Chegando tímido nos cinemas, "Não Olhe Para Trás" é uma grande surpresa, daquele tipo de filme que ninguém espera nada e de repente ele te prova inúmeras razões para adorá-lo. Simples, objetivo e incrivelmente bem escrito.
por Fernando Labanca
Baseado em um evento real, o longa nos apresenta Danny Collins (Al Pacino), um popstar que já viveu seu tempo e agora sobe aos palcos para cantar sucessos de muitos anos atrás, reprisando canções para seus fãs, que também já envelheceram. Sem escrever nenhuma música por mais de trinta anos, ele ainda possui uma vida de luxo, com dinheiro, mulheres, drogas e álcool. Até que seu amigo e empresário Frank (Christopher Plummer) lhe entrega, de presente de aniversário, uma carta escrita por John Lennon na década de 70, mas que esteve nas mãos de um colecionador. Destinada ao próprio Collins, na época em que ele era apenas um garoto promissor, a carta era um aviso de Lennon para que o dinheiro não destruísse sua carreira, deixando, inclusive, seu telefone, caso precisasse de ajuda. Devastado pelo ocorrido, e reflexivo sobre o que teria sido sua vida se tivesse acesso a carta na época em que fora escrita, Danny decide parar sua turnê e ir atrás daquilo que deixou no passado, seu filho (Bobby Cannavale), que nunca chegou a conhecer.
Para aqueles que assim como eu sempre se perguntaram por onde andavam o casal, Janathan Dayton e Valerie Faris, responsáveis por "Pequena Miss Sunshine", filme lançado em 2007, eis aqui uma grata surpresa, o mais novo projeto, distribuído em pequeno circuito, pequeno demais para uma comédia romântica..."Ruby Sparks". A história de um autor que se apaixona por sua cria, tão original quanto divertido, tão doce quanto sombrio.
por Fernando Labanca
Calvin (Paul Dano) é um jovem autor de livros, no qual tem grande reconhecimento por suas obras mas que anda com um certo bloqueio criativo e assim não mais consegue desenvolver uma história. Eis que decide por no papel através de sua antiga máquina de escrever aquilo que estranhamente invadia seus sonhos, uma linda garota ruiva chamada Ruby Sparks, começa então a criar uma trama para ela, o que ele não esperava é que certo dia, Ruby aparece em seu apartamento, como se os dois já tivessem um histórico juntos. E como uma extensão de seus sonhos, Calvin passa a desfrutar desta incrível relação, sua personagem ganha vida e para sua surpresa interage com seu mundo, provando ser real. O problema começa quando Calvin ciente de que pode controlá-la, passa a desconstruir Ruby, criando a imagem de uma mulher perfeita, sem se importar com as consequências dessas alterações.
Chegou tímido nos cinemas, mas é bem provável que aconteça o mesmo que aconteceu com "Pequena Miss Sunshine", ganhou o público pelo boca-a-boca, espero ouvir muito a respeito deste filme que de fato merece sucesso, merece ser reconhecido da mesma forma que a primeira obra do casal de diretores foi. Em certo momento, por pura ironia do roteiro, um personagem discute sobre bandas de rock alternativo, que após conquistarem a crítica pelo excelente primeiro trabalho são assombrados logo no segundo álbum, onde inúmeras apostas são feitas esperando que a excelência se repita. Este é exatamente o caso de Jonathan e Valerie, não há como não se esperar muita coisa do segundo trabalho, ainda mais quando se faz tantos anos que sumiram. Para meu grande alívio, "Ruby Sparks" superou todas minhas expectativas, é bem complicado compará-lo ao "Miss Sunshine", são obras bem diferentes, com propostas diferentes. Este segundo longa, porém, agrada pelos mesmos motivos, pela simplicidade, pela delicadeza e principalmente pela originalidade. A comédia romântica é aquele tipo de filme que nem sempre acerta, devido ao grande número de tramas com digamos, o mesmo começo, meio e fim, eis que de tempos em tempos somos prestigiados com obras como "Ruby Sparks", que surgem para revitalizar o gênero, dar novo fôlego, aparece com ideias totalmente novas, que envolvem do começo ao fim, que surpreendem ao fazer o público questionar se o casal vai ficar junto no final ou não, logo que o bom roteiro oferece um leque de possibilidades, nos faz pensar, nos faz torcer, como pouquíssimos filmes do gênero conseguiram.
"Ruby Sparks", escrito pela jovem Zoe Kazan, que também atua no filme, é uma mistura deliciosa de realidade e fantasia, o romance de um autor e sua cria. No entanto, diferente de obras com a mesma intenção, a fantasia aqui vai além, justamente quando o roteiro passa a nos confundir, vai além de nos fazer duvidar da sanidade de seu protagonista, Ruby é real, as pessoas ao redor de Calvin a veem, a loucura não está na mente dele, nos faz questionar até que ponto a realidade deixou de existir, se tudo aquilo era um sonho ou se o sonho virou literalmente real. O entretenimento é garantido, a brincadeira funciona e nos faz embarcar fácil nesta original história de amor. A grande ideia se torna maior ainda quando há muito o que se falar dela, muito o que se pensar. "Ruby" é sobre o quanto queremos controlar as pessoas que amamos, o quanto é difícil aceitá-las, como se o amor nunca fosse suficiente, chega a ser genial a maneira com que o roteiro trabalha com isso, onde Calvin passa a manipular as escolhas e atitudes de sua namorada, a moldando aos seus padrões, construindo aquilo que ele acreditava ser o melhor para ele, é hilário ao mesmo tempo assustador ver Ruby se tornar a carente depressiva ou a felicidade em pessoa. O filme ganha uma complexidade maior ao estudar a estranha mente deste protagonista, mais do que querer a namorada perfeita, Calvin almejava o sucesso, mais do que alguém para amá-lo, ele queria alguém que beijasse seus pés, que dissesse e provasse que ele era o melhor, que fosse submissa a ele. Indo além que qualquer comédia romântica recente, este filme ganha proporções inimagináveis devido ao seu brilhante roteiro, que sai do óbvio, do esperado, que diverte, que faz pensar e que acima de tudo, emociona.
Nada seria deste projeto, porém, sem a presença de Paul Dano e Zoe Kazan. É belo a química dos dois, a naturalidade com que dialogam, seus olhares, seus sorrisos, há tanta verdade em cada sentimento que transmitem. Paul Dano consegue com perfeição passar a estranheza de Calvin, sua timidez, seu isolamento, seus transtornos, sua profundidade, sua paixão por Ruby, sua insatisfação, uma grande atuação, um incrível ator de comédia, um excelente ator dramático. E se em "Pequena Miss Sunshine", Dayton e Faris revelaram ao cinema Abigail Breslin, desta vez, trouxeram para a tela mais um grande talento, Zoe Kazan, que surpreende por seu roteiro, e que surpreende ainda mais por sua atuação, fazer Ruby, definitivamente não era uma tarefa muito fácil, há inúmeras oscilações e Kazan trabalha perfeitamente cada uma delas, apesar de jovem, tem um talento indiscutível, além de ser extremamente carismática, parece trazer brilho a cada cena. Ainda vemos boas participações como a louca família de Calvin, interpretada por Chris Messina, Antonio Banderas e Annette Bening.
Uma obra rara, um cinema que pouco se vê ainda mais se tratando de comédia romântica. Jonathan Dayton e Valerie Faris fizeram bonito em 2007 e agora, mais uma vez, marcam seus nomes em 2012, uma das maiores surpresas deste ano. Como diretores realizam um ótimo trabalho, há belas sequências, principalmente as envolvendo o casal principal, captam o melhor dos atores, e para finalizar nos entregam uma grandiosa cena, grande demais para o gênero, é neste ponto que se encaixa o doce e sombrio que citei no início, há uma profundidade assustadora, é neste momento que enxergamos a complexidade de tudo aquilo, numa intensidade bem teatral, diria que foi uma das sequências mais conturbadas no ano, simplesmente por em nenhum momento esperarmos por ela, ela chega de repente e faz o coração pulsar aceleradamente. É belo, é mágico, tudo o que o cinema tem de melhor é resgatado nesta brilhante obra e para aqueles, assim como eu, que amam também a escrita, é um prato cheio. Não só recomendo para quem admira comédias românticas, recomendo também para aqueles que admiram um cinema de qualidade. Romântico, engraçado, original, inteligente e emocionante. Não há como ver e não gostar, para se ter na prateleira e ver milhões de vezes.
Neste último domingo, dia 16, foram anunciados numa cerimônia de gala os vencedores do prêmio considerado a prévia do Oscar, o Globo de Ouro.
Apresentado pela segunda vez pelo comediante Ricky Gervais (de Uma Noite no Museu e da versão original da série The Office), o astro conhecido pelo seu humor irônico não deixou de lado nenhuma piada de mal gosto e foi alvo de muita polêmica. Mas enfim, O Globo de Ouro deste ano não teve nenhuma grande surpresa, como sempre, com excessão do premiado Paul Giamatti como Melhor Ator de Comédia, pelo filme "A Minha Versão Para o Amor", desbancando a indicação dupla do favorito Johnny Depp. Melissa Leo também não era muita certeza, mas devido a grandes elogios referente a sua performance no ainda inédito "O Vencedor", era bem provável o reconhecimento, como Melhor Atriz Coadjuvante.
Nos últimos anos, o prêmio de Melhor Filme deixou de ser uma surpresa no Globo de Ouro, era quase óbvio a premiação de "A Rede Social", assim como David Fincher como Diretor. A surpresa está ficando para o de Melhor Filme Estrangeiro, dessa vez, o dinamarquês "Em Um Mundo Melhor" desbancou o favorito e mexicano "Biutiful".
Vale relembrar que de uns anos para cá, o Globo de Ouro está se afastando cada vez mais do Oscar, como no ano passado onde Avatar havia ganhado, diferente do Oscar que premiou "Guerra ao Terror". O mesmo aconteceu em 2006, onde premiaram O Segredo de Brokeback Mountain, o Oscar, "Crash", em 2007 premiaram "Babel", o Oscar "Os Infiltrados" e em 2008 premiaram "Desejo e Reparação, diferente do Oscar que entregou o prêmio para "Onde os Fracos Não Tem Vez". O que podemos concluir disso? Que "A Rede Social" pode não ter um futuro tão certo assim na maior premiação do cinema, que ao meu ver, não foi o melhor filme de 2010, onde "A Origem" de Christopher Nolan é de longe muito superior a obra de David Fincher.
Já na comédia, só pode se concluir que houve algum erro na hora de fazer as seleções, colocar "Alice no País das Maravilhas" disputando com "O Turista" e "RED", não podia dar outro, "Minhas Mães e Meu Pai" só poderia ter ganho.
vamos aos vencedores...
Melhor Filme- Drama A Rede Social
Melhor Filme- Comédia ou Musical Minhas Mães e Meu Pai
Melhor Diretor David Fincher (A Rede Social)
Melhor Ator- Drama Colin Firth (O Discurso do Rei)
Melhor Atriz- Drama Natalie Portman (Cisne Negro)
Melhor Ator- Comédia ou Musical Paul Giamatti (A Minha Versão Para o Amor)
Melhor Atriz- Comédia ou Musical Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai)
Melhor Ator Coadjuvante Christian Bale (O Vencedor)
Melhor Atriz Coadjuvante Melissa Leo (O Vencedor)
Melhor Roteiro Aaron Sorkin (A Rede Social)
Melhor Filme Estrangeiro Em Um Mundo Melhor (Dinamarca)
Melhor Animação Toy Story 3
Melhor Trilha Sonora A Rede Social
Melhor Canção Original You Haven't Seen the Last of Me (Burlesque)
Comédia Dramática dirigida por Lisa Cholodenko e com atuações brilhantes de Julianne Moore, Annette Bening e Mark Ruffalo. Filme que há pouco tempo estava em cartaz nos cinemas, trouxe às telas a vida de uma família nada convencional, no melhor do estilo "indie".
por Fernando Labanca
Bem recebido em festivais de Cinema como o Sundance e o de Berlim, é a mais nova pérola do circuito independente. O longa nos mostra a vida de uma família bem fora dos padrões, Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska) chegaram ao mundo por inseminação artificial, atualmente com 16 e 17 anos, respectivamente, vivem bem ao lado das mães Jules (Moore) e Nic (Bening), um casal homossexual que para terem filhos resolveram opitar pela inseminação. Há anos vivendo como família, os quatro já não vivem como se fossem uma minoria, uma raridade e juntos contruiram uma família de verdade.
Até que, Joni, prestes a completar 18 anos, decide realizar um pedido de seu irmão, ir atrás do "pai", ou melhor, o doador de espermas. Ela consegue contato com ele e junto com Laser, marcam um encontro e finalmente conhecem aquele que os concebeu ao mundo, Paul (Ruffalo), um cara sem muitas responsabilidades, sem família, é dono de um restaurante e não se prende emocionalmente a ninguém. Jules e Nic, ao descobrirem o ocorrido, decidem trazê-lo para um almoço em família e conhecê-lo, antes que cresça uma união entre o estranho e os filhos sem seus conhecimentos. Nic, é uma médica e profissionalmente bem resolvida e é quem realmente sustenta a todos, enquanto Jules não consegue encontrar sua função e se perde em vários "bicos", e o da vez é como paisagista, eis que Paul, pede para ela o ajudar na elaboração de um jardim no fundo de sua casa. Se sentindo , enfim, como alguém importante, decide ajudá-lo, é quando por trás de sua família, começa a ter um caso com ele, e aos poucos, a entrada do desconhecido na vida dessas pessoas, começa a desestruturar toda a base sólida que eles construíram.
Com título original "The Kids Are All Right", o filme nos mostra que realmente os filhos estão bem. Remetendo a idéia de que muitos acreditam que uma união entre homossexuais pode abalar a estrutura de uma família, e o longa nos dá um outro ponto de vista, onde os problemas está nos adultos, por mais que os jovens tenham lá seus problemas, como qualquer outro, nada tem a ver com a relação dos pais, mas sim com suas vidas pessoais fora de casa. O que abala a estrutura são as escolhas mal feitas pelo casal, pelos erros cometidos, e não por serem homossexuais, mas por serem humanos, erros que qualquer um comete, falhas que podem exitir em qualquer outra família. Já o título nacional, bom, enfim, acho que não precisamos nem comentar, só mais uma pérola de criatividade daqueles que criam esses nomes!!
"Minhas Mães e Meu Pai" é interessante exatamente por isso, por mostrar conflitos bastante comuns, mas não como clichê ou falta de criatividade do roteiro, mas como forma de dizer: "Vejam, eles são normais!". Outro lado positivo é o fato de não ser mais um filme independente, aqueles com o carimbo "Sundance" e que não fogem da zona de conforto, geralmente comédias dramáticas, aclamadas por filme como "Pequena Miss Sunchine" e "Juno" e só por esses terem feito sucesso, os realizadores desse estilo, acharam a fórmula certa e não fogem dela. "Minhas Mães e Meu Pai", enfim, foge, dessa área de conforto, bebe em outra fonte, com um roteiro mais ousado e cenas, digamos, mais picantes, e atuações memoráveis. Claro, não chega a ser o novo "Miss Sunshine", mas é uma outra pérola do gênero, também digna de elogios.
O que mais marca no filme são definitivamente as atuações. Annette Bening retorna numa boa personagem, que adimito, não vi mais nada de sua carreira desde "Beleza Americana", e mais uma vez ela surpreende, com uma atuação notável e está sendo vista como possível indicada ao Oscar. Apesar do foco da mídia ter virado mais para Bening, ao meu ver, o destaque do longa fica para Julianne Moore, em mais uma atuação memorável da atriz, uma das mais competentes de sua geração, devido a ela, vemos cenas belíssimas e muito comoventes. Mark Ruffalo, impecável, uma de sua melhores performances. Mia Wasikowska, muito superior ao seu desempenho em Alice no País das Maravilhas, aqui ela reage as situações, consegue demostrar sentimentos e se sai muito bem, assim como Josh Hutcherson.
Um filme divertido, com um humor bastente sutil, mas que funciona, e um drama bem guiado pelas mãos de Lisa Cholodenko, comovente e emocionante em determinadas cenas. Vale mesmo pelas atuações, que foram uma das melhores esse ano, pela ótima química entre Julianne Moore e Annette Bening, que brilham na tela, num roteiro simples, mas que consegue passar sua mensagem. Recomendo.