sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Crítica: Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975)

Mais um para a sessão "filmes que não sei porque não vi antes", "Um Estranho no Ninho" é, com certeza, um clássico, uma obra fantástica, atemporal, que sobreviveu durante todos esses anos e tem potencial para se manter na memória daqueles que assistem. Venceu o Oscar por Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro Adaptado. 

por Fernando Labanca

Baseado no livro de Ken Kesey e produzido pelo ator Michael Douglas, o longa nos apresenta Randle McMurphy (Jack Nicholson), um cara preguiçoso e que devido a alguns surtos de agressão, é retirado da prisão, da qual já havia passado várias outras vezes, para ser tratado e observado em um sanatório. Ciente de que não possui problemas mentais, McMurphy passa a usar o local para desfrutar de sua liberdade, ser o louco que eles procuram, além de incentivar e persuadir seus colegas internos a ir contra à ordem vigente, questionar os medicamentos e a rotina que levam ali dentro. No entanto, seus atos revolucionários se chocam com o pensamento conservador da enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher), que não pretende facilitar a jornada de McMurphy no local.


"- Diga, acha que há algo errado com a sua cabeça?"
" - Nada. Sou uma maravilha da ciência moderna."

"Um Estranho no Ninho" é um filme grandioso, que começa tímido, mas ao seu decorrer acaba alcançando momentos épicos, o diretor Milos Formam nos entrega grandes sequências, nos faz navegar por diversas sensações e ao seu término, nos deixa sem chão com seu final impactante. Ele parece brincar com nossos sentimentos, nos insere tão bem naquele ambiente, fazemos parte daquele sanatório, rimos com seu humor, que surge de situações tão naturais, ainda que tudo seja extremamente insano, diverte fácil com seus carismáticos personagens. No entanto, ainda que o brilhante roteiro construa tão bem este ambiente amigável, não nos impede de sentir uma constante dor por todos eles, por cada situação, pela trajetória de McMurphy e esta noção distorcida que todos tem sobre liberdade. É bem curioso o instante em que o protagonista descobre que os internos estão lá por opção e começa a instigá-los a fugir, a buscar a liberdade que ele acredita ter alcançado, a de ser são e poder agir como um louco. E ainda que alguns pacientes estejam lá por opção, precisam seguir às regras, precisam compreender o que é ser normal, ou o que seus superiores dizem o que é ser normal, é então surge este anti-herói, que passa a ser a voz, o líder, que passa a ser os olhos e a mente, que passa a ser o caos no meio da ordem.



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Vencedor do Oscar por sua atuação, Jack Nicholson está simplesmente irretocável como protagonista, é difícil imaginar outro ator a compor Randle, todas as nuances de seu personagem, aquela loucura, o humor, a irreverência e o carisma, com certeza, um dos melhores momentos de Nicholson no cinema. Entre os coadjuvantes vemos rostos, hoje conhecidos, mas na época estavam em começo de carreira como Danny Devito e Christopher Lloyd. Destaque para a grandiosa atuação de Brad Dourif, que interpreta Billy e Louise Fletcher, que entrega uma performance de peso, consegue ao mesmo tempo ser tão sóbria, tão calma e ainda possuir um ar um tanto quanto enigmático, maligno. Não posso deixar de citar o personagem Chief, interpretado por Will Sampson, onde sua relação com McMurphy, marca um dos grandes momentos do filme. Uma curiosidade sobre o elenco é que parte dos figurantes realmente tinham problemas mentais, acentuando ainda mais o realismo das cenas.

"Agora, dizem que sou louco...porque não agi como vegetal. Não faz o menor sentido. 
Se isso é ser louco... então, sou doido, maluco, pirado. Nem mais, nem menos."

Com um roteiro cuidadoso e muito bem escrito em mãos, Milos Formam realiza um filme magnífico, repleto de sequências memoráveis, que vão de cenas leves e descompromissadas que garantem o riso do público até cenas impactantes, que nos emocionam profundamente, e somente um grande diretor para dosar tudo isso tão bem. O longa ainda conta com uma excelente trilha sonora, composta por Jack Nitzsche. Acredito que o que faz de "O Estranho no Ninho" ser tão emocionante é por este conceito de liberdade que relata, tão próximo ao que temos no nosso dia-a-dia, e por isso, talvez, que a obra sobreviveu ao tempo. É sobre esta noção falsa que temos de ser livres, onde vivemos num mundo onde escolhemos nossos rumos, nossos empregos, nossos pertences, sem nos darmos conta de que estamos seguindo uma ordem "superior", uma trajetória já predestinada, estamos seguindo esta normalidade, este padrão. Para quem ainda não viu, vale uma conferida. Recomendo.

NOTA: 9,5





País de origem: EUA
Duração: 133 minutos
Elenco: Jack Nicholson, Brad Dourif, Louise Fletcher, Danny DeVito, Christopher Lloyd, Will Sampson
Diretor: Milos Forman
Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman

10 comentários:

  1. vi ontem este filme, e tive a mesma sensação..porque demorei tanto pra ve-lo.
    excelente e merecido oscar de melhor filme

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    1. Com certeza, Oscar mais que merecido. E...valeu pelo comentário!

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  2. Vi ontem em minha faculdade e eu neste momento me indago " Por que demorei tanto para ver um filme como esse ? " o mesmo proporciona emoções como alegria, tristeza e um sentimento de revolta devido a forma rígida de como os pacientes são tratados e conduzidos. Filme ÉPICO por isso digno de oscar.

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    1. Matheus, também demorei muito pra ver este filme e sinto que deveria ter visto muito antes também. Como você disse, é épico e com certeza, merece ser apreciado. Obrigado pelo comentário.

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  3. 9,5?... rsrs (o que seria um 10????)

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  4. Para mim é 10 com louvor. Maravilhoso filmes, atuações, planos, trilha, excelente!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Só achei o destaque sobre a frase de "não agir como vegetal" um pouco fora de contexto, afinal ele diz isso como justificativa por ter estuprado uma menor de idade. Aliás, vendo com os olhos de hoje, o jeito com que retrataram as amigas do Randle me incomodou um pouco. Foi aquele caso de "mulheres bobas", que servem para entreter os homens. O que elas fazem é basicamente servir de diversão na festa, inclusive transam com os homens simplesmente porque o Randle mandou. Mas vale como um ponto curioso para analisar como a discussão do papel das mulheres no cinema evoluiu de lá pra cá.

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  8. ótima atuação de jack nicholson. Recomendo Easy Rider, ótimo filme que também conta com ele no elenco.

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