quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Crítica: La La Land: Cantando Estações (La La Land, 2016)

É possível encontrar algum defeito em um filme tão aclamado pelos críticos e público? Em um filme indicado a 14 Oscars? Sim, é possível. Pode não parecer, mas está liberado não gostar de "La La Land".

por Fernando Labanca

Dizem que musical é aquele tipo de filme que se ama ou odeia. "La La Land", de certa forma, parece encontrar o tom ideal para agradar um maior número de público. Sem que seus personagens cantem o tempo inteiro, tudo na tela vem de forma leve, gostosa de ver e apreciar e é, portanto, uma obra capaz de seduzir até mesmo aqueles que não são fãs do gênero. Fazia tempo também, é válido citar, que o cinema não encontrava um musical tão relevante como este e mesmo que o Oscar tenha sido sua maior propaganda, definitivamente há muito o que se dizer sobre o longa. O projeto dos sonhos do jovem cineasta Damien Chazelle, revelado há dois anos atrás por "Whiplash", traz de volta toda a magia do gênero, funcionando como uma bela e adorável homenagem aos grandes clássicos. 

A trama é simples e em nenhum momento procura soluções inovadoras. Temos aqui a jovem atriz, Mia (Emma Stone), que sonha em ser uma grande estrela de Hollywood, vivendo uma rotina frustrante de testes na concorrida Los Angeles. Sua vida muda quando conhece o também sonhador Sebastian (Ryan Gosling), pianista de jazz em um bar e que tem grandes planos para o futuro. A partir deste ponto, "La La Land" passa a nos oferecer um romance açucarado, embalado por algumas canções e belas sequências de dança. Apesar da simplicidade da ideia, o filme possui um roteiro primoroso. São detalhes, diálogos e toda a construção dos personagens que provam a genialidade aqui. Tudo flui de forma natural, sem nunca parecer forçado ou mal conduzido. O final, porém, é o ponto alto, elevando a ideia a outro nível e saindo do lugar comum. O excelente texto vem inspirado e cheio de boas intenções, falando sobre sonhos e sobre nunca desistir diante dos tantos obstáculos que surgem. Talvez seja um pouco, também, sobre como nossa vida é escrita sob linhas tortas, em como às vezes alcançamos o que almejamos através de caminhos que estavam fora do plano e que perder também faz parte do processo. 


"La La Land" é, tecnicamente falando, uma obra irreparável. Damien Chazelle prova que as apostas feitas por seu talento não estavam erradas. Apesar da pouca idade, é um diretor brilhante e conduziu seu filme de forma magistral. Com tantas referências em mãos, ele entrega um produto visualmente encantador, desde a maneira como guia sua câmera em movimentadas sequências até as excelentes coreografias. A ótima montagem o torna um produto dinâmico e a trilha sonora composta pelo já premiado Justin Hurwitz, embalam as cenas com fascinantes melodias. A fotografia é outro grande acerto. Com iluminação e uma paleta de cores bem marcante, a obra hipnotiza por seu visual, passando a ser um deleite não só para os amantes de musicais, mas principalmente para os amantes de cinema.

No entanto, penso que "La La Land" não é assim tão incrível quanto os críticos querem que ele seja. Talvez por minhas expectativas serem tão altas diante de tantos e extremos elogios, não pude evitar não sentir uma leve decepção. E digo isso como um grande fã de musicais. E esse sentimento se deu início logo na primeira cena. A abertura que servia quase como um prelúdio da história e uma introdução ao universo proposto por Chazelle é fraca. A canção é fraca e a sequência não alcança todo seu potencial. Mas algo se prova ali, uma ausência que perdura por toda a obra. O grande favorito ao Oscar nunca alcança o ápice, nunca cresce mais do que esperamos dele. É ambicioso, mas leve e comportado demais para sair de sua constante linearidade. Tive a estranha sensação de que as cenas nunca atingiam o limite, estava sempre abaixo, sempre tímida, sempre na zona de conforto. E tudo tinha potencial para mais. Para um filme que encontra tanto fascínio no contemporâneo, "La La Land" não poderia ter sido mais conservador e tradicional. Um produto feito sob encomenda para a Academia amar.

Outro elemento que me incomodou foi a escalação dos atores. Emma Stone é brilhante atuando mas não canta bem. Sou fã do trabalho da atriz, no entanto, para um musical cantar é essencial. Ainda que é nítido sua entrega, comecei a me questionar se realmente não havia outra opção para o papel e isso nunca é bom. Mas gosto da presença dela e de fato, entregou momentos incríveis sendo mais que merecido os tantos elogios que recebeu. Ryan Gosling é um caso ainda mais sério. Falta tudo. Falta cantar, falta atuar e falta carisma. Não entendi sua escalação muito menos todo o prestígio que tem recebido nas premiações. Até existe boa química entre eles, o que é ótimo, mas falta uma trama mais elaborada para o casal, que não me fez sofrer nem torcer por eles. As canções também não possuem a mesma energia que outros musicais e decepciona ao chegar em um número tão limitado durante o filme e sempre oferecendo pouco impacto. "City of Stars" é linda e é a única que ficará na sua mente ao fim da sessão.  

Como um grande admirador de musicais, acreditei que me encontraria em "La La Land". Acreditei que o filme me contagiaria, me faria querer cantar e dançar e viver um pouco dentro daquele universo. Não me fez nada disso. Fiquei maravilhado com sua produção e pela qualidade de cada cena, mas não senti a paixão e nem o encanto que o gênero me traz. Por fim, sua trama, que tão sem novidades, me entediou. A verdade é que estamos falando de um filme bom, mas que não é TÃO bom assim como tem sido vendido. Talvez a enorme repercussão que teve diante de tantos elogios e indicações intermináveis acabou nascendo uma expectativa que pode não ser alcançada. Parece pequeno diante da grandeza que o clamam. Parece desproporcional, não digno de tanta devoção. Portanto, digo, está liberado não gostar de "La La Land", mesmo que você se sinta um excluído da sociedade. É uma bela obra, que traz de volta a magia dos musicais, mas não a alma, a liberdade, a ousadia e a intensidade deles. 

NOTA: 7,5




País de origem: EUA
Duração: 128 minutos
Distribuidor: Paris Filmes
Diretor: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt




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