quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crítica: Amor (Amour, 2012)

O austríaco Michael Haneke é um dos diretores mais consagrados do cinema atual. Realizou obras como "Violência Gratuita" (1997) e "A Professora de Piano" (2001), no entanto somente teve seu trabalho reconhecido em 2005 quando venceu a Palma de Ouro de direção no Festival de Cannes com o filme "Caché". Ainda no Festival, venceu na categoria Melhor Filme em 2009 por "A Fita Branca". Haneke retornou ano passado com sua mais recente obra, "Amor", vencendo como Filme e Diretor em Cannes. Ou seja, um diretor que já levou importantes prêmios por sua prestigiada filmografia e "Amor" não veio para provar mais nada, apenas confirmar o talento deste grande diretor. No entanto, a frieza com que trata suas tramas, sua marca registrada, acaba que afastando uma parcela de seu público. No fim, trata-se de filme forte, mas sem sentimentos.

por Fernando Labanca

Georges e Anne são um casal de idosos que vivem num espaçoso apartamento e apesar de tanto tempo juntos, ainda são apaixonados. Eis que após uma complicada cirurgia, Anne fica com seu lado esquerdo paralisado, é obrigada a andar de cadeira de rodas e aos poucos seu corpo vai se degenerando, é então que surge o momento em que ambos precisam realizar a maior prova de amor de todas, superando seus limites, enfrentando as dificuldades e encarando o triste fim da vida. 


"Amor" tem como seu grande mérito o realismo com que trata sua história, chega a ser chocante a maneira como as cenas são mostradas, mesmo que momentos rotineiros. Vemos a todo o tempo Georges cuidando de Anne, que vai ficando cada vez pior. É triste o que este casal precisa se submeter, uma parte da vida que infelizmente é real e muitas pessoas precisam enfrentar. É interessante como Haneke explora o amor, é um novo ponto de vista, no momento de maior desgraça é quando seus personagens precisam provar a importância de um para o outro, é belo e ao mesmo tempo cruel e trágico, vemos aquele final que o cinema nunca mostra, muito distante do "felizes para sempre", a vida como ela é. O filme acaba chocando justamente pelo tom realista que o diretor nos revela o cotidiano do casal, é muito honesto em cada atitude, em cada fala, é também impactante todo o gradual processo de Anne ao decorrer da trama, tudo isso funciona, claro, devido a excelente atuação dos dois protagonistas, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.

Em certo momento, uma pomba invade o apartamento dos dois, é quando Georges tenta forçá-la a sair pela janela. Já em seu final, mais uma vez, uma pomba invade, no entanto, sua atitude muda, ele a coloca no colo, como se a sufocasse. Pode não haver significado algum nestas sequências, mas vejo como uma transformação do personagem, se no início, ele concordava com os rumos de sua mulher, a deixando viver da maneira como devia, assim como a pomba que ele permite ser livre novamente. Em seu final, Georges tem outra reação, vemos então, o quanto ele foi obrigado a mudar como pessoa, ele decide alterar o rumo daquela pomba, já não mais aceitando sua liberdade, talvez, sendo mais realista e menos frágil com a situação do animal, e não mais passional. Ainda em outro momento, Georges pergunta a Anne qual era sua imagem, e então ela responde: "Você é um monstro, às vezes". Conhecemos ao decorrer da trama, a complexidade deste personagem, onde quando se depara ao seu limite não vê outra saída a não ser liberar este monstro, suas atitudes surpreendem e em nenhum momento o roteiro o julga, jamais poderemos dizer o quão certo ou errado ele estava, apenas aceitamos, por mais difícil que seja.

No entanto, apesar das grandes ideias, a impressão que tive é que Haneke fez questão de não editar seu filme. Tudo ocorre de forma lenta, muitas vezes, cansativa, cenas longas como o almoço do casal, onde o diretor fez questão de mostrar todas as colheradas ou como a cena que citei, onde Georges tenta pegar a pomba, ele consegue depois de diversas, diversas e diversas tentativas e o diretor nos obriga a ver todas elas. Ainda temos que enfrentar longos segundos contemplando a paisagem de um quadro, totalmente desnecessário. Outro ponto que me incomodou foi o eterno looping de acontecimentos, o filme acaba que se resumindo em Georges cuidando de Anne, e ao longo do filme é apenas isso o que vemos. Ainda são inseridos alguns personagens para quebrar a mesmice, como a filha do casal interpretada por Isabelle Huppert, mas nada alteram. O grande problema de "Amor", porém, é acontecer apenas na tela, em nenhum momento Haneke convida seu público, apesar de se tratar de uma trama forte e de grande impacto, a frieza com que guiou as cenas faz destes acontecimentos algo vazio, sem sentimento, não causa empatia em seus personagens, nem mesmo nos momentos mais trágicos.

O filme se salva pela grande atuação dos protagonistas. Jean-Louis Trintignant, que não atuava há nove anos, retorna numa grande interpretação, trás muita verdade para Georges, seus diálogos e seus olhares, é tudo muito incrível. Emmanuelle Riva que está concorrendo ao Oscar por sua atuação, é muito merecedora do prêmio, o que ela realiza em cena é simplesmente impressionante, todas as mudanças de sua personagem, a atriz compreende e nos revela com grande sensibilidade e muita honestidade. Um filme acima da média, que apesar de ter um roteiro arrastado, cansativo por vezes, é muito realista e por isso pode chocar, surpreender até, com seu grandioso final. Sei  que a frieza é uma característica de Michael Haneke e faz parte da proposta do filme, mas assim como os outros trabalhos que vi do diretor, tive a mesma sensação de vazio, por mais impactante que seja suas tramas, parece haver pouco sentimento, por fim, acabei não me emocionando como acreditei que iria, é um bom filme, mas nada que seja memorável.
  
NOTA: 7



Um comentário:

  1. Amou é um grande filme, será memorável porque o diretor conseguiu criar maravilhosamente bem e misturar como nenhum outro conseguiu, a frieza e o amor. Um filme realista que todos devem assistir, Um dia todos acabaram como os protagonistas, e quanto antes você perceber que essa realidade fria, melancólica e forte virá para todos, você começa dar valor a vida, e para de elogiar filmes de comédia, suspense e romance, já que não acrescentam nada a sua vida.

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