segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Crítica: Django Livre (Django Unchained, 2012)

Já indicado ao Oscar 2013 de Melhor Filme, "Django Livre" marca o retorno de um dos diretores mais cultuados da atualidade, Quentin Tarantino. A cada cena, a cada diálogo, compreendemos o porquê dele ser visto como gênio, é a prova de que sua consagração não veio a toa. Poderia dizer que aqui ele realiza sua obra-prima, mas não farei, é como se diminuísse o valor de seus filmes anteriores, prefiro dizer que ele realiza mais um outro grande filme, tão bom quanto os outros, o que já é notável. Tarantino continua o mesmo, depois de tantos anos, ele ainda consegue construir obras magníficas, com muito estilo, sangue, humor e inteligência.

por Fernando Labanca

Dr. King Schultz (Christoph Waltz) é um caçador de recompensas, indo atrás dos criminosos mais perigosos dos Estados Unidos, porém para encontrar três irmãos assassinos ele precisa da ajuda de um escravo, um escravo bem específico, Django (Jamie Foxx), com "D" mudo, pois somente ele poderia reconhecer aqueles que o torturaram no passado. Prometendo-lhe a liberdade, os dois passam a trabalhar juntos quando Schultz reconhece o talento do ex-escravo em ser caçador, fazendo Django ser aquele odiado pelos negros, logo que era o único com roupa decente em cima de um cavalo e com uma arma nas mãos, capaz de se vingar de uma época que ele pretende não esquecer. E desta improvável união, ambos começam a fazer justiça e ganhar inúmeros inimigos, no entanto, Django ter algo a mais em mente, resgatar sua amada, Broonhilde (Kerry Washington) e para isso, ele e Dr.King mudam de identidade e vão parar em Mississipi, na mansão de Calvin Candy (Leonardo DiCaprio), um lugar onde escravos locais são treinados para lutar até morte e é lá onde está sua mulher e para tê-la de volta terão que manter a postura e conquistar este poderoso homem, o que eles não esperavam é que teriam que passar pela aprovação de outro ser, o fiel escravo de Calvin, Stephen (Samuel L.Jackson) que não confia em outro negro a não ser ele mesmo.


Confesso que antes de ver "Django Livre" o via como uma espécie de "Bastardos Inglórios" versão com escravos, talvez por ter Christoph Waltz no elenco e ter o mesmo clima de vingança e violência e o fato de eu simplesmente não ter gostado de "Bastardos" me fez ter um grande preconceito com este novo projeto de Tarantino, mesmo sendo fã admitido de "Kill Bill" e "Pulp Fiction". Acontece que queimei minha língua, já nas primeiras cenas deste novo filme, primeiro por Christoph Waltz, que me convenceu de imediato, não era mais o Coronel Hans Landa, e já provou ali, estava diante de algo totalmente novo. Definitivamente, superior ao seu longa anterior, com personagens mais convincentes, uma trama mais bem costurada e um roteiro muito mais dinâmico. E vemos mais uma vez, Tarantino se superando como roteirista e diretor, a verdade é uma só, estamos diante de mais um épico do diretor, mais um daqueles trabalhos que citaremos com um dos melhores que ele já realizou. É tudo muito incrível o que acontece ali na tela, o roteiro que já nos fisga na primeira cena e não nos deixa escapar até seu glorioso final. Sempre repleto de referências, desta vez, de western spaghetti se unindo a um tema bastante improvável, a escravidão no sul dos Estados Unidos na virada do século XVIII para o XIX. É até irônico do diretor se usar das referências de faroeste para retratar a história de dor e sofrimento da escravidão, sabendo que este tipo de "entretenimento" seria inaceitável para a época. São dois lados totalmente opostos onde Tarantino consegue domar com maestria. Sabe também dosar o drama daquela época e das pessoas envolvidas, sem claro, deixar seu humor de lado, que surge em momentos imprevisíveis, mas as piadas funcionam a todo tempo, e as encontramos em diálogos extremamente bem elaborados, rápidos e inteligentes, dignos de Tarantino.

O diretor sempre conseguiu, ao longo de sua carreira, reunir um elenco admirável e aqui não é diferente. Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio e Samuel L.Jackson dão simplesmente um show de interpretação, os quatro já merecem um Oscar, mesmo que somente os coadjuvantes Waltz e DiCaprio foram lembrados na premiação, e agora, depois de ter visto, aposto minhas fichas em Waltz. Jamie Foxx consegue no seu olhar e em suas expressões passar todo o ódio de seu personagem, parece haver toda uma trajetória de sofrimento e mesmo sem nunca sabermos o que ele passou, sabemos que ele tem motivos para se vingar, consegue ainda, passar um certo tom de inocência de Django, visto que ele nunca se comporta como deveria. Christoph Waltz, por sua vez, sabe o que faz em cena, sabe domar todo seus complicados e longos diálogos, trazendo verdade e uma divertida ironia a todos eles. Leonardo DiCaprio faz um vilão único, memorável, com trejeitos e ações imprevisíveis, e seu sarcasmo e carisma nos faz temer ainda mais suas atitudes. No entanto, quem mais me surpreendeu foi Samuel L.Jackson, que surge quase que irreconhecível, seja por seu andar lento, sua voz alterada, o ator se transforma completamente e o que parecia impossível depois de tantos anos de carreira, este é um de seus melhores momentos. Ainda vemos a bela Kerry Washington, que não desaponta, e participações como Jonah Hill, sempre ótimo e do veterano Franco Nero, conhecido no cinema por seus westerns spaghetti e também por já ter interpretado um Django em sua carreira, num filme italiano de 1966, personagem que inspirou Tarantino para este filme.

Mais do que um cinema de referências, Tarantino cria seu próprio estilo, sua própria maneira de contar uma história. Sabemos quando estamos diante de um filme dele, e apesar de seu maneirismo, não se limita como diretor, ainda é capaz de surpreender. "Django Livre" é uma obra fantástica, poderia escrever um único texto falando sobre os bons momentos do filme, porque há inúmeras sequências memoráveis, seja o primeiro encontro de Schultz com Django, seja a hilária armadilha dos mascarados ou a sangrenta batalha final, das cenas mais dramáticas e impactantes, do humor negro sarcástico, da bela construção de seus personagens, das cenas violentas e exageradas que não podem faltar quando se trata de Tarantino, da incrível fotografia, locações e figurinos, não deixando, é claro, de citar a maravilhosa e ousada trilha sonora. Enfim, é um conjunto de elementos que fazem de "Django Livre" um marco na carreira deste brilhante diretor. Esta é mais uma obra obrigatória de Quantin Tarantino, seja para quem admira seu modo único de fazer filme, seja para quem simplesmente procura uma obra de qualidade. Recomendo.

NOTA: 9,5




5 comentários:

  1. Quando ouvi falar desse filme, fiquei com o pé atrás... Mas, confesso que me surpreendi muito!
    O filme, apesar de ser logo e dar a impressão que vai ser cansativo, acaba prendendo a atenção de uma tal maneira, e faz com que torcemos e vibramos com as conquista da dupla de caçadores de recompensas, e não vemos a hora passar. A postura e a atuação de Django (Jamie Foxx) é única.
    A trilha sonora maravilhosa e cenas emocionantes do começo ao fim. Adorei!

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  2. Fico mto feliz por vc ter visto (finalmente) e gostado de Django Livre, acho q eu não iria sossegar enquanto vc não assistisse a esse filme. Como disse, é uma obra obrigatória de Tarantino.

    Pois é, a composição de Django feita por Jamie Foxx é única msm, um personagem marcante, assim como a de todos os outros atores em cena. Adorei a trilha sonora tbm, já ouvi várias vezes e estou viciado nela.

    Obrigado pelo comentário, Dri!

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  3. Fernando, segue minha crítica para Django para sua apreciação:

    "Quentin Tarantino é dono de uma biografia quase impecável. Excetuando-se ‘Jackie Brown’ de 1997, seus filmes sempre renderam comentários positivos de crítica e público além de razoável recepção nos cinemas. Há três anos Tarantino fez aquela que é considerada sua obra prima. ‘Bastardos Inglórios’ foi unanimidade e se seu novo filme não supera o antecessor tem atributos suficientes para rivalizar com suas melhores produções e nos mostra um Tarantino mais maduro abordando um assunto espinhoso dentro da história americana, a escravidão."
    Crítica completa no link: http://amahet.blogspot.com.br/2013/02/django-livre-django-unchained-2013.html

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  4. Filme surpreendente! Magistral! Atores fantásticos! Tarantino é extraordinário! Adorei o filme!

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    1. Gosto muito do Tarantino e este filme é um dos melhores dele!

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