quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Crítica: O Menino e o Mundo

Os males do mundo sobre o olhar de um menino.

por Fernando Labanca

A surpreendente indicação ao Oscar de Melhor Animação deu uma grande visibilidade para o longa nacional "O Menino e o Mundo", dirigido por Alê Abreu, inclusive aqui no Brasil, no qual muitas pessoas desconheciam sua existência. Desde que lançou em 2014, tive uma imensa curiosidade por vê-lo, mas infelizmente, assim como muitos produtos de qualidade do nosso cinema, foi mal divulgado e mal distribuído dentro do próprio país, impossibilitando esta descoberta. Irônico então, precisarmos de uma premiação internacional para nos revelar esta pérola.

O filme narra a trajetória de um garoto, que mora em uma pequena casa no campo com seus pais. A fome e a miséria estão ali presentes e diante da esperança de encontrar uma vida melhor, seu pai vai à cidade grande em busca de trabalho. Não lidando bem com esta situação, o menino faz sua mala e embarca em direção a este mundo desconhecido, pare ver o pai, para entender o que não entende. Em sua jornada, acaba encontrando alguns seres tristes, que vivem numa sociedade decadente e desigual.


Apesar da simplicidade da técnica, "O Menino e o Mundo" é uma filme grandioso, que diz muito mesmo quando opta pelo silêncio, que consegue durante seus poucos minutos fazer um relato melancólico sobre o nosso modo de vida, sobre nosso país. É mais uma daquelas animações que pode até despertar o interesse dos menores pelas cores e sons, mas nitidamente é um produto que atinge de forma mais completa e mais profunda os adultos. Vemos uma obra muito delicada e bastante sensível, em todos os sentidos, que desperta em nós diversos sentimentos, que entristece mas que, ao mesmo tempo, faz bem para a alma.

Recentemente premiado no Annie Awards na categoria "Melhor Animação Independente", temos, sem dúvidas, uma animação muito bem realizada, que merece todo este destaque. Seus belos traços remetem justamente este trabalho feito por uma criança, com lápis de cor, giz de cera e alguns recortes com colagens sobrepostas. Esta sua técnica é muito condizente com seu universo, sugere esta simplicidade e ingenuidade do menino, enaltecendo esta ideia de que o que vemos nada mais é que sua perspectiva, o modo como ele encara esse mundo, onde seus tons alegres, ironicamente, constroem um contorno lúdico sobre estes espaços contemporâneos degradados. Outro grande destaque da produção, sem dúvidas, é sua trilha sonora. Fiquei fascinado pelo trabalho deles, que ainda conta com umas parcerias interessantes como a do rapper Emicida que dá voz à canção tema. É também, muito incrível o modo como os sons e as canções se fundem nas cenas, e como as cores e texturas dialogam bem com aquilo que ouvimos. Um primor visual e sonoro. 

"O Menino e o Mundo" traz uma visão bastante melancólica sobre estar vivo, sobre ser criança e ter que encarar uma sociedade sem perspectiva, sobre crescer onde não parece haver futuro. E apesar da beleza das cenas e deste encanto que nos desperta, o filme acaba que entregando algumas sequências fortes principalmente quando a imaginação dá lugar ao realismo, ainda que fantasioso e propositalmente distorcido - não identificando em nenhum momento a língua e o local representado - sabemos sobre o que ele fala e aquilo nos toca, nos deixa reflexivos. Enfim, um trabalho rico de ideias, de uma sensibilidade e de uma beleza pura.

NOTA: 8,5





País de origem: Brasil
Duração:79 minutos
Distribuidor: Espaço Filmes
Diretor: Alê Abreu
Roteiro: Alê Abreu


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