quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Crítica: Manchester À Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016)

Indicado ao Oscar de melhor filme, "Manchester À Beira-Mar" é uma grande surpresa. Dirigindo por Kenneth Lonergan, temos aqui uma obra melancólica, densa e que vai muito além do que parecia ser.

por Fernando Labanca

Desde quando vi o trailer de "Manchester by the Sea" me questionei do porquê era visto como um dos favoritos ao Oscar e se ele realmente merecia tal posto. Alguns críticos ainda o citaram como uma das melhores obras de 2016 e pelo o que havia sido vendido, parecia algo simples como um drama familiar qualquer. Justamente por isso, a sensação que se tem ao assisti-lo é de uma constante surpresa. É muito maior do que o trailer sugeriu e a trama, incrivelmente bem escrita, emociona de forma profunda e nos deixa atordoados por cada brilhante detalhe.

Casey Affleck é um dos grandes responsáveis pela grandeza de "Manchester À Beira-Mar". Seu olhar vazio diz muito e seus silêncios são ensurdecedores. Um personagem difícil que o ator defende com força e muita honestidade. Ele dá vida a Lee Chandler, um homem que vive uma rotina insignificante em uma pacata cidade. Tudo muda quando seu irmão (Kyle Chandler) morre e com isso precisa retornar à sua cidade natal para avisar seu sobrinho, Patrick (Lucas Hedges), sobre o ocorrido.  No local, Lee passa a relembrar todos os trágicos acontecimentos que o fizeram partir dali e no meio do caos que sua vida se torna, ainda recebe a notícia de que o irmão lhe deixou a guarda do filho. 


É bastante curioso todo o desenvolver de "Manchester". Com ritmo lento, as informações nos são dadas sem pressa e aos poucos, juntando seus pedaços, vamos compreendendo a profundidade e complexidade de suas tantas ideias. Temos aqui um filme que nos deixa constantemente reflexivos e se no começo não entendemos sua dinâmica e a confusa relação do protagonista com a vida, ao fim, estamos completamente entregues. Jamais poderemos entender sua dor e o roteiro não facilita este elo entre o público e Lee, mas ao menos, quando seus tantos e bons mistérios são revelados, sentimos afeição àquele ser e entendemos o quão difícil é para ele enfrentar o luto, as perdas, a memória implacável de quem não tem mais forças para seguir em frente, de continuar em pé. O quão difícil é aceitar ser pai quando seu maior erro foi não ter sido um. 

"Manchester by the Sea" é um filme pesado, melancólico, doloroso. A jornada do protagonista é cruel e nos deixa atordoados por diversos instantes. Confesso que fazia tempo em que um drama não me deixava tão espantado, perplexo. São situações e diálogos que nos enche de confusão e dor. Neste sentido, toda a composição de Lonergan é fantástica e incrivelmente bem pensada. Se o roteiro é brilhante em todas as suas construções, seja na bela e surpreendente evolução da trama seja no desenvolvimento de cada personagem, a composição visual de cada cena também se destaca. É interessante como todos os cenários e cômodos apresentados são pequenos, com tetos baixos, como se todos os indivíduos ali fossem obrigados a estarem próximos, quando na verdade o que mais querem é distância. Por isso há sempre um clima de desconforto presente, onde nunca há palavras que os unem, que os torne família. Lee, curiosamente, sempre vive no subterrâneo. Sempre abaixo. Sempre ausente. Ele nunca está no mesmo nível que os demais e ele também nunca se permite a isso. 

Além de Affleck que entrega uma performance irretocável, o restante do elenco não decepciona. Lucas Hedges é uma boa revelação e faz algumas sequências bastante delicadas. Já Michelle Williams aparece pouco, mas fez tanto em uma única cena que garantiu suas tantas indicações a prêmios. Uma cena memorável em que sua personagem discute com o ex-marido. É um momento estranhamente chocante, de uma honestidade rara e de uma qualidade espantosa. Seu embate com Casey é poderoso. Outro destaque é a fotografia e a trilha sonora, que acentuam este clima fúnebre de toda a obra. 


Não vi todos os indicados, mas certamente este já é um dos que mais gostei. Me surpreendeu com todos os seus belos detalhes, por suas reviravoltas e por constantemente me fazer ver o filme com outros olhos, a cada nova informação que me dava. Senti uma dor tremenda e fiquei em estado de choque em determinados instantes. Senti meu coração partido. Mas é preciso adentrar a sua proposta - que não é muito óbvia e nem de fácil digestão - para sentir tudo isso. "Manchester À Beira-Mar" é incrível. Um drama poderoso, honesto e que poderá ser lembrado mesmo depois da grande  premiação do cinema acabar. 

NOTA: 9

País de origem: EUA
Duração: 135 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Kenneth Lonergan
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Kyle Chandler, Heather Burns, Matthew Broderick




4 comentários:

  1. Muito bom. Ao lado de Lion, achei mais filme do que o ganhador deste ano. Apesar de ser um drama, não é tedioso como muitos que vemos por ai. Tem um bom ritmo, boa trilha sonora e o personagem de Affleck é muito bom.

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    1. Obrigado pelo comentário e concordo com vc, Carlos! Foi um dos que mais gostei no Oscar deste ano e achei um drama muito bem conduzido, realmente não me entediou. O personagem do Affleck é muito bom msm, assim como a atuação dele.

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  2. gostei do filme apesar do péssimo trabalho do irmão de Ben Affleck, simplesmente o cara quase estraga um ótimo drama com suas pseudo atuações, mas sei que não foi opinião comum visto que a péssima entrega do Oscar esse ano acabou o premiando em detrimento do melhor no ano que foi o Denzel, outras entregas lastimáveis foram vistas como melhor filme para o fraco e comum Monnlight, a péssima atuação de Emma Thompson ganhar em detrimento de uma Ruth Negga que fez um papel muito mais difícil e incomensuravelmente mais consistente, e a escolha de um coadjuvante que não participa nem de 10 minutos de um filme também provou que essa foi a pior festa do Oscar que já vi...

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    1. Não acho que o Casey Affleck tenha uma "pseudo atuação". Se puder dar uma chance na filmografia dele, poderá ver outros grandes trabalhos do ator. O filme é, mas penso que a atuação dele só o engrandece. O Denzel também merecia o Oscar, então qualquer um que ganhasse o prêmio seria justo.

      Obrigado pelo comentário!

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