quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Crítica: Corrente do Mal (It Follows, 2014)

O terror é um gênero que pouco tem nos oferecido algo de bom, por isso é tão compreensível a fama repentina de "It Follows" e como muitos já o tem citado como um dos melhores dos últimos anos. Não que seja uma obra-prima, mas ao menos é um produto de qualidade, que vai além do que estamos acostumados a ver. É um filme que respeita o cinema e o seu público.

por Fernando Labanca

A premissa de "Corrente do Mal" pode parecer bem bizarra, e de certa forma, até é. No entanto, seu roteiro é tão bem trabalhado e a construção de seu universo é tão sólida e convincente, que a ideia, ao longo do filme vai se tornando interessante e bastante promissora. Basicamente, é sobre uma força maligna transmitida através do sexo, onde o mal ganha forma de uma pessoa, seja conhecida ou não, e que ninguém mais vê a não ser o novo portador dessa maldição. Esse ser tentará matá-lo e a única maneira de se livrar é justamente transando com outra pessoa. O longa começa quando a jovem Jay (Maika Monroe), que após um encontro sexual, começa a ser atormentada por estranhas visões, além de ter a constante sensação de que está sendo perseguida. Assim que descobre a verdade, ela, ao lado de seus amigos, tenta encontrar uma maneira de dar um fim e não apenas dar continuidade a esta corrente. 


O que torna "It Follows" tão bom e ao mesmo tempo tão diferente de outros títulos do gênero é o fato de que ele se preocupa com elementos nem sempre priorizados e dá menos atenção a tudo que entrou em desgaste no terror. Não tenta nos alimentar com aquilo que se pressupõe que queremos ver, não apela para o susto, a sanguinolência, não entrega perseguições alucinantes e reviravoltas inesperadas e sem nenhuma lógica apenas para chocar. A trama se desenvolve de forma lenta, se preocupa com aquilo que está tentando contar, com seus personagens e tudo o que eles tem a dizer diante do que os confronta. Se destaca, também, por trazer uma nova visão sobre o medo, onde ele surge em forma de desconforto, incomodo, o medo está naquilo que não vemos na tela e sentimos, ao lado da protagonista, uma constante sensação de desproteção e paranoia. Justamente por isso, seu silêncio é tão perturbador e a dúvida do que vem a seguir é tão apavorante. 

É interessante como o sexo é apresentado aqui e o que poderia ter sido a oportunidade perfeita para o gênero que abusa de mulheres indefesas e do corpo como objeto, vemos, no lugar de jovens sedutores, jovens deslocados, tirados do mundo real e que são muito bem representados na tela. Os dilemas de Jay são os dilemas que qualquer um poderia viver no lugar dela, longe do discurso forçado de uma protagonista bela e tola, trazendo um realismo a trama e trazendo questionamentos curiosos sobre desejo e repressão, como quando ela demonstra sentir uma atração por seu amigo de infância, que por sua vez, vê o sexo com um ato de amor e um ato de salvação e proteção dela, enquanto que ela tem a consciência do fardo que está carregando, se guardar para não ferir quem ama ao mesmo tempo em que não pode simplesmente destruir a vida de quem desconhece.  E diante disso, eu jamais poderia imaginar que um filme de terror pudesse ser tão sensível. Sim, ele é. É delicado por esta relação que nasce entre os personagens, desses que vivem nesta cidade pacata com ares melancólicos, com seus desejos reprimidos, que se veem distantes dali, vivendo outras vidas, tendo outras chances.

Algo que me instigou e muito em "Corrente do Mal" foi sua composição e é por isso que digo que é um filme que respeita o cinema. É genial e bonito de se ver. Sua paleta de cores, a excelente fotografia, com sua iluminação e enquadramentos perfeitos são, definitivamente, um deleite visual. E o diretor David Robert Mitchell merece palmas por isso e espero vê-lo fazendo outras coisas. É, também, muito inusitado essa atemporalidade da obra, deste universo único que criam como cenário, desta época que nunca existiu mas que poderia, ainda assim, ser qualquer uma: o fascinante encontro do contemporâneo com o retrô. Vale destacar, claro, a brilhante trilha sonora composta pelo músico e compositor Richard Vreeland. O longa peca um pouco na questão de ritmo e devido ao fato de que nem sempre a trama segue para um ponto e principalmente por ser lento, isso acaba causando um desinteresse por alguns momentos. No geral, não vejo como sendo essa obra-prima que a mídia tem apontado, no entanto, se difere e muito do que temos hoje no gênero e por isso merece atenção. Com pouco orçamento e extremamente bem realizado, um terror indie como nunca se viu. Um filme raro e digno de admiração. Recomendo. 

NOTA: 8





País de origem: EUA
Duração: 94 minutos
Distribuidor: California Filmes
Diretor: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Olivia Luccard, Daniel Zovatto


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