sexta-feira, 26 de abril de 2013

Crítica: Mama (Mama, 2013)

Apesar de "Hellboy" ser seu projeto mais conhecido, o diretor Guillermo del Toro sempre se mostrou admirador do terror fantasioso, prova disso são os ótimos "A Espinha do Diabo" (2001) e "O Labirinto do Fauno" (2006). Nos últimos anos, porém, ele tem se vinculado ao gênero apenas como produtor, realizando filmes como o excelente "O Orfanato" e agora "Mama", que tem na direção o mexicano Andres Muschietti. Baseado no curta-metragem realizado em 2008 pelo próprio diretor, o filme é uma boa escolha pra quem procura um filme de terror, uma obra que vai além do que simplesmente dar sustos.

por Fernando Labanca

Um surto de suicídios acaba afetando uma família, onde o pai, após matar a esposa decide sequestrar suas duas filhas pequenas, Lilly e Victoria, e depois de sofrer um acidente de carro no meio do percurso, todos vão parar em uma cabana abandonada em uma floresta. Ele se mata em seguida, deixando as duas sozinhas, isso era o que todos achavam. Alguns anos depois, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau), tio das meninas recebe a notícia de que elas foram finalmente encontradas, ainda crianças (Megan Charpentier e Isabelle Nelisse), as duas se adaptaram ao meio em que viveram nesse tempo, com comportamento assustadoramente selvagem. Elas são levadas para casa de Lucas e sua namorada, Annabel (Jessica Chastain), um casal que sempre fugiu de grandes responsabilidades, mas que agora tem a difícil missão de trazê-las novamente ao "mundo real". Entretanto, as duas afirmam que durante este tempo na floresta não estavam sozinhas, recebiam o cuidado de uma força sobrenatural, que elas denominavam de "Mama", o que o casal não esperava era que esta criatura não abandonara as meninas e que ela estaria presente a todo instante, em cada canto da nova casa.


"Era uma vez...". Assim começa "Mama", que acaba nos alertando de que mais do que um filme de terror, estamos prestes a ver uma história de fantasia, o filme de Andres Muschietti é uma espécie de conto, aqueles que ouvimos quando crianças, aquele terror que tememos mas ainda assim queremos ouvir até o final. Com seu visual gótico, "Mama" tem nitidamente o selo "Guillermo Del Toro", remetendo e muito às obras "O Orfanato" e "A Espinha do Diabo". Porém, para quem espera ver um terror mais "pé no chão" pode acabar se surpreendendo de um jeito negativo, o filme apela para situações bem forçadas e fantasiosas, seja as respostas que aparecem em sonhos ou até mesmo a criatura que dá nome à obra. É, portanto, preciso compreender de que não se trata de um filme convencional de terror, tem lá sua liberdade narrativa e que foge e muito do que se tem sido feito ultimamente, a meu ver, é um grande acerto, que apesar dos inúmeros clichês como as crianças que desenham ou os adultos que decidem resolver os mistérios numa cabana abandonada na floresta no meio da noite, "Mama" ganha muitos pontos não por ser diferente, porque não é, mas por ter a ousadia de ir além do que outros filmes do gênero costumam ir, mais do que apenas dar sustos, que aliás, a boa condução do diretor faz isso com maestria, mas por conseguir, no mínimo, contar uma história (o que já é muito para o gênero), há bons personagens, as crianças são bem desenvolvidas, há um fundo psicológico bem pensado na construção de cada uma delas e que interferem no desenvolver da trama e um final que vai além do "paramos neste ponto, sem resolver nada porque queremos fazer uma sequência".

Quando li que Jessica Chastain estava fazendo um filme de terror fiquei bem com o pé atrás, parecia muito arriscado para sua carreira, excelente carreira, aliás. Ao vê-la em cena compreendi que não fora um erro, ela sabia muito bem o que estava fazendo e fez muito bem, de pequena coadjuvante das primeiras cenas, a atriz faz com que Annabel cresça e cumpra bem o papel de protagonista, longe de ser a adulta tola que só faz merda, finalmente nos deparamos com uma personagem corajosa. É interessante a relação dela com as garotas, onde ela abandona sua banda de rock para ser praticamente a mãe, precisa aceitar as condições das meninas, é belo seu crescimento, assim como é de Victoria e Lilly, divididas entre o amor de uma estranha e de um ser monstruoso. Aliás, é simplesmente surpreendente a atuação das pequenas atrizes, se entregam com muita garra e muito esforço, excelente trabalho, admirável. 

Andres Muschietti acerta também em seu visual, da belíssima fotografia, o diretor abusa de bons recursos gráficos para diferenciar cada passagem, criando mais do que um incrível show de suspense, um filme visualmente impecável. O roteiro é outro aspecto que funciona bem, nos prende a atenção, a tensão é permanente durante toda a sessão, e a curiosidade de compreender as coisas nos faz ficar de olhos abertos mesmo quando não queremos. O diretor soube e muito bem brincar com as sensações do público, trazendo momentos eletrizantes, outros de terror extremo, como há muito não se via, não de forma tão interessante e tão bem realizada. Admito que nunca fui fã do estilo mas "Mama" me conquistou, mesmo com seus erros, com seus clichês e a maneira um pouco raza com que alguns conflitos são resolvidos, é certamente algo que recomendarei. Numa época em que terror é sinônimo de vômitos, sangue jorrando na tela e corpos torturados, "Mama" é o retorno do que há de melhor no gênero.

NOTA: 8




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