava ser feito e faz bem. Joel Edgerton tem a missão de trazer a tensão para a trama, e consegue e com muito êxito e chama a atenção com sua forte interpretação. Outra que se destaca é Isla Fisher, que surge em cena irreconhecível como Myrtle, e mesmo com uma participação menor, é simplesmente inacreditável seu talento e sua capacidade em se transformar em cada filme que faz.

"O Grande Gatsby" é um filme de época como nunca se viu igual, pretensioso, grandioso, inovador. E para minha felicidade, toda a qualidade técnica da obra não ofusca a beleza de sua história, um tipo de romance quase que esquecido, aquele puro, ingênuo, com diálogos bem pensados, que emocionam, que encantam pela simplicidade. E ao seu término, todo aquele furacão de sentimentos que a obra expõe se transforma em silêncio, pois apesar de toda sua energia e agilidade, trata-se uma trama trágica, triste, melancólica, o amargo sonho americano, onde toda aquelas cores e festividade nada mais eram que uma ironia a decadência, sobre o quão vazias eram aquelas pessoas, em busca de um sonho tão frágil que o dinheiro não conseguiu construir. Enfim, belo em todos os sentidos, em seu visual e em suas ideias, "O Grande Gatsby" é mais um marco na carreira de Luhrmann. Inovador, fascinante, encantador e emocionante. Recomendo. 

NOTA: 9






segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Crítica: Django Livre (Django Unchained, 2012)

Já indicado ao Oscar 2013 de Melhor Filme, "Django Livre" marca o retorno de um dos diretores mais cultuados da atualidade, Quentin Tarantino. A cada cena, a cada diálogo, compreendemos o porquê dele ser visto como gênio, é a prova de que sua consagração não veio a toa. Poderia dizer que aqui ele realiza sua obra-prima, mas não farei, é como se diminuísse o valor de seus filmes anteriores, prefiro dizer que ele realiza mais um outro grande filme, tão bom quanto os outros, o que já é notável. Tarantino continua o mesmo, depois de tantos anos, ele ainda consegue construir obras magníficas, com muito estilo, sangue, humor e inteligência.

por Fernando Labanca

Dr. King Schultz (Christoph Waltz) é um caçador de recompensas, indo atrás dos criminosos mais perigosos dos Estados Unidos, porém para encontrar três irmãos assassinos ele precisa da ajuda de um escravo, um escravo bem específico, Django (Jamie Foxx), com "D" mudo, pois somente ele poderia reconhecer aqueles que o torturaram no passado. Prometendo-lhe a liberdade, os dois passam a trabalhar juntos quando Schultz reconhece o talento do ex-escravo em ser caçador, fazendo Django ser aquele odiado pelos negros, logo que era o único com roupa decente em cima de um cavalo e com uma arma nas mãos, capaz de se vingar de uma época que ele pretende não esquecer. E desta improvável união, ambos começam a fazer justiça e ganhar inúmeros inimigos, no entanto, Django ter algo a mais em mente, resgatar sua amada, Broonhilde (Kerry Washington) e para isso, ele e Dr.King mudam de identidade e vão parar em Mississipi, na mansão de Calvin Candy (Leonardo DiCaprio), um lugar onde escravos locais são treinados para lutar até morte e é lá onde está sua mulher e para tê-la de volta terão que manter a postura e conquistar este poderoso homem, o que eles não esperavam é que teriam que passar pela aprovação de outro ser, o fiel escravo de Calvin, Stephen (Samuel L.Jackson) que não confia em outro negro a não ser ele mesmo.


Confesso que antes de ver "Django Livre" o via como uma espécie de "Bastardos Inglórios" versão com escravos, talvez por ter Christoph Waltz no elenco e ter o mesmo clima de vingança e violência e o fato de eu simplesmente não ter gostado de "Bastardos" me fez ter um grande preconceito com este novo projeto de Tarantino, mesmo sendo fã admitido de "Kill Bill" e "Pulp Fiction". Acontece que queimei minha língua, já nas primeiras cenas deste novo filme, primeiro por Christoph Waltz, que me convenceu de imediato, não era mais o Coronel Hans Landa, e já provou ali, estava diante de algo totalmente novo. Definitivamente, superior ao seu longa anterior, com personagens mais convincentes, uma trama mais bem costurada e um roteiro muito mais dinâmico. E vemos mais uma vez, Tarantino se superando como roteirista e diretor, a verdade é uma só, estamos diante de mais um épico do diretor, mais um daqueles trabalhos que citaremos com um dos melhores que ele já realizou. É tudo muito incrível o que acontece ali na tela, o roteiro que já nos fisga na primeira cena e não nos deixa escapar até seu glorioso final. Sempre repleto de referências, desta vez, de western spaghetti se unindo a um tema bastante improvável, a escravidão no sul dos Estados Unidos na virada do século XVIII para o XIX. É até irônico do diretor se usar das referências de faroeste para retratar a história de dor e sofrimento da escravidão, sabendo que este tipo de "entretenimento" seria inaceitável para a época. São dois lados totalmente opostos onde Tarantino consegue domar com maestria. Sabe também dosar o drama daquela época e das pessoas envolvidas, sem claro, deixar seu humor de lado, que surge em momentos imprevisíveis, mas as piadas funcionam a todo tempo, e as encontramos em diálogos extremamente bem elaborados, rápidos e inteligentes, dignos de Tarantino.

O diretor sempre conseguiu, ao longo de sua carreira, reunir um elenco admirável e aqui não é diferente. Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio e Samuel L.Jackson dão simplesmente um show de interpretação, os quatro já merecem um Oscar, mesmo que somente os coadjuvantes Waltz e DiCaprio foram lembrados na premiação, e agora, depois de ter visto, aposto minhas fichas em Waltz. Jamie Foxx consegue no seu olhar e em suas expressões passar todo o ódio de seu personagem, parece haver toda uma trajetória de sofrimento e mesmo sem nunca sabermos o que ele passou, sabemos que ele tem motivos para se vingar, consegue ainda, passar um certo tom de inocência de Django, visto que ele nunca se comporta como deveria. Christoph Waltz, por sua vez, sabe o que faz em cena, sabe domar todo seus complicados e longos diálogos, trazendo verdade e uma divertida ironia a todos eles. Leonardo DiCaprio faz um vilão único, memorável, com trejeitos e ações imprevisíveis, e seu sarcasmo e carisma nos faz temer ainda mais suas atitudes. No entanto, quem mais me surpreendeu foi Samuel L.Jackson, que surge quase que irreconhecível, seja por seu andar lento, sua voz alterada, o ator se transforma completamente e o que parecia impossível depois de tantos anos de carreira, este é um de seus melhores momentos. Ainda vemos a bela Kerry Washington, que não desaponta, e participações como Jonah Hill, sempre ótimo e do veterano Franco Nero, conhecido no cinema por seus westerns spaghetti e também por já ter interpretado um Django em sua carreira, num filme italiano de 1966, personagem que inspirou Tarantino para este filme.

Mais do que um cinema de referências, Tarantino cria seu próprio estilo, sua própria maneira de contar uma história. Sabemos quando estamos diante de um filme dele, e apesar de seu maneirismo, não se limita como diretor, ainda é capaz de surpreender. "Django Livre" é uma obra fantástica, poderia escrever um único texto falando sobre os bons momentos do filme, porque há inúmeras sequências memoráveis, seja o primeiro encontro de Schultz com Django, seja a hilária armadilha dos mascarados ou a sangrenta batalha final, das cenas mais dramáticas e impactantes, do humor negro sarcástico, da bela construção de seus personagens, das cenas violentas e exageradas que não podem faltar quando se trata de Tarantino, da incrível fotografia, locações e figurinos, não deixando, é claro, de citar a maravilhosa e ousada trilha sonora. Enfim, é um conjunto de elementos que fazem de "Django Livre" um marco na carreira deste brilhante diretor. Esta é mais uma obra obrigatória de Quantin Tarantino, seja para quem admira seu modo único de fazer filme, seja para quem simplesmente procura uma obra de qualidade. Recomendo.

NOTA: 9,5




domingo, 8 de agosto de 2010

Crítica: A Origem (Inception, 2010)

Nos últimos anos, o cinema tem nos proporcionado obras interessantes mas que, infelizmente, originalidade não é um termo que se pode taxar qualquer título, até porque, muitos desses trabalhos são refilmagens ou adaptação de livros e HQ. Entretanto, ás vezes, surgem raridades, Charlie Kaufman com suas inusitadas histórias como "Quero Ser John Malkovich" e "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", ou até mesmo a obra prima dos irmãos Wachowski "Matrix", são um desses. E 2010 entra para história como o ano em que uma das obras mais inteligentes e originais dos últimos tempos se lançou, o gênio da vez é Christopher Nolan e seu feito, 'A Origem".

por Fernando Labanca

Há algum tempo venho me questionando sobre isso, como o cinema deixou de ser original, são pouquíssimos filmes que não se basearam em outra obra. É extremamente gratificante ir ao cinema e se deparar com um filme que vem com suas próprias idéias, lançam maneiras diferentes de alcançar determinado resultado. "A Origem" é surpreendentemente inteligente, nas primeiras falas percebemos que aquilo que estamos prestes a ver, irá ser inovador, diferente de tudo que já havíamos visto.

Na trama, Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt) são mestres na arte de invadir a mente dos outros, são contratados por empresas milionárias para invadir o sonho de seus adversários para conseguirem determinados segredos. Entretanto, quando entram nos sonhos de um misterioso empresário, Saito (Ken Watanabe), descobrem que caíram numa grande armadilha, e Cobb decide abandonar tudo, fugir, pois não podem falhar, porém, o empresário dá sua última cartada, pede aos invasores do inconsciente que que eles façam um último trabalho, entrar no sonho de Fischer (Cillian Murphy), o filho de seu concorrente, que está prestes a herdar uma grande empresa. Saito deseja que eles façam algo novo, ao invés de retirar uma idéia do sonho, eles precisam implantar uma idéia, a idéia de dividir seu patrimônio. Em troca disso, o influenciado empresário consegue para Cobb uma viagem de volta a sua casa para se reencontrar com suas filhas, logo que ele havia sido acusado de matar sua própria esposa, Mal (Marion Cotillard) e devido a isso, nunca mais retornou.

Para isso, Cobb contrata a jovem arquiteta Ariadne (Ellen Page), uma aluna dedicada e extremamente inteligente, sua função passa a ser construir em seus sonhos, todas as estruturas de um cenário imaginário para que os sonhos do invasor pareçam reais. Para o grupo, eles ainda contam com a ajuda de Eames (Tom Hardy), que tem o dom de se transformar em outra pessoa nos sonhos. Entretanto, nada será tão fácil, para a inserção de uma nova idéia, de uma idéia tão complexa, eles precisam entrar profundamente na mente de Fischer, descobrir a origem do relacionamento com seu pai para que eles possam implantar a semente de uma nova idéia e que ela cresça e mude toda sua vida, e para isso, eles entram no nível 3, ou seja, invadir o sonho do sonho do sonho do herdeiro.

Mas por trás de toda essa armação que aparentemente é perfeita, Cobb esconde grandes segredos, como o fato de não poder mais desenvolver as estruturas do sonho, logo que Mal, sua esposa, ainda viva em sua mente, invade sua imaginação e sempre estraga seus planos. Ele ainda esconde uma triste e complexa relação que ele teve com ela e que mudou todo o seu modo de ser e agir e que na verdade, implantar uma idéia é muito mais perigoso do que se imagina e só ele sabe da verdade, a verdade que todos correm perigo e um simples ato no sonho, pode definir suas vidas para sempre.


Uma viagem. Christopher Nolan viajou, no bom sentido, totalmente para escrever um dos melhores roteiros do já vi. Constrói um mundo novo, com novas possibilidades, ruas que se inclinam e viram céus, acaba com a gravidade onde seus personagens andam nas paredes e lutam, sensacional. Os sonhos já foram alvo de muitos filmes, mas não da forma brilhante como Nolan aqui explora. Há cenas memoráveis, e ao meu ver, antológicas, como a incrível cena de Joseph Gordon-Levitt, onde ele luta pelas paredes e tetos, de deixar qualquer um de boca aberta.

Em "A Origem", Nolan, assim como em "Matrix" questiona a realidade, será mesmo que tudo o que vemos e sentimos é realmente o que devemos chamar de real? A comparação dos dois filmes é inevitável, seres que enquanto dormem entram numa realidade paralela, é perigoso dizer, mas acredito que o trabalho de Christopher tenha sido tão original quanto "Matrix", entretanto, no cinema acaba tendo um acabamento até melhor que a obra dos irmãos Wachowski, logo que aqui, a história tem um início, meio e fim, todas as informações do quebra-cabeça que se forma são entregues, de maneira nada simples e fácil, mas são entregues e o filme termina e deixa uma única ponta solta, mas que nada estraga e sim complementa, pois terminamos e ficamos refletindo e isso é fantástico. Já em Matrix, milhões de perguntas não são respondidas no primeiro filme, e o que era para ser brilhante, deixa a desejar nesse quesito logo que os irmãos deixaram para responder tais questões nas sequências, feitas apenas por dinheiro. Portanto, espero que este filme não tenha uma sequência, Stanley Kubrick não explicou o final enigmático de "2001: Uma Odisséia do Espaço" e nem precisou, hoje vivemos bem com a dúvida do final e mesmo assim o filme virou uma obra-prima. E "A Origem" não precisa de mais explicações, e acredito que a obra sobreviverá no tempo e também será um marco.

Leonardo DiCaprio, fantástico, pena que exerceu trabalho semelhante no ínicio do ano com o também ótimo, "Ilha do Medo" de Martin Scorsese. Em "A Origem" ele está incrível, a luta para alcançar seus objetivos é hipnotizante, constrói um ser misterioso e cheio de mágoa mas que tenta se segurar para fazer um trabalho digno. O elenco coadjuvante é de peso, Marion Cotillard, sensacional mais uma vez, diferente de muitas atrizes, depois que ganhou o Oscar, cresceu e só fez trabalhos interessantes desde então e este, mais uma vez, a atriz surpreende, construindo uma vilã totalmente fora do convencional, graçás também ao roteiro, que fez uma das personagens mais interessantes do ano e em sua pele, Mal ganha vida, e suas expressões dizem muito. Ainda temos os ótimos Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Cillian Murphy e Michael Caine.

A trilha sonora ajudou e muito para "A Origem" ser literalmente um estouro. Hans Zimmer havia trabalhado com Nolan em "Cavaleiro das Trevas" e fez um trabalho excepcional, e repete seu talento neste filme, dando mais força ao longa, se transformando em algo hipnotizante, de arrepiar qualquer um em determinadas cenas. A fotografia também está ótima, assim como os interessantes efeitos especias. Mas digo que é difícil prestar atenção nas partes técnicas quando o roteiro não permite você se desligar da trama por um segundo apenas, qualquer frase perdida pode ser fatal e as peças do grande quebra-cabeça pode se perder.

"A Origem" repete o feito de filmes como, além de "Matrix", "Clube da Luta" e até mesmo o recente "Avatar", e os anteriores de Nolan como "O Grande Truque" e "Batman: O Cavaleiro das Treveas" onde os gênios por trás desses projetos constroem tramas para pessoas inteligentes, não nos subestimam, conseguem quebrar a tradição de que filmes "cabeças" também podem agradar o público, tranformam idéias extraordinárias em "buckbusters", agradando tanto os intelectuais quando a grande massa. Um filme fabuloso, genial, dinâmico, e até mesmo, emocionante, e claro, original, e este sim, é seu maior triunfo.

NOTA: Precisa escrever? 10

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Crítica: Ilha do Medo (Shutter Island, 2010)


Voltando um pouco as raízes, Martin Scorsese retorna ao suspense, provando que ainda há a possibilidade de se fazer bons filmes do gênero, logo que hoje, isso é uma raridade!

por Fernando Labanca

Depois dos bem sucedidos e também elogiados O Aviador e Os Infiltrados, Scorsese resolve mudar, alternando seu estilo que foi usado há alguns anos atrás em filmes como Cabo do Medo de 1991. E o gênero suspense agradece a escolha do diretor, que revitaliza o que está quase perdido. Logo quando o filme começa percebemos que não é de um diretor qualquer, mas sim, de um diretor experiente que sabe o que faz. Entretanto, mesmo mudando um pouco de estilo, ele ainda tem um "ás" na mão, um elemento que esteve presente em seus trabalhos anteriores, Leonardo DiCaprio.

No filme, dois detetives, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) se conhecem no mesmo dia em que estão prestes a desvendar um mistério. Ano de 1954, Shutter Island é um sanatório que abriga os piores tipos de loucos, aqueles que devido a alguma doença mental, mataram pessoas e precisam de um forte tratamento. Porém, misteriosamente, uma das pacientes some, é quando entram em cena os dois detetives. Um lugar sombrio, no meio do Oceano, os dois estão sózinhos, não podem entrar com armas e precisam respeitar as regras do local, logo são apresentados a Dr.John Crawley (Ben Kingsley), um médico que não vê as pessoas abrigadas como loucos e sim como pacientes, pessoas que necessitam de ajuda e não compreende a fuga de Rachel Solano (Emily Mortimer). Os detetives passam a entrevistar os médicos, as enfermeiras e até mesmo os "pacientes" para entender como ela fugiu, logo que se há uma maneira disso acontecer, é um caso de alerta, pois são perigosos, ela por exemplo, matou os dois filhos e o marido e age como se nada tivesse acontecido.

Conforme os dias vão passando, Teddy vai revelando suas verdadeiras intenções, que o caso não passa de um pretexto para ele infiltrar em Shutter Island. Há alguns anos atrás, Teddy perdeu a mulher que amava, Dolores (Michelle Williams), em um incêndio provocado por um homem com problemas mentais e que foi levado para o sanatório, e ele com sede de vingança, decide ir até o local se vingar do homem que lhe tirou os motivos para querer viver. E mais do que isso, Teddy Daniels sabia de algumas hipóteses de que em Shutter Island, os médicos faziam experimentos radicais, usando medicamentos ilegais nos pacientes e ele queria ir atrás de provas para poder fechar os portões do local. Mas nada seria fácil, e os detetives começam a questionar as leis, os métodos, passam a ser perseguidos, e ambos entram num terrível jogo de alucinações, onde nada é exatamente o que parece ser.

Martin Scorsese realiza um belíssmo trabalho, utilizando elementos fantásticos que fazem Ilha do Medo ser um dos melhores filmes de suspense dos últimos anos. A trilha sonora bem colocada nas cenas, hipnotizando o público mesmo quando não acontece nada, os cenários, tudo muito sombrio, o filme tem um clima pesado e interessante para o gênero. Desde O Orfanato ( de Juan Antonio Bayona, 2007) não via um filme de suspense ser tão bem realizado.

O elenco é um dos pontos mais positivos do filme. Leonardo DiCaprio há um bom tempo ele vem acertando no cinema, fazendo não só incríveis filmes, mas também acertando em sua brilhante atuação e em Ilha do Medo não é diferente, sendo essa, uma de suas melhores performances. Mark Ruffalo não alcança o nível que DiCaprio atingiu, mas fez um bom trabalho, como sempre. Ben Kingsley tem uma personagem interessante, fazia tempo que não o via tão bem, uma atuação linar, mas irretocável. Destaque também para as participações femininas, Emily Mortimer está fantástica, melhor do que nunca, assim como Michelle Williams, se despreendendo por total de Dawson's Creek e se tornando uma atriz exemplar. Palmas principalmente para a veterana Patricia Clarkson e para Jackie Earle Haley, ambos participam de apenas uma cena, mas com atuações arrebatadoras, irreconhecíveis, brilhantes.


Entretanto, encontrei um defeito que me incomodou em várias sequências, a edição. Não é possível que não repararam nos erros de sequência antes de finalizarem o filme, chega ao extremo, até eu que não sou muito de reparar nisso fiquei irritado. Sabe aquele tipo de cena, que quando o ator é filmado de frente está em uma posição, mas quando é filmado de costas está em outra, completamente diferente, pois é, isso tem de monte.

Ilha do Medo, tem sim seus defeitos, mas perante a tantos fiascos no gênero suspense, acaba sendo uma raridade. É diferente quando um diretor experiente arrisca em algo que tem tudo a perder, sabe o que faz e tudo é conduzido muito bem. Vemos ainda atores competentes dando tudo de si, o que não vemos muito isso em filmes desse tipo. Não é preciso fantasmas e nem violência gratuita, muito menos coisas nojentas ( o que se tornou hábito em filmes do gênero, para muitos, ver um corpo sendo triturado com muito sangue a mostra é o novo terror). Um filme inteligente, com um roteiro brilhante e cheio de reviravoltas, suspresas boas não faltam em Ilha do Medo, e para fechar com chave de ouro, ainda vemos um final chocante e surpreendente.


NOTA: 8.5


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