quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crítica: Frank (2014)

"Frank" é um daqueles filmes independentes um tanto quanto especiais, que instiga por toda sua estranheza e excentricidade, ao mesmo tempo em que encanta por todos os seus sentimentos, que diverte, que inspira e nos faz querer viver um pouco da loucura que oferece.

por Fernando Labanca

Levemente baseado no personagem Frank Sidebottom, criado pelo músico e comediante Chris Sievey. A trama foca na jornada de Jon (Domhnall Gleeson), um aspirante tecladista que escreve suas próprias canções, porém, enfrenta um bloqueio criativo no qual não consegue se ver livre. Eis que se depara com a banda The Soronprfbs, um grupo bastante alternativo que iria se apresentar em sua cidade mas acaba perdendo, coincidentemente, o tecladista, devido ao surto que teve, e sem muitas opções, resolvem colocam Jon no lugar. Ansioso por fazer exatamente o que sempre sonhou, ele ainda aceita participar de uma viagem para Irlanda, ao lado dos desconhecidos, para que pudessem gravar um álbum. E deste inesperado contato, Jon se vê cada vez mais fascinado por aquele universo, pela loucura e excentricidade dos membros da banda, principalmente por Frank, o vocalista, que usa uma cabeça grande de papel machê e não a tira por nada, e com seu jeito estranhamente amigável, ele busca extrair o que há de mais louco em cada um, os inspirando na criação de suas músicas.


Frank é um dos personagens mais estranhos que tive a chance de ver nos últimos tempos. E isso é muito bom, é o que torna a obra tão marcante. É difícil definí-lo, compreendê-lo, e essas curiosidades que o roteiro acaba construindo sobre ele, sobre o porquê de usar uma máscara, sobre o porquê viver da forma como vive é o que nos instiga e é o que instiga Jon. Por isso é tão fácil mergulhar nas insanidades deste filme, porque, assim, como o protagonista, queremos ver o mundo através dos olhos de Frank, entender como ele vê, sentir o que ele sente. É divertido ao mesmo tempo em que é bizarro a jornada de Jon ao lado dos membros da banda, toda aquela busca por inspiração, por criação, é tudo tão intenso, nos faz sentir tantas coisas, nos faz ficar  ali, observando com uma expressão de "wtf?". A obra impressiona justamente por este alto nível de abstração, por quebrar de forma tão espontânea a normalidade, como quando Frank descreve como vê a face humana, chegando a conclusão de que rostos normais, sem uma máscara, também são estranhos. Jon, por sua vez, também é um personagem intrigante, que procura vender, através de seus tweets, uma vida incrível que não tem, é quando o roteiro, sabiamente, faz uma crítica sobre este ilusório sucesso criado pelas redes sociais, nos fazendo refletir sobre quem realmente são as pessoas que nos seguem. A grande beleza de "Frank" está nesta fuga de paradigmas, sobre essas pessoas incríveis que preferem viver o mundo delas, aquele universo recluso onde somente permanecem aqueles que compreendem suas loucuras, que renegam o sucesso e tudo aquilo que um dia alguém definiu sobre amor, felicidade, buscando sempre aquilo que os completam, verdadeiramente.

Michael Fassbender havia demonstrado interesse no papel de Frank e foi atrás para que pudesse interpretá-lo. É nítido nas cenas o quanto ele queria isso, é uma entrega total e intensa, ainda que exista algo de muito perturbador e enigmático em seu personagem, há também algo de fraterno, compreensível e solidário e que Fassbender soube muito bem como encontrar o tom de tudo isso, de todas essas nuances, de toda essa complexidade. Domhnall Gleeson é uma revelação e tem escolhido muito bem seus filmes, e este marca mais um ótimo momento em sua carreira. E somente uma atriz com o potencial de Maggie Gyllenhaal poderia dar vida a uma personagem como Clara, uma das integrantes da banda, com poucos diálogos, são seus olhos que falam, e como falam! É belíssimo a composição da atriz, que se destaca em cena. A interação entre o elenco funciona muito bem e essas relações que nascem no decorrer da trama é que acaba trazendo as grandes surpresas da obra, nunca sabemos o que cada um é capaz de fazer, suas reais intenções e desejos.

Digo que "Frank" é uma obra especial pelo turbilhão de emoções que ela nos faz sentir. A cena final sintetiza muito bem o que quero dizer, aquele jogo de olhares, tristes e tão compreensíveis, enquanto cantam suas canções improvisadas. É difícil dizer o que existe ali, é difícil encontrar um sentido para todo aquele caos e loucura, o filme nos entrega sensações, e a partir do momento em que você se permite mergulhar no que ele propõe, no que ele oferece, digo que será uma experiência instigante, confusa, mas ainda assim, extremamente gratificante e sentimental. Além de tudo isso, existe um filme bem-humorado, que diverte, trazendo ainda, boas canções cantadas pelo próprio elenco. Uma obra excêntrica, original e extremamente inspiradora. Recomendo.

NOTA: 9,5



País de origem: Reino Unido, Irlanda, EUA
Duração: 95 minutos
Distribuidor: Europa Filmes
Diretor: Lenny Abrahamson
Roteiro: Jon Ronson, Peter Straughan
Elenco: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scott McNairy, François Civil



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