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sábado, 3 de novembro de 2012

Crítica: Ruby Sparks - A Namorada Perfeita (Ruby Sparks, 2012)


Para aqueles que assim como eu sempre se perguntaram por onde andavam o casal, Janathan Dayton e Valerie Faris, responsáveis por "Pequena Miss Sunshine", filme lançado em 2007, eis aqui uma grata surpresa, o mais novo projeto, distribuído em pequeno circuito, pequeno demais para uma comédia romântica..."Ruby Sparks". A história de um autor que se apaixona por sua cria, tão original quanto divertido, tão doce quanto sombrio.

por Fernando Labanca

Calvin (Paul Dano) é um jovem autor de livros, no qual tem grande reconhecimento por suas obras mas que anda com um certo bloqueio criativo e assim não mais consegue desenvolver uma história. Eis que decide por no papel através de sua antiga máquina de escrever aquilo que estranhamente invadia seus sonhos, uma linda garota ruiva chamada Ruby Sparks, começa então a criar uma trama para ela, o que ele não esperava é que certo dia, Ruby aparece em seu apartamento, como se os dois já tivessem um histórico juntos. E como uma extensão de seus sonhos, Calvin passa a desfrutar desta incrível relação, sua personagem ganha vida e para sua surpresa interage com seu mundo, provando ser real. O problema começa quando Calvin ciente de que pode controlá-la, passa a desconstruir Ruby, criando a imagem de uma mulher perfeita, sem se importar com as consequências dessas alterações.


Chegou tímido nos cinemas, mas é bem provável que aconteça o mesmo que aconteceu com "Pequena Miss Sunshine", ganhou o público pelo boca-a-boca, espero ouvir muito a respeito deste filme que de fato merece sucesso, merece ser reconhecido da mesma forma que a primeira obra do casal de diretores foi. Em certo momento, por pura ironia do roteiro, um personagem discute sobre bandas de rock alternativo, que após conquistarem a crítica pelo excelente primeiro trabalho são assombrados logo no segundo álbum, onde inúmeras apostas são feitas esperando que a excelência se repita. Este é exatamente o caso de Jonathan e Valerie, não há como não se esperar muita coisa do segundo trabalho, ainda mais quando se faz tantos anos que sumiram. Para meu grande alívio, "Ruby Sparks" superou todas minhas expectativas, é bem complicado compará-lo ao "Miss Sunshine", são obras bem diferentes, com propostas diferentes. Este segundo longa, porém, agrada pelos mesmos motivos, pela simplicidade, pela delicadeza e principalmente pela originalidade. A comédia romântica é aquele tipo de filme que nem sempre acerta, devido ao grande número de tramas com digamos, o mesmo começo, meio e fim, eis que de tempos em tempos somos prestigiados com obras como "Ruby Sparks", que surgem para revitalizar o gênero, dar novo fôlego, aparece com ideias totalmente novas, que envolvem do começo ao fim, que surpreendem ao fazer o público questionar se o casal vai ficar junto no final ou não, logo que o bom roteiro oferece um leque de possibilidades, nos faz pensar, nos faz torcer, como pouquíssimos filmes do gênero conseguiram.

"Ruby Sparks", escrito pela jovem Zoe Kazan, que também atua no filme, é uma mistura deliciosa de realidade e fantasia, o romance de um autor e sua cria. No entanto, diferente de obras com a mesma intenção, a fantasia aqui vai além, justamente quando o roteiro passa a nos confundir, vai além de nos fazer duvidar da sanidade de seu protagonista, Ruby é real, as pessoas ao redor de Calvin a veem, a loucura não está na mente dele, nos faz questionar até que ponto a realidade deixou de existir, se tudo aquilo era um sonho ou se o sonho virou literalmente real. O entretenimento é garantido, a brincadeira funciona e nos faz embarcar fácil nesta original história de amor. A grande ideia se torna maior ainda quando há muito o que se falar dela, muito o que se pensar. "Ruby" é sobre o quanto queremos controlar as pessoas que amamos, o quanto é difícil aceitá-las, como se o amor nunca fosse suficiente, chega a ser genial a maneira com que o roteiro trabalha com isso, onde Calvin passa a manipular as escolhas e atitudes de sua namorada, a moldando aos seus padrões, construindo aquilo que ele acreditava ser o melhor para ele, é hilário ao mesmo tempo assustador ver Ruby se tornar a carente depressiva ou a felicidade em pessoa. O filme ganha uma complexidade maior ao estudar a estranha mente deste protagonista, mais do que querer a namorada perfeita, Calvin almejava o sucesso, mais do que alguém para amá-lo, ele queria alguém que beijasse seus pés, que dissesse e provasse que ele era o melhor, que fosse submissa a ele. Indo além que qualquer comédia romântica recente, este filme ganha proporções inimagináveis devido ao seu brilhante roteiro, que sai do óbvio, do esperado, que diverte, que faz pensar e que acima de tudo, emociona.

Nada seria deste projeto, porém, sem a presença de Paul Dano e Zoe Kazan. É belo a química dos dois, a naturalidade com que dialogam, seus olhares, seus sorrisos, há tanta verdade em cada sentimento que transmitem. Paul Dano consegue com perfeição passar a estranheza de Calvin, sua timidez, seu isolamento, seus transtornos, sua profundidade, sua paixão por Ruby, sua insatisfação, uma grande atuação, um incrível ator de comédia, um excelente ator dramático. E se em "Pequena Miss Sunshine", Dayton e Faris revelaram ao cinema Abigail Breslin, desta vez, trouxeram para a tela mais um grande talento, Zoe Kazan, que surpreende por seu roteiro, e que surpreende ainda mais por sua atuação, fazer Ruby, definitivamente não era uma tarefa muito fácil, há inúmeras oscilações e Kazan trabalha perfeitamente cada uma delas, apesar de jovem, tem um talento indiscutível, além de ser extremamente carismática, parece trazer brilho a cada cena. Ainda vemos boas participações como a louca família de Calvin, interpretada por Chris Messina, Antonio Banderas e Annette Bening.

Uma obra rara, um cinema que pouco se vê ainda mais se tratando de comédia romântica. Jonathan Dayton e Valerie Faris fizeram bonito em 2007 e agora, mais uma vez, marcam seus nomes em 2012, uma das maiores surpresas deste ano. Como diretores realizam um ótimo trabalho, há belas sequências, principalmente as envolvendo o casal principal, captam o melhor dos atores, e para finalizar nos entregam uma grandiosa cena, grande demais para o gênero, é neste ponto que se encaixa o doce e sombrio que citei no início, há uma profundidade assustadora, é neste momento que enxergamos a complexidade de tudo aquilo, numa intensidade bem teatral, diria que foi uma das sequências mais conturbadas no ano, simplesmente por em nenhum momento esperarmos por ela, ela chega de repente e faz o coração pulsar aceleradamente. É belo, é mágico, tudo o que o cinema tem de melhor é resgatado nesta brilhante obra e para aqueles, assim como eu, que amam também a escrita, é um prato cheio. Não só recomendo para quem admira comédias românticas, recomendo também para aqueles que admiram um cinema de qualidade. Romântico, engraçado, original, inteligente e emocionante. Não há como ver e não gostar, para se ter na prateleira e ver milhões de vezes.

NOTA: 9,5



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Crítica: A Pele Que Habito (La Piel Que Habito)

No início do ano, quando começaram a disponibilizar notícias sobre o novo e tão esperado projeto de Pedro Almodóvar, admito que fiquei muito com o pé atrás, principalmente por ter uma história e ter um estilo, o suspense, muito diferente do que o diretor fez em toda sua brilhante carreira. Quando vi o trailer, fiquei assustado e já comecei a sentir um cheiro de fracasso e decepção, seria aquele momento "Almodóvar enfim perdeu o jeito de fazer bons filmes". Ou seja, fui ver com uma péssima expectativa, e ao final do longa, só pude pensar duas coisas: o quão errado eu estava e que definitivamente estava diante de um dos melhores filmes deste ano!

por Fernando Labanca


Bom, para começar, preciso admitir, é muito complicado contar a história do filme, só assistindo mesmo para se ter noção da grandiosidade do projeto. É difícil contar sem spoilers, então comentarei bem por cima, por que há muitos outros detalhes na trama. "A Pele Que Habito" é baseado no livro "Tarântula" de Thierry Jónquet, e nos mostra Roberto Ledgard (Antonio Banderas), um renomado cirurgião plástico, que vive em sua bela casa tranquilo, porém logo presenciamos algo de incomum, há uma mulher, Vera (Elena Anaya) presa em um quarto, ela tenta de diversas formas fugir ou provar a Roberto que está pronta para ir embora, mas ele a mantém em cativeiro. Aos poucos vamos descobrindo um pouco mais deste homem misterioso, perdeu a esposa depois que ela se queimou inteira e se suicidou após se ver refletida no espelho, sua filha, atordoada, passa a frequentar uma clínica psiquiátrica. E no trabalho, Roberto passa a fazer uma pesquisa intensa sobre a criação de uma pele, que envolve a mutação de células, tudo isso por culpa, por querer encontrar a cura para casos como o de sua esposa, o problema é que ele resolve testar essa nova pele em humanos, neste caso, em sua paciente, Vera. 

Mas a vida deste cirurgião é muito mais complexa do que se parece, e aos poucos vamos descobrindo o porquê de ser Vera sua paciente, porque ele a mantém daquela forma, e isso envolve um passado sombrio e cheio de segredos. É então que surge o suspense, sobre quem realmente são essas pessoas e como elas chegaram até ali.


Não, Pedro Almodóvar não perdeu a mão, a boa forma, muito pelo contrário, mantém a qualidade. Apesar de se tratar de um gênero novo para o diretor, há muito de Almodóvar na tela, o exagero, as personalidades caricatas, as cores fortes, sensualismo, sem deixar de ser polêmico e tratar de temas extremamente delicados, como a mudança de sexo, além daquela normalidade com que ele nos mostra situações bizarras. A história é fantástica, ele escolheu o projeto certo, o admiro por se arriscar, mesmo depois de anos de carreira e de seguidores, não temeu trilhar por caminhos desconhecidos, e felizmente, ele acertou. 

O roteiro, que também é assinado por Almodóvar, é genial, a contrução das situações, a apresentação das personagens, o mistério, o modo como tudo vai se revelando, tudo muito dierente, original e de extrema qualidade. A idéia é fora do comum, pode assustar muitas pessoas até, principalmente os mais conservadores, mas é um filme que vale cada segundo, cada cena que surge, uma grande idéia, é um filme que não deixa as grandes surpresas somente para o final, ao decorrer da trama, vamos nos deparando com situações bem surpreendentes. Destaque para a trilha sonora do compositor Alberto Iglesias, bastante delicada e que parece elevar o nível do longa, além é claro, dos cenários e figurinos muito bem planejados. 

Antonio Banderas retoma sua parceria com Almodóvar, com quem não trabalhava desde 1990 com "Atá-Me", e essa parceria funciona mais uma vez, havia muito tempo em que não via Banderas tão bem em um filme, aliás, fazia muito tempo em que o via em um filme bom, sua atuação não é nada incrível, mas soube passar os sentimentos (ou falta deles) deste incrível personagem. Ainda há a presença de Marisa Paredes, muito bem em cena e do jovem Jon Cornet, num personagem que dá arrepios só de lembrar. Destaque para a ótima atuação de Elena Anaya como Vera, uma personagem muito marcante e cheia de bons momentos, a atriz se entregou e nos mostrou uma belíssima performance.

"A Pele Que Habito" é uma obra-prima, por inúmeros motivos, direção impecável de Almodóvar, que parece ter tido cuidado com cada detelhe, logo que o resultado beira a perfeição. Pelo roteiro que nos apresenta uma das tramas mais ousadas e originais do ano, ou pelas grandes atuações representando grandes personagens. O longa discuti um pouco da falta de ética na medicina, mas de forma secundária, nos faz refletir sobre as atitudes desumanas de seres tão comuns, além de uma reflexão bem válida sobre nossa identidade, sobre o quanto nossa pele, essa casca que nos cobre, nos define, perderíamos nossa identidade se estivermos em um corpo diferente, se habitarmos outra pele? Reflexões feitas, filme tenso em processo de ser digerido, quando o filme terminou me veio um sentimento de felicidade, felicidade por estar diante de uma obra tão rica, de ver um cinema acontecer de forma tão rara, tão brihante. Magnífico. Inteligente. Ousado. Imperdível. 

NOTA: 10





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