sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crítica: Não Olhe Para Trás (Danny Collins, 2015)


Chegando tímido nos cinemas, "Não Olhe Para Trás" é uma grande surpresa, daquele tipo de filme que ninguém espera nada e de repente ele te prova inúmeras razões para adorá-lo. Simples, objetivo e incrivelmente bem escrito.

por Fernando Labanca

Baseado em um evento real, o longa nos apresenta Danny Collins (Al Pacino), um popstar que já viveu seu tempo e agora sobe aos palcos para cantar sucessos de muitos anos atrás, reprisando canções para seus fãs, que também já envelheceram. Sem escrever nenhuma música por mais de trinta anos, ele ainda possui uma vida de luxo, com dinheiro, mulheres, drogas e álcool. Até que seu amigo e empresário Frank (Christopher Plummer) lhe entrega, de presente de aniversário, uma carta escrita por John Lennon na década de 70, mas que esteve nas mãos de um colecionador. Destinada ao próprio Collins, na época em que ele era apenas um garoto promissor, a carta era um aviso de Lennon para que o dinheiro não destruísse sua carreira, deixando, inclusive, seu telefone, caso precisasse de ajuda. Devastado pelo ocorrido, e reflexivo sobre o que teria sido sua vida se tivesse acesso a carta na época em que fora escrita, Danny decide parar sua turnê e ir atrás daquilo que deixou no passado, seu filho (Bobby Cannavale), que nunca chegou a conhecer.

"Stay true to yourself. Stay true to your music."


"Não Olhe Para Trás" marca a primeira empreitada de Dan Fogelman como diretor. Roteirista de renome em Hollywood, Dan já escreveu filmes como "Amor a Toda Prova" (2011) e "Última Viagem a Vegas" (2013), além das animações da Disney como "Carros" (2006) e "Enrolados" (2010), entre outras. Podemos dizer que foi um excelente primeiro passo, vemos aqui uma direção cuidadosa, além, é claro, de mais uma vez, trazer um excepcional roteiro. Fogelman, soube, brilhantemente, escapar das armadilhas deste "subgênero", aquele em que o personagem principal procura a redenção. Vemos, aqui, caminhos não tão óbvios e isso ocorre principalmente quando são colocados na tela personagens muito bem escritos e desenvolvidos, não só o protagonista, mas de todos aqueles que o cercam. Danny Collins é um ser único e isso transforma sua jornada em uma jornada única. Claro, que nada seria possível sem a composição magistral de Al Pacino, que entrega energia e um carisma pouco mostrado pelo ator nos últimos anos. Danny é um protagonista engraçado, curioso, que nos instiga a ficar ali, observando seu jeitão grosseiro com seu figurino bizarro de "popstar tiozão", daquele cara que não faz ideia de como reconquistar sua vida, reconquistar seu filho, e por isso seu percurso é tão interessante, porque ele não tem a habilidade da fazer as coisas darem certo, mas ainda assim, ele tenta, mesmo se utilizando dos modos mais absurdos, ele não desiste. Para melhorar, sua trajetória é engrandecida pelas ótimas canções de John Lennon, com direito à "Imagine", "Working Class Hero" e "Instant Karma". Aliás, vale citar o ótimo trabalho de Ryan Adams, que compôs a trilha ao lado do veterano Theodore Shapiro, escrevendo, inclusive, a canção original "Don't Look Down".

Como disse, o filme acerta e muito ao construir os personagens secundários, até mesmo aqueles que surgem rapidamente, cada um tem seu momento e cada um tem o poder de transformar esta jornada de Danny Collins numa jornada ainda mais deliciosa de assistir. Christopher Plummer acerta e muito ao compor o amigo e confidente Frank, como é bom vê-lo em cena, assim como Annette Bening, que me fez ficar com um sorriso no rosto toda vez que ela surgia na tela. A sintonia de Bening com Pacino funciona tanto que algumas sequências poderiam durar horas, isso também, devido aos ótimos diálogos da dupla. Bobby Cannavale e Jennifer Garner estão ótimos, no entanto, o longa pesa no sofrimento do casal, os tornando menos interessantes do que o restante. Destaque para a pequena Giselle Eisenberg e a revelação Melissa Benoist.

Enquanto assistia "Danny Collins", senti, desde o começo, algo que não sentia fazia tempo vendo um filme. Aquela comoção que geralmente surge no clímax ou no final, de repente, estava ali, presente em seus instantes iniciais, e em seu decorrer, me vi preso numa constante sensação de comoção, parece que tudo ali nos leva a isso. Isso ocorre quando há honestidade na construção dos conflitos, quando atores pronunciam seus diálogos com verdade e quando a trama nos prende por sua sensibilidade e por todo o seu potencial em conseguir emocionar, sem fazer muito, sem melodramas ou reviravoltas drásticas. É simples e profundamente verdadeiro. Claro que vemos também, aqueles velhos clichês com suas lições de moral, sobre redenção, sobre esquecer o passado e escrever um novo futuro, sobre bons valores e tudo aquilo que a fama e o dinheiro não são capazes de comprar. É batido, mas felizmente, tudo funciona neste roteiro de Dan Fogelman, inclusive os clichês, que cativa, que diverte e encanta. No entanto, acredito que o que mais comove na trama é justamente a carta escrita por John Lennon, por ela ter realmente existido e por ela trazer, consequentemente, esta sensação devastadora do tempo que se foi e não mais retorna, desta sensação de que o protagonista poderia ter tido outra vida. Não há nada mais sufocante do que um "E se". Um daqueles filmes para se achar, pois este merece e muito uma chance. Recomendo!

NOTA: 8,5





País de origem: EUA
Duração: 106 minutos
Distribuidor: Imagem Filmes
Elenco: Al Pacino, Annette Bening, Bobby Cannavale, Christopher Plummer, Jennifer Garner, Melissa Benoist, Josh Peck, Giselle Eisenberg
Diretor: Dan Fogelman
Roteiro: Dan Fogelman

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