Começo aqui os posts especiais com as melhores atuações do ano passado. Sempre gostei de fazer retrospectivas aqui no blog, que vejo como forma de relembrar e também homenagear tudo o que teve de bom (e que algumas vezes até esquecemos). No campo das interpretações femininas, acabei me surpreendendo, logo que muitas performances elogiadíssimas e até premiadas não me tocaram, enquanto que acabei admirando o trabalho de outras atrizes menos prestigiadas neste ano. Foram vários papéis marcantes e histórias de mulheres que valeram a pena serem contadas. Logo que como toda lista, muitos nomes excelentes ficaram de fora e nos comentários fiquem livres para relembrá-los. Lembrando que citei apenas aquelas que apareceram em filmes lançados no Brasil em 2016, independente do lançamento no país de origem.
Arriscaria dizer que "Dois Lados do Amor" é uma das experiências mais inovadoras que o cinema nos trouxe este ano. Não se deixe enganar pelo título nacional, se trata de um projeto único, uma grande ideia, realizada pelo cineasta Ned Benson, e que resultou em um belíssimo filme, ou melhor, em três belíssimos filmes.
por Fernando Labanca
No original. "The Disappearance of Eleanor Rigby" conta a história de um casal em crise. Poderia até ser algo comum, se não fosse pelo fato de terem feito dois filmes para contar a trama. A versão do homem, interpretado por James McAvoy em "The Disappearance of Eleanor Rigby: Him", e a versão da mulher, interpretada por Jessica Chastain em "The Disappearance of Eleanor Rigby: Her". Dois lados da mesma história. As duas obras foram lançadas em 2013 do Festival de Toronto, no entanto, para que seu trabalho conseguisse ser comercializado, Ned Benson, os editou, construindo dessa forma, o "Them", lançado na Mostra Um Certo Olhar de Cannes 2014. É esta versão editada que chegou aos cinemas, intitulada de "Dois Lados do Amor", aqui no Brasil.
O austríaco Michael Haneke é um dos diretores mais consagrados do cinema atual. Realizou obras como "Violência Gratuita" (1997) e "A Professora de Piano" (2001), no entanto somente teve seu trabalho reconhecido em 2005 quando venceu a Palma de Ouro de direção no Festival de Cannes com o filme "Caché". Ainda no Festival, venceu na categoria Melhor Filme em 2009 por "A Fita Branca". Haneke retornou ano passado com sua mais recente obra, "Amor", vencendo como Filme e Diretor em Cannes. Ou seja, um diretor que já levou importantes prêmios por sua prestigiada filmografia e "Amor" não veio para provar mais nada, apenas confirmar o talento deste grande diretor. No entanto, a frieza com que trata suas tramas, sua marca registrada, acaba que afastando uma parcela de seu público. No fim, trata-se de filme forte, mas sem sentimentos.
por Fernando Labanca
Georges e Anne são um casal de idosos que vivem num espaçoso apartamento e apesar de tanto tempo juntos, ainda são apaixonados. Eis que após uma complicada cirurgia, Anne fica com seu lado esquerdo paralisado, é obrigada a andar de cadeira de rodas e aos poucos seu corpo vai se degenerando, é então que surge o momento em que ambos precisam realizar a maior prova de amor de todas, superando seus limites, enfrentando as dificuldades e encarando o triste fim da vida.
"Amor" tem como seu grande mérito o realismo com que trata sua história, chega a ser chocante a maneira como as cenas são mostradas, mesmo que momentos rotineiros. Vemos a todo o tempo Georges cuidando de Anne, que vai ficando cada vez pior. É triste o que este casal precisa se submeter, uma parte da vida que infelizmente é real e muitas pessoas precisam enfrentar. É interessante como Haneke explora o amor, é um novo ponto de vista, no momento de maior desgraça é quando seus personagens precisam provar a importância de um para o outro, é belo e ao mesmo tempo cruel e trágico, vemos aquele final que o cinema nunca mostra, muito distante do "felizes para sempre", a vida como ela é. O filme acaba chocando justamente pelo tom realista que o diretor nos revela o cotidiano do casal, é muito honesto em cada atitude, em cada fala, é também impactante todo o gradual processo de Anne ao decorrer da trama, tudo isso funciona, claro, devido a excelente atuação dos dois protagonistas, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.
Em certo momento, uma pomba invade o apartamento dos dois, é quando Georges tenta forçá-la a sair pela janela. Já em seu final, mais uma vez, uma pomba invade, no entanto, sua atitude muda, ele a coloca no colo, como se a sufocasse. Pode não haver significado algum nestas sequências, mas vejo como uma transformação do personagem, se no início, ele concordava com os rumos de sua mulher, a deixando viver da maneira como devia, assim como a pomba que ele permite ser livre novamente. Em seu final, Georges tem outra reação, vemos então, o quanto ele foi obrigado a mudar como pessoa, ele decide alterar o rumo daquela pomba, já não mais aceitando sua liberdade, talvez, sendo mais realista e menos frágil com a situação do animal, e não mais passional. Ainda em outro momento, Georges pergunta a Anne qual era sua imagem, e então ela responde: "Você é um monstro, às vezes". Conhecemos ao decorrer da trama, a complexidade deste personagem, onde quando se depara ao seu limite não vê outra saída a não ser liberar este monstro, suas atitudes surpreendem e em nenhum momento o roteiro o julga, jamais poderemos dizer o quão certo ou errado ele estava, apenas aceitamos, por mais difícil que seja.
No entanto, apesar das grandes ideias, a impressão que tive é que Haneke fez questão de não editar seu filme. Tudo ocorre de forma lenta, muitas vezes, cansativa, cenas longas como o almoço do casal, onde o diretor fez questão de mostrar todas as colheradas ou como a cena que citei, onde Georges tenta pegar a pomba, ele consegue depois de diversas, diversas e diversas tentativas e o diretor nos obriga a ver todas elas. Ainda temos que enfrentar longos segundos contemplando a paisagem de um quadro, totalmente desnecessário. Outro ponto que me incomodou foi o eterno looping de acontecimentos, o filme acaba que se resumindo em Georges cuidando de Anne, e ao longo do filme é apenas isso o que vemos. Ainda são inseridos alguns personagens para quebrar a mesmice, como a filha do casal interpretada por Isabelle Huppert, mas nada alteram. O grande problema de "Amor", porém, é acontecer apenas na tela, em nenhum momento Haneke convida seu público, apesar de se tratar de uma trama forte e de grande impacto, a frieza com que guiou as cenas faz destes acontecimentos algo vazio, sem sentimento, não causa empatia em seus personagens, nem mesmo nos momentos mais trágicos.
O filme se salva pela grande atuação dos protagonistas. Jean-Louis Trintignant, que não atuava há nove anos, retorna numa grande interpretação, trás muita verdade para Georges, seus diálogos e seus olhares, é tudo muito incrível. Emmanuelle Riva que está concorrendo ao Oscar por sua atuação, é muito merecedora do prêmio, o que ela realiza em cena é simplesmente impressionante, todas as mudanças de sua personagem, a atriz compreende e nos revela com grande sensibilidade e muita honestidade. Um filme acima da média, que apesar de ter um roteiro arrastado, cansativo por vezes, é muito realista e por isso pode chocar, surpreender até, com seu grandioso final. Sei que a frieza é uma característica de Michael Haneke e faz parte da proposta do filme, mas assim como os outros trabalhos que vi do diretor, tive a mesma sensação de vazio, por mais impactante que seja suas tramas, parece haver pouco sentimento, por fim, acabei não me emocionando como acreditei que iria, é um bom filme, mas nada que seja memorável.