quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Crítica: Filho de Saul (Saul Fia, 2015)

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e vencedor do Grande Prêmio no último Festival de Cannes, "Filho de Saul" é um dos melhores filmes revelados pela Academia este ano e já é um dos possíveis candidatos a ser um dos melhores lançados em 2016.

por Fernando Labanca

Em um campo de concentração, Saul (Géza Röhrig) é um judeu obrigado a trabalhar para os nazistas durante alguns meses antes de sua execução, fazendo parte do conhecido Sonderkommando. Nomeado entre tantos, sua função é limpar as câmeras de gás após a morte de outros judeus. No meio de sua rotina de trabalho, identifica entre tantos corpos, o de seu filho, que estava separado para a realização de uma autópsia. Se aproveitando de sua posição e indo contra seus próprios companheiros, Saul decide enfrentar a tensão e as dificuldades de estar ali, desafiando o controle de seus superiores para encontrar um bispo no meio do caos, para enfim dar a seu filho um enterro digno.

Foi uma das experiências mais interessantes que tive nos cinemas neste começo de ano e por isso, fico feliz por ter dado uma chance ao filme. Seu grande diferencial e o que o faz ser este incrível evento é sua composição. Com uma câmera que não abandona seu protagonista nem por um segundo, acompanhamos sua jornada como se estivéssemos ali, na loucura de sua rotina, na agressividade sem pausa de suas ações. É chocante, doloroso e profundamente intenso vivenciar tudo aquilo, ainda que o diretor opte por desfocar grande parte de nossa visão. Esta decisão de não mostrar tão explicitamente seu cenário se justifica quando temos um personagem central que aparentemente já está anestesiado do sofrimento, age em um estranho automatismo, como se não mais enxergasse aquilo, como se a crueldade não tivesse mais efeito.



O Holocausto já foi tema de muitas obras e é sempre muito delicado fazer um relato sobre o acontecimento. Fazia tempo, porém, que um filme não proporcionava o que "Filho de Saul" proporcionou. O diretor húngaro László Nemes surpreende principalmente por este ser apenas seu primeiro longa-metragem e é brilhante sua audácia, sua coragem e sua originalidade em compor este eletrizante drama. Ele consegue imprimir na tela um estado de urgência e crueldade extremamente real, oferecendo, como consequência, uma sensação de desproteção e de vulnerabilidade muito grande, ele reconstrói o inferno, redefine o que é sentir medo. Não é exagero dizer que fiquei sem respiração, fiquei tenso da primeira à última cena, me senti trêmulo, sufocado. O formato quadrado que limita ainda mais nosso olhar, enaltece essa sensação de confinamento, de claustrofobia e nos deixa ainda mais inseguros sobre o que está por vir. A ausência de trilha sonora é outra grande sacada da produção, provando que é possível criar uma obra excitante sem apelação, sem induzir o que seu público deve sentir.

A trama é bem interessante também, nos prende e ficamos ali tentando decifrar a mente do protagonista, o porquê de suas ações. Saul, por sua vez, é um grande personagem. É triste este seu árduo percurso, traz algo pesado, incômodo, mas ao mesmo tempo, é compreensível tudo o que ele faz. Não é sobre o filho, o enterro, a morte, é sobre a vida, sobre a busca por um sentido no meio do caos, a busca por uma razão de estar ali, uma razão para seguir adiante. Neste sentido, "Filho de Saul" não poderia ter entregue um final melhor, que nos deixa em estado de êxtase, impactados por tudo o que vimos até ali. Uma experiência fantástica, única! Vencendo ou não o Oscar, um grande filme, um dos meus favoritos da premiação deste ano.

NOTA: 9,5




País de origem: Hungria
Duração: 107 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Lászlá Nemes
Roteiro: Lászlá Nemes
Elenco: Géza Röhrig

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