quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crítica: The Beach Boys - Uma História de Sucesso (Love and Mercy, 2015)

Bem diferente do que denuncia este preguiçoso título nacional, "Love & Mercy" relata o lado oculto além da conhecida jornada de sucesso da banda The Beach Boys, focando na conturbada mente de seu criador, Brian Wilson e em como ele viveu durante anos entre o limite da genialidade e a insanidade.

por Fernando Labanca

Cinebiografias tem o poder de revelar a vida por trás daqueles que conhecemos apenas através dos holofotes. É sempre interessante ter a chance de conhecer o lado de uma carreira que desconhecíamos e sinto, no entanto, que "Love & Mercy" leva esta máxima a outro nível, porque no fundo, o cinema adora maquiar essas trajetórias, dando um tom mais épico e mais romantizado do que realmente foi a realidade. Seja qual for sua intenção, a obra acabou me surpreendendo mais do que outras do mesmo gênero, principalmente porque eu não fazia ideia do fim que havia tido os integrantes dos Beach Boys, não fazia ideia deste universo imenso existente por trás da fama, por trás do verão, das praias e de todo este conceito leve que a banda optou por seguir. Bate um certo desconforto acompanhar este filme, talvez por compreender que esta história tão pesada permaneceu quase que oculta durante todos esses anos. É sempre triste entender que por trás do sorriso que a mídia expõe, pode haver um ser vazio, que nitidamente precisa de ajuda e que por trás do esquecimento, do fim da fama, poderá haver um individuo que segue uma vida desgraçada e ninguém se dará conta disso. O peso da obra vem justamente disso.


Banda de rock californiana, The Beach Boys trouxe não só a irreverência e diversas inovações sonoras como também teve um grande impacto na história da música. Alcançando o ápice da carreira no final da década de 60, seu líder, porém, Brian Wilson, nunca conseguiu compreender exatamente esta fama. O longa se divide em duas passagens, quando o jovem Brian, vivido por Paul Dano, decide largar os palcos, onde cantava ao lado dos irmãos, de um primo e um amigo, e trabalhar apenas nos bastidores, desenvolvendo as canções e melodias para o grupo. Enfrentando sempre a forte pressão de seu pai, que sempre procurou dinheiro fácil, ele ainda precisava convencer os outros membros sobre suas escolhas musicais, que se alteravam diante de suas oscilações temperamentais e seus surtos psicológicos. A segunda parte, é quando já mais velho, Brian (John Cusack), vivendo sob medicamentos e sendo completamente controlado por seu terapeuta particular, Eugene Landy (Paul Giamatti), conhece a bela Melinda (Elizabeth Banks), que começa a questionar o estranho modo de vida daquele excêntrico homem, tentando compreender seu passado e como ele chegou até aquele ponto.

Novato na direção, Bill Pohlad é um produtor experiente, desenvolvendo ao longo de sua carreira obras como "Na Natureza Selvagem", "A Árvore da Vida" e "12 Anos de Escravidão". Aqui, ele praticamente realiza dois filmes em um, logo que existe uma separação muito nítida entre as duas épocas retratadas, tanto de ritmo como de visual. Por mais que essa divisão seja um ótimo recurso narrativo, não há, porém, a mesma força nos dois segmentos. O passado é mais interessante, a jornada de Brian Wilson ao lado da banda é de uma beleza irreparável, as sequências em que ele estuda e testa sons no estúdio chega a arrepiar de tão singelas e tão honestas. É delicioso de acompanhar a rotina do grupo, justamente porque a produção conseguiu captar toda a essência dos Beach Boys e também por ter trazido um olhar intimista sobre aquela vivência, focando na confusão que era a mente do protagonista, sem tentar entendê-lo ou julgá-lo. Já no momento presente, perde toda a delicadeza e sensibilidade, ainda que o texto seja bom e suas intenções também sejam, não houve uma boa direção de atores ali. Paul Giammati surge caricato, quase como um vilão, é um indivíduo irreal dentro daquele universo e Elizabeth Banks parece nunca compreender o que está fazendo ali. Apática, ela não transmite nenhum tipo de reação, o que é uma pena logo que o roteiro contava com ela para ser o elo entre as duas passagens. John Cusack é um ótimo ator, existe o esforço, mas perde quando já tivemos a oportunidade de conhecer o personagem pela alma e força de Paul Dano, além do fato dele reprisar alguns trejeitos de outros personagens.

É uma pena que "Love & Mercy" não tenha ido aos cinemas aqui no Brasil. Um filme muito bem realizado, que agradará não só os fãs da banda, mas para aqueles que apreciam uma boa cinebiografia. A trama é excelente e quando termina bate aquela sensação de "como eu não soube de tudo isso antes?" ou "porque as pessoas pararam de comentar sobre eles". Há tanto sobre o que dizer sobre The Beach Boys, sobre Brian Wilson e tudo o que ele enfrentou. É interessante como a obra pega um símbolo do sonho americano, da vida praiana perfeita, leve e despojada e desconstrói justamente quando opta por mergulhar na mente de seu criador, na mente de um homem que nunca compreendeu esta beleza, a fama, que parecia não compreender seu lugar no mundo, ainda que aceitasse sua genialidade como artista e influente na música, lutava por ser aceito, por ter sua loucura compreendida, ao mesmo tempo em que se fechava a um mundo só seu, procurando sempre um refúgio de suas dores. É bom quando encontramos personagens como este, que é difícil definir mas ainda assim é tão intrigante, melhor ainda é quando temos atores como Paul Dano, que abraça este ser complexo e entrega vida, entrega verdade. Além da fantástica atuação do ator, o filme se destaca pelo resgate de uma cultura, através dos figurinos e de todo o design de produção. Não há também do que reclamar de uma história embalada por ótimas canções como "God Only Knows" e "Wouldn't It Be Nice".

NOTA: 8



País de origem: EUA
Duração: 121 minutos
Distribuidor: Sony Pictures
Diretor: Bill Pohlad
Roteiro: Oren Moverman
Elenco: Paul Dano, John Cusack, Elizabeth Banks, Paul Giamatti, Brett Davern





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