quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crítica: Cake - Uma Razão Para Viver (Cake, 2015)


Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Atriz - Drama, "Cake" é uma grande chance para Jennifer Aniston, que depois de tantos anos se dedicando à comédia, se entrega com força neste papel intenso, que não só confirma seu inegável talento como também prova o quão longe ela é capaz de ir.

por Fernando Labanca

"Cake" é um filme que me surpreendeu bastante. Já esperava uma boa atuação de Aniston, mas pelo trailer me pareceu mais uma daquelas dramédias do Festival de Sundance, onde todos os problemas são resolvidos com bom humor. Não, bem diferente disso, o longa é um drama pesado, que discute assuntos delicados como o suicídio, sem jamais apelar ou cair no dramalhão, por outro lado, sem nunca procurar caminhos fáceis para seus personagens. Acompanhamos o caminho árduo de sua protagonista, Claire Bennett, que parece estar o tempo todo no fundo do poço, não há chances para ela, o que torna seus minutos em instantes dolorosos. Chega a ser claustrofóbico ver o mundo por sua perspectiva, ela é a personificação da dor, de uma mulher que perdeu demais na vida e não sabe como se reerguer, e se não fosse o bastante, sua dor também é física, mal consegue se locomover e possui uma pele cheia de cicatrizes. O que, de fato, aconteceu com ela é o mistério que move a obra.

Claire Bennett (Aniston) vive em uma casa enorme, pouco tem contato com seu marido (Chris Messina), que não vive mais ali, logo, dividindo seu espaço, unicamente, com sua empregada mexicana Silvana (Adiana Barraza), extremamente paciente e cuidadosa, que tenta, diariamente, lidar com a personalidade difícil de Claire, enfrentando, ao lado dela, esta fase complicada de sua vida. Solitária e com fortes dores no corpo, ela participa de um grupo de apoio para conseguir superar tudo o que perdeu, entretanto, assim que uma das participantes do grupo, Nina (Anna Kendrick), se suicida, a ideia de morte começa a assombrar sua mente. Curiosa com o acontecimento, decide ir atrás da família de Nina, conhecendo, assim, seu marido, Roy (Sam Worthington) e seu pequeno filho. É deste pequeno encontro, que Claire passa a refletir sobre suas atitudes e sobre o que a faz querer viver.



É bastante interessante este caminho percorrido pela protagonista, não é óbvio, e como disse anteriormente, o roteiro não facilita para ela, é uma trajetória dolorosa e escrita com bastante honestidade e uma boa dose de comoção. Claire é uma daquelas personagens que jamais causa empatia, não foi escrita para torcerem ou sofrerem com ela, em certos momentos, é até odiável. É então que o roteiro acerta e muito ao não revelar, de cara, tudo o que move a personagem, o que ela exatamente perdeu e o que a faz sofrer tanto, de onde vem este ódio e esta vida tão miserável que resolveu viver. O que o torna ainda mais interessante é o fato de que este "mistério" não é segurado para dar uma reviravolta ou trazer uma grande surpresa ao final, pois não é, é tudo muito simples e sem muitos impactos, no entanto, esta é a real força de "Cake", tudo flui naturalmente e quando menos esperamos já estamos dentro da vida de Claire, e de certa forma, a compreendemos. Ótimo, também, é seu envolvimento com os outros personagens, sua relação com Silvana e Roy engrandecem o filme, justamente por serem dois seres que também nos enganam, que ao fugirem dos clichês, acabam surpreendendo. Por outro lado, o grande erro do longa é a presença de Nina, interpretada por Anna Kendrick. Gosto muito da atriz, mas é tão surreal e tão bizarro suas aparições que quebra o ritmo da trama e suas intenções. Outro pecado da obra é em sua primeira parte, onde numa repetição de situações desnecessárias, cansa e não leva a história para canto algum, como as visões da protagonista. 

Imaginei que seria um bom momento de Jennifer Aniston na tela, mas confesso que não esperava uma mudança tão drástica. Com rosto lavado e uma interpretação digna de prêmios, é ela o maior acerto de "Cake". Aniston foi muito além do que sair da zona de conforto, ela entendeu o impacto que isso teria em sua carreira e encarou de frente, este que é um papel tão difícil e que requer um esforço não apenas emocional, mas físico. Não poderia, também, não citar a belíssima atuação de Adriana Barraza, muito bom tudo o que ela faz em cena, sua naturalidade é impressionante. A trilha sonora marca mais um ponto para a produção, a composição assinada por Christophe Beck - que também costuma trabalhar com filmes de comédia -  encontra o tom certo e entra em cena nos momentos ideais. Enfim, são muitos acertos, uma obra que me surpreendeu bastante, foi muito mais forte e mais intenso do que eu esperava e isso foi bom, me emocionei diante desta irretocável presença de Aniston e diante desta trama, tão crua, tão delicada e sutilmente inspiradora. E quanto ao "Cake" do título, é mais um das pequenas surpresas que o filme nos guarda, simples mas escrita com tanto afeto que é impossível não se emocionar. Recomendo.

NOTA: 8



País de origem: EUA
Duração: 102 minutos
Distribuidor: California Filmes
Diretor: Daniel Barnz
Roteiro: Patrick Tobin
Elenco: Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Sam Worthington, Anna Kendrick, Mamie Gummer, Felicity Huffman, William H.Macy, Chris Messina, Britt Robertson




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