quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica: Moonlight - Sob a Luz do Luar (Moonlight, 2016)

Com visual impactante e uma trama repleta de simbolismos, "Moonlight" fala sobre preconceito, rejeição e sobre aceitação própria. Um relato duro, porém necessário. 

por Fernando Labanca

Apesar da gafe histórica da cerimônia do Oscar e todas as polêmicas ao redor de sua premiação, "Moonlight" mereceu o tão almejado troféu de Melhor Filme e tal acontecimento é extremamente relevante em nosso tempo. É lindo ver uma obra composta por atores negros e que aborda temas como preconceito e homossexualidade sendo celebrada. Mais do que representatividade, é um espaço que se abre para tantas discussões necessárias. O diretor Barry Jenkins conduz tudo de forma fascinante e ao assinar o roteiro - também premiado com o Oscar - encontra saídas inovadoras para traduzir sentimentos tão delicados e por muitas vezes indecifráveis, além de realizar um belo e profundo estudo de personagem. Dividido em três capítulos - Little, Chiron e Black - vemos na tela a construção de um indivíduo e todo o processo de aceitação que precisa enfrentar. A árdua jornada de alguém que busca descobrir quem é mesmo vivendo em um mundo que o rejeita constantemente. Mesmo vivendo de desejos que ele mesmo renega. Vivendo e sentindo a culpa de algo que não entende.


Em cada um de seus capítulos, vemos três fases distintas na vida de Chiron. Quando pequeno, enquanto fugia de colegas que o humilhavam, acaba conhecendo Juan (Mahershala Ali), homem mais velho, que acaba sendo uma espécie de mentor em sua jornada. Anos mais tarde, os questionamentos sobre o porquê é tão rejeitado e tão distante de todo mundo se tornam mais presentes, assim como a violência daqueles que não o aceitam. Em todos os momentos, ainda precisa lidar com a ausência e brutalidade de sua mãe drogada (Naomie Harris). 

A primeira cena que conhecemos Chiron, ele está fugindo, correndo contra aqueles que teme. Há uma certa repetição em cada parte, onde o protagonista sente uma necessidade enorme em se esconder devido sua homossexualidade e estes desejos que não compreende. Um ciclo que parece nunca se romper. Sua rotina é violenta, seja nas palavras brutas ditas por sua mãe que não o entende, seja na força física dos garotos na escola. Em todas as fases, há em seu olhar o receio de todas as coisas, nunca consegue encarar ninguém ao mesmo tempo em que, nitidamente, pede por ser acolhido. É um tanto desesperador acompanhar a vida sofrida de alguém que não consegue se expressar, dizer o quanto sente por tudo. É ainda mais doloroso ver o garoto pedir desculpas quando realiza o seu maior desejo, como se devesse isso ao mundo, devesse se desculpar por ser quem é. Ou na criança que dança como se fosse livre e acaba guardando isso apenas para si. A presença de Juan na vida do garoto vem para lhe dizer palavras sábias e acaba por lhe deixar um forte legado, não somente nos adereços que passa a vestir quando adulto, mas em todos os pensamentos que ecoam em sua mente, sobre descobrir quem é. É curioso a questão dos nomes dados aos capítulos. Se no segundo, o personagem renega o apelido Little e se descobre como o próprio Chiron, no fim, ele se vê como Black da mesma forma como Juan se via como Blue, o garoto negro que fica azul sob a luz do luar, não porque ele escolheu ser, mas porque alguém escolheu por ele. Tudo uma questão de descobrir quem é antes de ser definido pelos outros. No meio a suas belas simbologias, rompemos o ciclo no final. Chiron parece se encontrar e não mais fugir. 


"Chega uma hora em que precisa decidir quem vai ser. 
Não pode deixar ninguém decidir isso por você."



"Moonlight" é uma obra com intenções ambiciosas. É extremamente conflituoso e provocante toda a jornada do protagonista e o fato dele ser homossexual e estar inserido em um meio que parece barrar qualquer tipo de manifestação que vá contra a toda uma conduta já muito bem estabelecida. Entretanto, sinto que falta argumentos para tamanha ambição, onde a direção caprichada e as fortes atuações parecem preencher o vazio deixado pelo texto, que muitas vezes não está a altura do que pretende ser. Assim que todos os capítulos terminam, deixam uma sensação de que algo faltou, de que algo não está completo. Sobra repetição de eventos e falta um desenvolvimento melhor de muitas coisas. Esta divisão, ao mesmo tempo em que é uma opção narrativa interessante pelo estudo criado sobre o protagonista, enfraquece o universo além dele, como os personagens secundários que são ofuscados e não ganham a atenção que mereciam. A relação de Chiron e Juan tem a pretensão de ser muito forte e significativa ali dentro, mas não há sequer um grande momento entre os dois, da mesma forma que a relação entre o garoto e a mãe não cresce como prometia. Na parte final é quando sua fragilidade fica mais evidente. Com muito menos força que ou primeiros capítulos, o filme se encerra sem grandes impactos, morno, bem distante das expectativas que criou ao seu decorrer. Os diálogos também não são dos melhores, onde muitas sequências soam irreais tamanha falta de inspiração ali. Era uma trama e uma ideia que merecia um tratamento no texto muito mais eficaz. Existem lá suas belas frases de efeito, mas falta e por isso, não vejo a premiação de seu roteiro muito justa. 

A direção de Barry Jenkins é fantástica e surpreende por este ser apenas seu primeiro longa-metragem. É bela cada composição e cada enquadramento. Suas cores, cortes e a incrível trilha sonora enaltecem ainda mais suas ótimas escolhas. É um trabalho formidável de toda a equipe, chegando a ser comovente como cada elemento funciona na tela, tornando o filme em algo tão poderoso e até mesmo experimental. O elenco também se destaca, entregando força a todos os instantes. O premiado Mahershala Ali tem uma participação curta, mas surpreende. Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes interpretam Chiron nas diferentes fases e nenhum deles decepciona. Janelle Monáe surge com uma personagem tão irreal quanto a de "Estrelas Além do Tempo". A cantora pode até prometer nesta sua nova carreira no cinema, mas ainda lhe devem um bom texto. Porém, de longe, o grande destaque aqui é Naomie Harris. Ela por si só já é um clímax. É um novo choque cada uma de suas aparições e me faltam palavras para descrever a grandeza de sua atuação. Um papel difícil e a atriz consegue fazer de um jeito único e intensamente real. 

Definitivamente, um filme obrigatório, não porque venceu o Oscar, mas por tudo o que diz. Bullying, sexualidade, preconceito e afeto estão ali, mas reduzi-lo a alguns temas parece pouco, logo que há muito sendo discutido na tela. E em tempos de tanta intolerância, o longa se faz necessário. A história de um negro gay nascido e criado em um bairro pobre é a história de tantos Chirons, Littles e Blacks existentes por aí. "Moonlight" é uma carta escrita para aqueles que não são ouvidos, que não são vistos. Para e sobre aqueles que se sentem marginalizados de alguma forma. Um filme relevante, sensível e milagroso. 

NOTA: 8




País de origem: EUA
Duração: 111 minutos
Distribuidor: Diamond Films
Diretor: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Naomi Harris, Mahershala Ali, Trevante Rhodes, Alex Hibbert, Ashton Sanders, Janelle Monáe, André Holland





2 comentários:

  1. Esperava mais. Comparando com os outros concorrentes de melhor filme, pra mim fica em terceiro.

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    1. Eu gostei, mas assim como você, eu esperava mais também. Na lista dos indicados, não era meu favorito.

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