quinta-feira, 7 de maio de 2015

Crítica: Ponte Aérea (2015)

Quando o amor não é o suficiente.

por Fernando Labanca

Dirigido por Julia Rezende, "Ponte Aérea" coloca, mais uma vez, em discussão, os relacionamentos à longa distância. De longe, até parece muito do que já vimos em outros filmes, entretanto, felizmente, este filme nacional, se supera, provando uma maturidade e inteligência rara quando pensamos em comédias românticas. Traz em cena, argumentos relevantes sobre as relações modernas, construindo, aos poucos, uma trama singela, realista e sutilmente emocionante.

Amanda (Letícia Colin) é uma publicitária extremamente dedicada ao trabalho. Bruno (Caio Blat), um artista plástico talentoso, que não sabe muito bem o que fazer da vida. Ela, de São Paulo. Ele, do Rio de Janeiro. Quando um voo tem seu percurso desviado, devido a uma forte tempestade, todos os passageiros são colocados, temporariamente, em um hotel. É lá que eles se conhecem, nesta brecha de tempo e espaço, passam a noite juntos por puro impulso, mas ao amanhecer, cada um segue com sua vida. No entanto, assim que Bruno chega em São Paulo, cidade que é obrigado a visitar frequentemente por causa da internação de seu pai, resolve procurá-la. E de pequenos e rápidos encontros, eles tentam construir uma relação. Entretanto, quanto mais se conhecem, mais conhecem os defeitos um do outro, é então que a longa distância passa a ser o menor dos problemas entre o casal.


São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo que duas cidades, relativamente, tão próximas, são extremamente distintas e "Ponte Aérea" traz beleza à elas, cada uma a seu modo, ainda para isso traga alguns conceitos batidos como o fato da mocinha ser workaholic enquanto que o cara é um artista que não tem a noção do próprio talento. Por trás das caricaturas, porém, tem boas intenções e sabe brincar bem com o que tem mãos, retrata de forma interessante essas diferenças culturais, acentuando, claro, as incompatibilidades entre o casal principal. Aliás, este é um dos grandes acertos da obra, Amanda e Bruno são dois seres que vivem em universos distintos e cada um segue com suas próprias prioridades, e o mais curioso do roteiro é justamente o fato de que o amor parece que nunca é prioridade, parece que sempre é difícil um estar ao lado do outro, e não por estarem em cidades distantes, mas principalmente pelo fato de que cada um vive seu próprio mundo, tão preso a ele, tão resistente a qualquer invasão ou a qualquer contato que os faça desestabilizar. São dois seres sem sintonia, que amam, que dividem gostos em comum, mas nunca são capazes de dar o mesmo passo, ao mesmo tempo. É então que vejo o quanto o filme tem a dizer e quanto ele é belo e incrivelmente inteligente ao retratar com tanta verdade essa teoria de que amor é muito mais do que palavras ou qualquer outro conceito barato que já tenhamos ouvido sobre, de que relações necessitam mais para sobreviver, necessitam dessa sintonia, desta dedicação, compromisso. Como foi bom ver um filme nacional ser aquele a dizer tudo isso.

"Ponte Aérea" é um pouco também sobre este amor de consumo, deste amor exposto numa vitrine que cada um usa como pretende e descarta quando cansa. O longa traz um tom melancólico sobre essas novas relações, chega a ser frio o modo como Amanda trata Bruno em certos momentos, até incomoda e em diversos momentos nos perguntamos: Que tipo de amor é esse? É o tipo de amor vindo de uma sociedade que tem medo da solidão, que de tanto medo prefere não se apegar. O casal retratado é tão real, tão cheio de falhas, e é isso que o difere de qualquer outro filme sobre o tema, por colocar na tela seres que existem, com todas suas desilusões e receios. É belo o instante em que Amanda compreende, enfim, o que Bruno significa para ela e é neste momento em que ela surta, colocando o longa em seu ápice. A cena em que eles, finalmente, brigam e dizem o que sente é tão humana e por isso é tão forte, são diálogos possíveis de uma relação possível. Caio Blat e Letícia Colin realizam um trabalho admirável, simplesmente adorável tudo o que fizeram em cena, há química, logo, tudo funciona, nos entregando inúmeros bons momentos, de descontração, conversas jogadas fora e conflitos muito bem delineados. Tudo isso somado à ótimos diálogos e uma trilha sonora das boas.

Mais um excelente filme que prova o quão longe o cinema nacional é capaz de ir. Produção caprichadíssima, direção segura e um roteiro extremamente bem construído. Que incrível ver uma obra deste nível, Julia Rezende fez um bem enorme ao nosso cinema e um bem ao gênero também. Claro, também tem suas falhas, como o excesso desnecessário de nudez e subtramas que até acrescentam, mas não possuem a mesma força que a história central. No entanto, com certeza, merece um espaço na memória daquele que assiste, é um longa que surpreende por todas as suas escolhas, tem aquela honestidade que choca, é maduro, inteligente e muito realista ao falar sobre os seres humanos, mas ao mesmo tempo é extremamente cativante, é cool e delicioso de ver, chegando ao belíssimo e corajoso final, que felizmente, só prova tudo o que disse anteriormente. E tem uma apaixonante e estonteante Letícia Colin em cena, e por ela já vale o ingresso. Excelente. Recomendo!

NOTA: 9





País de origem: Brasil
Duração: 100 minutos
Distribuidor: Paris Filmes
Elenco: Letícia Colin, Caio Blat, Emílio de Mello, Sílvio Guindane, Felipe Camargo, Martha Nowill
Diretor: Julia Rezende
Roteiro: Julia Rezende


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