quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Crítica: O Regresso (The Revenant, 2015)

O filme com maior número de indicações ao Oscar deste ano, "O Regresso" é o breve e surpreendente retorno de Alejandro González Iñárritu, em uma obra marcada por sua belíssima filmagem e pela irretocável atuação de Leonardo DiCaprio.

por Fernando Labanca

Digo breve retorno pelo fato de que faz pouco tempo que fomos presenteados com "Birdman", último trabalho do diretor mexicano. É estranho pensar que ele tenha conquistado a proeza de entregar duas obras tão complexas em um período tão curto, aliás, quase nunca um diretor entregou dois filmes favoritos ao Oscar em dois anos seguidos. E em seu retorno, Iñárritu oferece mais um trabalho grandioso, com inúmeras dificuldades e por isso é tão fascinante poder assistir "O Regresso" nos cinemas, seja pelo som, pelos incríveis efeitos visuais e principalmente pela qualidade das imagens, surreais de tão belas. Acredito que desde "A Árvore da Vida" de Terrence Malick não via um filme visualmente tão incrível quanto. Curiosamente, o diretor de fotografia é o mesmo, Emmanuel Lubezki, com quem Alejandro já havia trabalhado em "Birdman". Por coincidência ou não, por inspiração ou não, vemos na tela muitas características de Malick também, principalmente de seu filme "O Novo Mundo", de 2005. Toda sua produção remete à obra, desde as paisagens, os figurinos, à toda a composição deste universo, deste encontro do homem com a natureza, do personagem que se infiltra para viver com os nativos, da paixão que nasce ali. Ele ainda resgata do cineasta norte-americano este estado de contemplação, neste cinema que encontra beleza em tudo aquilo que é natural e nos deixa a vontade, observando e admirando tudo o que nos vem pela frente.


Por mais absurdo que tudo possa parecer, temos aqui uma trama baseada em fatos reais. Somos levados ao ano de 1822, no oeste americano, quando um grupo de exploradores são atacados pelos nativos do local, enquanto buscavam por peles de animais. Depois da fuga, esses homens tentam retornar para casa, até que Hugh Glass (DiCaprio) é atacado por um urso, o deixando gravemente ferido e incapacitado de caminhar. É então que o líder (Domhnall Gleeson), entrega à John Fitzgerald (Tom Hardy) a função de cuidar do corpo, enquanto o restante retorna. John, porém, o abandona, acreditando que ele jamais sobreviveria. Apesar das adversidades, Hugh sobrevive e parte em busca de sua vingança contra aquele que o largou para morrer.

A mão de Emmanuel "Chivo" Lubezki, como diretor de fotografia, faz toda a diferença aqui. Filmado no norte do Canadá, ele conseguiu captar as imagens da obra inteiramente com luz natural, sem qualquer artifício de iluminação. Não consigo nem imaginar a tamanha dificuldade que todos da produção tiveram devido a isto, mas o importante é que o esforço, definitivamente, valeu a pena. Quando olhamos para a tela conseguimos identificar essa natural beleza de seu cenário, é cru, é real e tudo isso é indescritível. É muito raro ver um cinema dessa magnitude, grandioso e que ainda se preocupa nas sensações que vai despertar, que se preocupa se aquilo vai parecer falso ou não. É muito bom ver um filme deste tamanho e não identificar o chroma key, compreender que atores estão ali, vivendo aquelas situações e em locais existentes. Sim, Alejandro González Iñárritu é extremamente pretensioso e sinceramente, que bom que ele é, caso contrário, talvez nenhum outro diretor tivesse a coragem que ele teve. Coragem que, mesmo com tantas dificuldades de filmagem, consegue ainda trabalhar com seu já conhecido plano sequência e é de deixar o queixo caído. É fantástico, brilhante.

"O Regresso" não é um filme fácil de assistir. São quase três horas e um ritmo lento, é preciso ter uma certa disposição e estar com o psicológico preparado. Devo confessar que me cansou em algumas partes e comecei a desejar internamente para que ele acelerasse um pouco mais, até porque boa parte dele fica muito na mesma que no caso é, Leonardo DiCaprio sofrendo. Há um esforço muito grande do roteiro em nos mostrar o quanto ele sofre e quando pensamos que está acabando, ele sofre mais pouco. Por isso, apesar da excelente técnica, também vi uma obra massante, exaustiva, que tem sim seus grandes momentos, principalmente em seu final, mas é uma jornada árdua para o público chegar até lá. DiCaprio, por sua vez, entrega uma performance magnífica, é um papel difícil e ele encara com tanta força, tanta garra, chega a ser comovente assistir sua entrega. Seu elenco coadjuvante é dos bons também, Tom Hardy surpreende e marca um dos melhores momentos em sua carreira e o jovem Domhnall Gleeson precisa urgentemente descansar, porque não é possível em tão pouco tempo ele fazer tantos filmes bons e ainda por cima atuar bem. Outro destaque da produção é sua trilha sonora, assinado por Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, em parceria com o músico Bryce Dessner, guitarrista e compositor da banda The National. O trio realiza um trabalho bastante original e interessante, que funciona bem com as sequências.

Você poderá pausar "The Revenant" em qualquer segundo, aleatoriamente, e verá algo. Apesar da tensão e do incômodo causado pela jornada de Hugh Glass, vi um belo filme em todos os sentidos. Sim, a fantástica fotografia lhe entregará um frame mais sensacional que o outro, é lindo de ver e como consequência, sua beleza nos alcança, nos toca. Eu senti paz, porque apesar da violência e da história nos mostrar que no fundo todos os seres são selvagens, Iñárritu aproveita este gancho e revela aquilo que o homem, mesmo que com sua capacidade de destruição, ainda não destruiu do mundo. É tudo aquilo intocado, que permaneceu belo, naturalmente. Eu senti paz porque eu vi a beleza, a real beleza das coisas, a imensurável beleza do mundo, em sua mais pura essência.

NOTA: 8




País de origem: EUA
Duração: 156 minutos
Distribuidor: Fox Filmes
Diretor: Alejandro G. Iñárritu
Roteiro: Alejandro G. Iñárritu, Mark L.Smith
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter





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